O filho ganhou onde o pai nunca jogou — e isso pode mudar o desfecho de uma Copa do Mundo. Nesta quarta-feira, 3 de junho, no estádio De Kuip, em Roterdã, a Holanda recebeu a Argélia em amistoso preparatório para a Copa do Mundo e saiu derrotada por 1 a 0, com gol de Anis Hadj-Moussa aos 85 minutos. A derrota seria apenas um resultado de pré-temporada se não fosse o nome que sustentou o placar intacto por 84 minutos: Luca Zidane, goleiro de 26 anos e filho do ex-campeão mundial francês, foi eleito o destaque da partida com defesas que interditaram finalizações de Gakpo, Reijnders e companhia.
O que Koeman não conseguiu resolver contra os Fennecs
A Holanda entrou em campo com intensidade no primeiro tempo e dominou territorialmente, mas esbarrou num muro que não tinha nome técnico antes desta noite. Gakpo avançou até a entrada da área e soltou uma finalização de longa distância que Luca Zidane encaixou com firmeza. Na sequência, Reijnders recebeu pelo lado direito da área e bateu de primeira — nova intervenção do goleiro argelino. Malen, que atuou como centroavante titular, chegou a carimbar a trave em uma das melhores oportunidades da Laranja Mecânica. O técnico Ronald Koeman optou por poupar Memphis Depay para o segundo tempo, mas a entrada do atacante do Corinthians não alterou o equilíbrio — a Holanda perdeu intensidade após o intervalo e passou a sofrer mais pressão do que criava.
"A Argélia estava muito forte, estável e bem entrosada. A Holanda ainda está em busca de um time titular fixo. Koeman precisa parar de uma vez com Memphis Depay e Weghorst." — torcedor holandês nas redes sociais, conforme circulou na imprensa especializada.
A reação nas redes sociais holandesas foi imediata e reveladora. Um torcedor resumiu o momento de Depay com ironia direta: "Memphis e Depay podem ir juntos ao Mundial enchendo as garrafas d'água." Outro afirmou que a perda de bola do atacante "diz o suficiente para o futuro." A leitura coletiva do torcedor holandês, registrada em tempo real, aponta para uma seleção que ainda não encontrou sua espinha dorsal ofensiva a menos de duas semanas do início do torneio.
Hadj-Moussa e o gol que a Argélia vai guardar na memória
Quando o empate em 0 a 0 parecia o desfecho mais provável, Anis Hadj-Moussa, um dos substitutos acionados pelo técnico Vladimir Petković, recebeu pelo lado direito aos 85 minutos, cortou para o centro e, com o pé esquerdo, encaixou uma finalização no segundo poste que não deu chances ao goleiro Robin Roefs. O gol, tecnicamente elaborado e executado sob pressão de resultado, foi celebrado por uma grande quantidade de torcedores argelinos presentes no De Kuip — o que, por si só, já diz algo sobre a mobilização diasporicamente organizada da torcida da seleção africana. A Argélia chegou a Roterdã com 27 jogadores em concentração no Centro Técnico Nacional de Sidi Moussa, ainda com incertezas sobre a lista definitiva, especialmente em razão de lesões acumuladas na Copa Africana de Nações 2025 — casos como os de Samir Chergui, Jaouen Hadjam e Houssem Aouar preocupavam a comissão técnica nas semanas anteriores. O resultado desta quarta-feira chega, portanto, com valor psicológico e político dentro do grupo.
Luca Zidane e o peso de um sobrenome que virou bandeira
Há uma dimensão sociológica que o placar não captura: Luca Zidane defende a Argélia — não a França, país onde nasceu e foi formado. Seu pai, Zinédine Zidane, é um dos maiores símbolos do futebol francês, filho de imigrantes argelinos de Aguemoune, na Cabília. A escolha de Luca pela camisa verde é, em si, um ato de pertencimento que ressoa em duas culturas simultaneamente. Que ele tenha sido o maior destaque individual de uma vitória argelina sobre a Holanda, em solo europeu, às vésperas de uma Copa do Mundo, transforma o fato esportivo em narrativa de identidade. Para dimensionar o peso da atuação: a Holanda, que ocupa o 7º lugar no ranking da FIFA, criou mais finalizações perigosas no primeiro tempo do que a Argélia criou em toda a partida — e mesmo assim saiu derrotada. Um goleiro que sustenta um placar contra um adversário com esse volume ofensivo equivale, em termos de contribuição individual, a algo comparável ao que um atacante faz ao marcar dois gols em uma partida equilibrada.

"Sustentado em boas intervenções de Zidane, o arqueiro filho do mítico jogador francês, a Argélia se vai para os Estados Unidos com um triunfo-chave no bolsillo." — mejorinformado.com, em cobertura da partida.
A estreia contra a Argentina e o que a história já ensinou
A Argélia estreia na Copa do Mundo contra a Argentina — e o único precedente direto entre as duas seleções, um amistoso disputado em 5 de junho de 2007 no Camp Nou, terminou em 4 a 3 para os argentinos, com Messi marcando dois gols, mas com os argelinos mostrando que são capazes de pressionar qualquer adversário até o apito final. Quase 19 anos depois, a equipe de Petković chega ao mesmo confronto vindo de uma vitória sobre a sétima seleção do mundo, com um goleiro em estado de graça e ainda um amistoso de ajuste programado contra a Bolívia, em Kansas City. O filho ganhou onde o pai foi formado — e agora a Argélia leva essa confiança para os Estados Unidos.









