Dois contratempos em sequência — uma fratura no rosto e uma suspensão continental — não devem tirar Luca Zidane da Copa do Mundo 2026. O goleiro de 27 anos, titular da Argélia na Copa Africana de Nações de janeiro, sofreu fratura na mandíbula e no queixo no último minuto da derrota por 4 a 2 do Granada para o Almeria, pela penúltima rodada da Série B espanhola. O clube informou oficialmente que Zidane também sofreu comoção cerebral no choque, e que os serviços médicos do clube definiriam nas próximas horas o protocolo de tratamento.

A suspensão que não morde a Copa

A Confederação Africana de Futebol (CAF) aplicou suspensão de dois jogos a Luca Zidane em decorrência de incidentes registrados após a derrota da Argélia por 2 a 0 para a Nigéria nas quartas de final da AFCON, disputadas em 10 de janeiro no Marrocos. Imagens do jogo mostraram o goleiro empurrando o meio-campista nigeriano Raphael Onyedik, enquanto outros jogadores confrontavam o árbitro senegalês Issa Sy ao final da partida. O defensor Rafik Belkhali foi punido com quatro jogos, dois suspensos.

A punição, contudo, restringe-se às Eliminatórias da AFCON 2027, que começam em setembro. Havia preocupação legítima de que qualquer sanção pudesse comprometer os primeiros jogos da Argélia na Copa, marcados para 16 de junho — contra a atual campeã Argentina — e 22 de junho, diante da Jordânia. A Federação Argelina de Futebol (FAF) confirmou que Zidane estará disponível para o Mundial e já iniciou processo de apelação.

"A FAF acompanhará de perto os desdobramentos deste caso e reafirma seu compromisso de defender os interesses do futebol argelino, em estrito cumprimento dos canais regulatórios e institucionais", declarou a federação em comunicado oficial.

Trajetória de um goleiro construída à margem do sobrenome

Nascido em Aix-en-Provence, no sul da França, e criado na Espanha, Luca é o segundo filho de Zinédine Zidane, ídolo que foi campeão mundial em 1998, bicampeão europeu com o Real Madrid (2016, 2017, 2018) e Bola de Ouro em 1998. Luca passou pelas categorias de base da seleção francesa entre 2014 e 2018, do Sub-16 ao Sub-20, sem jamais receber convocação para a equipe principal adulta. Em 2024, solicitou à Fifa mudança de elegibilidade para defender a Argélia, país de origem de seus avós paternos Smail e Malika Zidane, que emigraram para a região de Marselha na década de 1960.

Na AFCON de 2025, disputada no Marrocos, Luca Zidane foi titular em três das quatro partidas em que a Argélia escalou força máxima. O saldo foi expressivo: a equipe venceu o Sudão por 3 a 0 na estreia do Grupo E, bateu Burkina Faso por 1 a 0 na segunda rodada e eliminou o Congo por 1 a 0 nas oitavas de final. A única derrota com Zidane na meta foi exatamente a que o eliminou da competição — 2 a 0 para a Nigéria, seguida dos episódios que geraram a punição da CAF. Antes disso, seu único gol sofrido havia sido na vitória por 2 a 1 sobre Uganda, nas eliminatórias africanas para o Mundial.

"O jogador, junto com os serviços médicos do clube, decidirá nas próximas horas o tratamento a seguir", informou o Granada em nota divulgada após a partida contra o Almeria.

Argélia no Grupo J e o peso do confronto com Messi

A Argélia integra o Grupo J da Copa do Mundo 2026 ao lado de Argentina, Jordânia e Áustria — chaveamento que coloca Luca Zidane diante de um desafio histórico já na estreia. Em 16 de junho, o goleiro pode defender o gol argelino contra Lionel Messi, autor de 13 gols em Copas do Mundo, recordista argentino na competição. A Argentina chega ao torneio como atual bicampeã: venceu a Copa América de 2021, a Copa do Mundo do Qatar em 2022 e a Copa América de 2024.

A análise do SportNavo sobre o desempenho da Argélia nas últimas três edições da Copa do Mundo revela um retrospecto irregular: eliminação na fase de grupos em 2010 (África do Sul), oitavas de final em 2014 (Brasil) e nova eliminação em grupos em 2022 (Qatar). Para 2026, a equipe aposta na solidez defensiva que Luca Zidane começou a demonstrar no torneio continental como ponto de partida para uma campanha mais profunda.

Pai e filho, gerações distintas, mesma camisa

A comparação com o pai é inevitável, mas matematicamente injusta. Zinédine Zidane marcou 31 gols em 108 jogos pela seleção francesa, disputou três Copas do Mundo (1998, 2002 e 2006) e foi artilheiro do torneio de 1998 com apenas dois gols — resultado da estrutura defensiva da competição naquela edição —, mas decidiu a final diante do Brasil com uma dobradinha de cabeça, placar de 3 a 0. Em 2006, Zidane pai encerrou a carreira após a cabeçada em Materazzi na final contra a Itália, derrota nos pênaltis após 1 a 1 no tempo regulamentado.

Luca trilha um caminho diferente: guarda o gol, carrega o sobrenome e ancora numa identidade que não é francesa nem puramente espanhola — é argelina por escolha. Zinédine Zidane acompanhou pessoalmente as partidas do filho na AFCON 2025, presença que simboliza a transferência de um legado que atravessa gerações e fronteiras.

Se recuperado da fratura na mandíbula dentro do prazo previsto pelos serviços médicos do Granada, Luca Zidane defende a meta da Argélia em 16 de junho diante da Argentina, no primeiro jogo do Grupo J da Copa do Mundo 2026, com a missão concreta de segurar a campeã mundial vigente.