23 anos, uma convocação que desbancou Trent Alexander-Arnold e, agora, uma coxa que não obedece. Tino Livramento sofreu uma lesão muscular no treino desta terça-feira e deve ser cortado da seleção inglesa antes mesmo de estrear na Copa do Mundo — com o prazo para a substituição se encerrando às 17h (horário de Brasília) do mesmo dia, conforme exige o regulamento da FIFA. O favorito para assumir a vaga é o zagueiro do Chelsea Trevoh Chalobah, que integrava a lista preliminar de 55 nomes enviada à entidade no mês passado.

O número que define o drama de Livramento

Uma lesão de coxa. Dois treinos antes da estreia. Três anos de espera desde que Livramento começou a chamar atenção no Southampton, antes de se consolidar no Newcastle United. Esses números sintetizam um dos episódios mais cruéis que o futebol pode produzir: a queda às vésperas do palco maior. A convocação de Livramento havia sido, ela própria, uma declaração de intenções de Thomas Tuchel — uma aposta no presente vibrante em detrimento do passado consagrado de Alexander-Arnold. Agora, a lesão transforma essa aposta numa linha interrompida no meio do traçado.

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Quem acompanhou a Copa de 1998 lembra de Ronaldo entrando em campo contra a França com aquele olhar ausente, horas depois de uma convulsão nos bastidores. A situação de Livramento é diferente — ele nem chega ao gramado —, mas o peso dramático tem a mesma densidade: um jovem no pico da sua trajetória, derrubado por algo que nenhum plano tático consegue prever. Há algo de A Queda, de Albert Camus, nessa narrativa: o momento em que a grandeza se revela frágil não por falta de mérito, mas pela arbitrariedade do acaso.

Como Chalobah muda o desenho defensivo de Tuchel

A entrada de Chalobah não é uma substituição de posição por posição. Livramento é um lateral-direito de perfil moderno — veloz, participativo na construção, capaz de cruzar a linha de pressão alta que Tuchel gosta de impor. Chalobah, formado nas categorias de base do Chelsea e hoje com 25 anos, é essencialmente um zagueiro central, com passagens por Ipswich, Huddersfield e Lorient por empréstimo antes de ganhar espaço no clube londrino. Usá-lo como lateral direito exige adaptação, e Tuchel conhece bem essa necessidade de improviso — foi ele quem, no Chelsea de 2021, transformou Reece James num pilar do sistema de três defensores que conquistou a Champions League.

O número que define o drama de Livramento Livramento sai lesionado e Tuchel perd
O número que define o drama de Livramento Livramento sai lesionado e Tuchel perd

Historicamente, a Inglaterra tem sofrido com coberturas improvisadas no lado direito. Na Copa de 1990, Gary Stevens e Paul Parker dividiram a função de forma irregular até a semifinal contra a Alemanha. Em 2002, Danny Mills foi convocado como alternativa e entregou desempenhos irregulares no Japão. A tendência de recorrer a soluções de emergência nessa posição não é nova no futebol inglês — o que muda agora é a qualidade geral do elenco ao redor, que permite absorver melhor esse tipo de perda.

Segundo informações do The Telegraph, que primeiro relatou a situação, a comissão médica inglesa avaliou que não havia tempo hábil para recuperar o atleta sequer para a fase de grupos. Tuchel e sua comissão técnica teriam optado por oficializar o corte imediatamente, priorizando a regularização junto à FIFA dentro do prazo regulamentar.

Como Chalobah muda o desenho defensivo de Tuchel Livramento sai lesionado e Tuch
Como Chalobah muda o desenho defensivo de Tuchel Livramento sai lesionado e Tuch
"A decisão final cabe ao corpo técnico liderado por Thomas Tuchel, que avalia o impacto técnico da perda do atleta para o restante da competição", informou o The Telegraph ao noticiar o caso.

A Inglaterra ainda chega forte ao AT&T Stadium

A estreia está marcada para esta quarta-feira (17), às 16h (horário de Brasília), contra a Croácia no AT&T Stadium, em Dallas. O adversário não é escolhido ao acaso pelo imaginário inglês: foi a Croácia que eliminou a seleção das Três Leões na semifinal da Copa de 2018, na Rússia, com um gol de Mário Mandžukić na prorrogação. Aquela derrota ainda dói, e Tuchel sabe que parte da narrativa desta campanha passa por exorcizar esse fantasma — agora sem um dos seus laterais mais promissores.

A perda de Livramento é real, mas não desestabiliza o núcleo central da equipe. Harry Kane segue como referência ofensiva, Jude Bellingham como motor do meio-campo, e a defesa central conta com opções consolidadas. O problema está na cadeia lateral direita, que agora exige que Tuchel decida entre escalar Chalobah em posição não natural ou reorganizar o sistema defensivo para proteger melhor aquele corredor contra os avanços croatas.

Em matéria do SportNavo publicada anteriormente, já se discutia como Tuchel havia redesenhado a convocação inglesa com apostas em jogadores fora do radar convencional — Livramento era um desses nomes. A perda do lateral reforça que o técnico alemão terá de mostrar sua capacidade de adaptação já no primeiro jogo, algo que, aliás, sempre foi uma de suas marcas registradas nos clubes.

"Revelado pelas categorias de base do Chelsea, o jogador ganhou projeção nacional no Southampton antes de se consolidar no Newcastle United", descreveu o The Telegraph ao traçar o perfil do jovem defensor.

A Inglaterra chega ao torneio como uma das favoritas ao título — algo que não acontecia com tanta convicção desde a geração de Paul Scholes e Michael Owen, no início dos anos 2000. Uma lesão de coxa num treino de véspera não muda esse status, mas lembra que torneios de Copa do Mundo são ganhos e perdidos também nos corredores dos centros de treinamento, longe das câmeras. É o mesmo cenário que a França viveu em 2002 — quando Zinédine Zidane chegou lesionado ao Mundial do Japão e a equipe campeã saiu na fase de grupos sem marcar um gol sequer — só que agora a aposta é diferente: Tuchel ainda tem tempo para montar outra peça no lugar.