O Vasco SAF divulgou seu balanço financeiro relativo ao exercício de 2025 no limite do prazo imposto pela Lei Geral do Esporte — 30 de abril —, e os números exigem leitura cuidadosa. A dívida total atingiu R$ 1,09 bilhão, dividida entre R$ 384,5 milhões em passivo de curto prazo e R$ 711,8 milhões em obrigações de longo prazo. O relatório registra lucro líquido de R$ 81,2 milhões, o primeiro superávit desde a criação da SAF, mas a própria diretoria tratou de explicar de onde esse resultado vem — e a resposta revela uma fotografia bem menos animadora do que o número isolado sugere.
O que a Recuperação Judicial faz com os números
A chave para entender o balanço está numa admissão feita pelo próprio clube no documento enviado aos órgãos reguladores. O Plano de Recuperação Judicial (PRJ), homologado em outubro de 2025, gerou ajustes contábeis que distorcem o resultado real da operação.
"No que se refere aos efeitos contábeis, verifica-se que o PRJ exerceu impacto material sobre o resultado do exercício de 2025. Na ausência desses efeitos, o resultado do período apresentaria prejuízo da ordem de R$ 232 milhões, em contraste com o lucro de R$ 81 milhões reportado", comunicou a diretoria no documento oficial.
Em termos práticos, o Vasco transformou R$ 313 milhões de diferença — o intervalo entre o prejuízo real de R$ 232 milhões e o lucro contábil de R$ 81,2 milhões — por meio de reclassificações de passivos permitidas pelas regras da recuperação judicial. Desse total em processo de reestruturação, R$ 457,9 milhões integram o plano de recuperação, com R$ 446,7 milhões alocados no passivo não circulante. A análise do SportNavo mostra que essa migração de dívidas do curto para o longo prazo é o principal mecanismo que transforma um resultado operacional negativo em superávit contábil.
Receita cresceu, mas não o suficiente para cobrir o rombo
Há, de fato, uma melhora operacional relevante que merece reconhecimento. O faturamento bruto do Vasco atingiu R$ 628 milhões em 2025, crescimento de 18,7% em relação ao exercício anterior, quando o clube havia registrado receita recorde de R$ 473,8 milhões. Três fatores explicam esse salto: a campanha expressiva na Copa do Brasil, a venda de atletas e a própria homologação da RJ, que normalizou o ambiente de negociações.
O Conselho Fiscal reforçou no parecer que o clube reverteu o déficit de R$ 114,7 milhões registrado no ano anterior para o atual superávit contábil de R$ 81,2 milhões. Mas o mesmo parecer deixa claro que o prejuízo operacional latente — aquele que existe antes dos ajustes da recuperação — permanece elevado. Crescer 18,7% em receita e ainda assim acumular prejuízo operacional de R$ 232 milhões indica que a estrutura de custos do clube continua incompatível com seu faturamento.
Contexto histórico e o peso da herança
O balanço de 2025 é o primeiro documento completo da gestão do presidente Pedrinho e representa evolução em transparência em relação ao relatório anterior: em 2024, o Vasco havia publicado um documento simplificado de apenas quatro páginas, com dívida declarada de R$ 1,18 bilhão. A redução nominal para R$ 1,09 bilhão, portanto, representa uma queda de aproximadamente R$ 90 milhões no passivo total — movimento positivo, mas insuficiente para alterar a gravidade da situação estrutural.
O clube ingressou no modelo de Sociedade Anônima do Futebol em 2022, sob o aporte inicial da 777 Partners, gestora americana que depois enfrentou crise de liquidez própria e se tornou parte do problema — não da solução. A herança de má gestão acumulada ao longo de décadas pelo clube associativo desembocou na necessidade de Recuperação Judicial, pedida formalmente em 2024. Nenhum dos superávits contábeis apresentados agora apaga esse histórico, nem elimina o risco de que dívidas reclassificadas como longo prazo retornem ao curto prazo caso o fluxo de caixa não melhore consistentemente.

O que os próximos meses vão revelar
Com R$ 384,5 milhões vencendo no curto prazo, a capacidade do Vasco de honrar compromissos nos próximos 12 meses é o verdadeiro teste da saúde financeira da SAF. O clube volta a campo pela Copa Sul-Americana, competição em que venceu o Olimpia-PAR por 3 a 0 na mesma semana em que o balanço foi divulgado, e a continuidade nas competições continentais é variável importante para manutenção do faturamento acima de R$ 600 milhões. Se o desempenho esportivo regredir e as receitas encolherem, os R$ 457,9 milhões em dívidas dentro do PRJ podem se tornar pressão insustentável antes do prazo previsto no plano de reestruturação.








