Um jogador que provoca é punido com cartão amarelo. Uma torcida que reage é punida com multa, perda de mando e encaminhamento ao Jecrim. O paradoxo do clássico de domingo (10) na Neo Química Arena é que, ao final dos 90 minutos, quem saiu com mais dano institucional foi exatamente o clube que venceu por 3 a 2.
O gol, a bandeira e os objetos que pararam o jogo
Aos 40 minutos do primeiro tempo da 15ª rodada do Brasileirão 2026, Luciano marcou o gol de empate do São Paulo e correu em direção à bandeira de escanteio posicionada entre os setores Norte e Leste da Neo Química Arena — a bandeira com o escudo do Corinthians. A comemoração perto da torcida adversária já seria suficiente para elevar a tensão. O chute na bandeira transformou o momento em estopim.
A resposta das arquibancadas foi imediata e documentada em súmula pelo árbitro Anderson Daronco: um cigarro eletrônico (vape), um isqueiro e um óculos de sol foram arremessados ao gramado. Daronco registrou que "não foi possível identificar se os mesmos atingiram algum atleta", mas as imagens da transmissão do Prime Video mostraram Calleri sendo atingido na mão por um dos objetos. O Corinthians identificou três torcedores, que foram encaminhados ao Jecrim — o Juizado Especial Criminal — para deporem à Polícia Civil.

O clássico ainda acumulou mais registros constrangedores: no início do segundo tempo, bobinas de papel lançadas da arquibancada Norte cobriram o gramado a ponto de impossibilitar a visualização das linhas demarcatórias. O próprio capitão corintiano precisou intervir pedindo que a torcida parasse. Matheus Bidu, Gabriel Paulista, Sabino e Calleri receberam cartão amarelo pela confusão gerada após o gol.
Quantas vezes Luciano já fez isso — e qual foi o preço
O episódio de domingo não surgiu do nada. Ele tem um antecedente direto e documentado na semifinal da Copa do Brasil de 2023, quando o mesmo Luciano marcou para o São Paulo na Neo Química Arena, chutou a bandeira de escanteio com o escudo corintiano e correu para comemorar em frente à Fiel. O árbitro Wilton Pereira Sampaio relatou naquele jogo o arremesso de "um tênis, um cigarro eletrônico, um isqueiro e vários copos com líquidos". Um dos copos atingiu Luciano no ombro, conforme registrado na súmula. O jogador recebeu cartão amarelo pelo gesto com a bandeira e ficou suspenso da partida de volta. O Corinthians venceu aquele jogo por 2 a 1, com dois gols de Renato Augusto.
Três anos separam os dois episódios. O roteiro é quase idêntico: gol de Luciano, provocação com elemento simbólico corintiano, objetos voando das arquibancadas, registros em súmula, torcedores identificados. A diferença de 2026 é que o clube já carrega um histórico de punições por comportamento de torcida em clássicos — incluindo multa aplicada em novembro do ano passado por arremesso de objetos em situação similar.
A pergunta que o Corinthians precisa responder antes do próximo clássico é simples e desconfortável: quanto custa, em reais e em pontos corridos, cada vez que a torcida transforma uma provocação em munição?
O padrão de punição e o que o STJD pode fazer agora
O histórico recente do clube no Superior Tribunal de Justiça Desportiva é um mapa de consequências acumuladas. Em 2023, após os arremessos na semifinal da Copa do Brasil, o Corinthians foi obrigado a mandar um jogo contra o Vasco sem torcida, punição decorrente de cânticos homofóbicos no clássico de maio daquele ano. A sobreposição de infrações — gritos discriminatórios, objetos no gramado, atraso no início de tempo — constrói um dossiê que o STJD não pode ignorar.
Em 2026, o contexto é ainda mais delicado. O árbitro Anderson Daronco registrou na súmula do jogo de domingo não apenas os objetos arremessados, mas também o atraso no retorno do intervalo causado pelas bobinas de papel e a irregularidade no uniforme do goleiro corintiano. Três anotações em um único documento. Para o departamento jurídico do clube, cada linha dessas é uma frente de defesa que precisará ser aberta.
"Relato que no momento do gol do São Paulo FC, foi arremessado no campo de jogo em direção aos atletas do clube que estavam comemorando o gol um vape, um isqueiro e um óculos de sol", escreveu Anderson Daronco na súmula oficial da partida.
Do lado são-paulino, o volante Bobadilla também passou pelo escrutínio do VAR por suposto gesto obsceno na comemoração. Daronco foi ao monitor e optou por não punir:
"Após revisão, percebo o jogador do São Paulo comemorando o gol, e não encosta a mão na sua genitália, ele comemora a situação. Sem cartão", anunciou o árbitro em campo, com microfone aberto. A decisão irritou os jogadores do Corinthians, que lembraram as expulsões recentes de Allan, contra o Fluminense, e André, contra o Palmeiras, em situações que o clube considera equivalentes.
O Corinthians volta a campo pela 16ª rodada do Brasileirão 2026, e o São Paulo de Luciano terá mais clássicos pela frente nesta temporada. O STJD tem prazo regimental para analisar a súmula de domingo e decidir sobre eventuais punições ao clube da casa. A audiência que definirá se haverá perda de mando, multa ou jogo sem torcida está marcada para os próximos dias — e a data do julgamento, mais do que qualquer placar, é o número que o torcedor corintiano precisa acompanhar agora.









