— Cara, como um cara que ganhou a Premier League no primeiro ano pode ser demitido logo depois?
— Simples. Ganhou com 29 gols do Salah. Quando o Salah sumiu, sumiu o time junto.
— Então o problema nunca foi o Slot?
Essa conversa aconteceu em dezenas de pubs de Liverpool neste sábado, 30 de maio de 2026, quando o clube confirmou a demissão de Arne Slot após apenas duas temporadas em Anfield. A decisão, comunicada pelo Liverpool em nota oficial, encerra um ciclo que começou com o título da Premier League em 2024-25 e terminou com 60 pontos, quinto lugar e 25 pontos de distância do Arsenal campeão desta temporada. Para efeito de comparação, esses 60 pontos são o equivalente ao que o próprio Liverpool somou na campanha de 2015-16 — há uma década.
Da festa do título ao quinto lugar em doze meses
Slot chegou a Anfield em 2024 com a missão mais ingrata do futebol inglês: substituir Jürgen Klopp, o técnico que transformou o clube em potência europeia durante nove anos. O holandês, formado no Feyenoord, respondeu com um campeonato. Na temporada 2024-25, o Liverpool somou pontos suficientes para conquistar a Premier League apoiado em números que poucos jogadores individuais produzem numa vida inteira — Mohamed Salah terminou o campeonato com 29 gols e 18 assistências, ou seja, 47 participações diretas em gols. Para contextualizar: esse número supera a soma de gols marcados por todos os jogadores de linha titulares do Wolverhampton naquela mesma temporada.
O problema estrutural estava embutido nessa estatística. Quando um único jogador concentra tamanha responsabilidade ofensiva, qualquer variação no seu rendimento reverbera pelo clube inteiro como um sismo. E foi exatamente o que aconteceu em 2025-26.
O declínio de Salah e a fragilidade do modelo tático
Na segunda temporada de Slot, Salah — que completou 34 anos em junho de 2025 — apresentou queda de rendimento que o próprio clube reconheceu indiretamente ao descrever os "desafios e encargos consideráveis" enfrentados ao longo do ano. Sem o egípcio funcionando em capacidade máxima, o pressing alto que Slot tentava implementar — inspirado no gegenpressing de Klopp, mas com transições mais controladas — perdeu a referência ofensiva que dava velocidade e profundidade ao sistema.
Quem acompanhou o Feyenoord entre 2021 e 2024 sabe que Slot trabalha bem com jogadores que combinam inteligência posicional e capacidade de pressionar em bloco. No Liverpool, esse equilíbrio funcionou enquanto Salah estava em forma e o elenco mantinha coesão. Quando as peças começaram a falhar, o sistema ficou exposto — e o clube não conseguiu sequer vencer uma copa nacional durante toda a temporada.
"A contribuição que Arne deu ao Liverpool FC durante o tempo em que esteve conosco foi significativa, importante e — o mais importante de tudo para os torcedores e para nós mesmos — bem-sucedida", disse o clube em comunicado oficial. "Ao mesmo tempo, chegamos coletivamente à conclusão de que a mudança é necessária para que o clube continue avançando."
A nota do Liverpool, publicada conforme registrado pelo SportNavo, equilibra gratidão com pragmatismo — linguagem corporativa que, traduzida do inglês institucional, significa: o título de 2024-25 não apaga uma temporada inteira de estagnação.

O que Slot não conseguiu resolver em Anfield
Três fatores estruturais pesaram contra o holandês nesta segunda temporada. Primeiro, a dependência excessiva de Salah nunca foi diluída — o clube não contratou um segundo atacante capaz de dividir a carga criativa com o egípcio. Segundo, o Liverpool não conseguiu desenvolver alternativas táticas quando o adversário fechava os espaços que o sistema de Slot precisa para funcionar — diferente do tiki-taka do Barcelona, que redistribui a bola com mais paciência, o modelo do holandês exige intensidade física que um elenco envelhecido em setores-chave não conseguiu sustentar por 38 rodadas. Terceiro, a falta de título em copas nacionais eliminou qualquer narrativa alternativa que pudesse amenizar a queda na tabela.
O placar final da temporada — 60 pontos, quinto lugar — é impiedoso. Não porque seja catastrófico em termos absolutos, mas porque o contraste com os 25 pontos do Arsenal campeão torna a distância impossível de minimizar.
Iraola na fila e as lições para o próximo ciclo
A mídia britânica já aponta Andoni Iraola como favorito para assumir o cargo. O técnico espanhol conduziu o Bournemouth ao sexto lugar nesta temporada 2025-26, garantindo a classificação para a Liga Europa pela primeira vez na história do clube — feito que, no contexto da Premier League atual, representa uma gestão técnica acima da média dos recursos disponíveis. Iraola, formado na escola basca de Athletic Bilbao, tem perfil distinto de Slot: sua equipe no Bournemouth praticou um pressing mais agressivo e variou mais entre linhas defensivas altas e médias, o que pode ser uma resposta direta às fragilidades expostas na era Slot.
"Desde o momento em que encontramos Arne pela primeira vez, ficou imediatamente claro que ele é uma pessoa que não apenas aceita a responsabilidade, mas a abraça", completou o comunicado do Liverpool — palavras que soam como epitáfio elegante para um técnico que venceu quando tinha tudo a favor e cedeu quando o contexto mudou.
O Liverpool deve anunciar o novo técnico nas próximas semanas, antes do início da pré-temporada em julho. A janela de transferências de verão abre em 1º de junho, e o clube precisará decidir rapidamente sobre o futuro de Salah — cujo contrato e papel no elenco dependem diretamente do perfil do próximo treinador. Se Iraola for confirmado, a primeira missão será construir um ataque que não dependa de um único jogador para somar 47 participações em gols.










