A Allianz Arena ainda vibrava com o mosaico bávaro — 'Schiesst uns ins finale!' — quando, aos dois minutos de jogo, Khvicha Kvaratskhelia rasgou o lado esquerdo da defesa alemã e tocou para Ousmane Dembélé bater forte. O PSG havia feito o que veio fazer. O resto da noite seria uma obra de resistência calculada, quase clínica. O Paris Saint-Germain empata em 1 a 1 com o Bayern de Munique na Allianz Arena, avança com placar agregado de 6 a 5 e chega à segunda final consecutiva de Champions League — desta vez para enfrentar o Arsenal, no dia 30 de maio, na Puskás Arena, em Budapeste.
A narrativa do PSG dependente de estrelas nunca foi tão falsa quanto agora
Durante anos, o clube parisiense foi lido como um projeto de marketing disfarçado de time de futebol — um aglomerado de egos que desmoronava nas noites europeias decisivas. A final perdida para o Bayern em 2020, em Lisboa, por 1 a 0, alimentou essa leitura. A saída de Neymar, a de Messi, e sobretudo a de Kylian Mbappé pareciam confirmar que o PSG era estruturalmente frágil sem um nome capaz de resolver sozinho. Luis Enrique chegou em 2023 para desmontar esse argumento com dados, não com discurso.
O que o técnico espanhol construiu é um sistema que distribui responsabilidade ofensiva de forma quase democrática. Dembélé, que na temporada passada foi decisivo na goleada de 5 a 0 sobre a Inter de Milão na final em Munique, voltou ao mesmo estádio para abrir o placar com a mesma frieza. Kvaratskhelia — contratado em janeiro de 2025 junto ao Napoli — tornou-se o jogador mais consistente do mata-mata desta edição: segundo os dados compilados pelo SportNavo, o georgiano participou diretamente de gols ou assistências em sete partidas consecutivas de eliminatórias, uma marca inédita na história da competição.
"O PSG foi imenso, resistindo ao favorito ao título. Mais um grande feito que coloca a equipe de Luis Enrique na final em Budapeste, agora com o status de favorita." — Le Parisien
O gegenpressing virou pressing inteligente e a diferença é enorme
Há uma distinção que vale observar com cuidado. O PSG de Luis Enrique não é um time de gegenpressing puro — aquela pressão imediata e intensa popularizada por Klopp no Borussia Dortmund. O que o espanhol implementou em Paris é mais sofisticado: um pressing seletivo, ativado em zonas específicas do campo, combinado com blocos defensivos compactos quando necessário. Na Allianz Arena, após o gol de Dembélé, o PSG simplesmente desligou o motor ofensivo e passou a administrar com uma maturidade que lembra o Barcelona de 2010 em noites europeias tensas.
O Bayern teve mais de 60% de posse de bola no segundo tempo, rodou e rodou pelo ataque, mas só ameaçou de verdade quando Harry Kane recebeu de Alphonso Davies e girou para empatar aos 48 minutos. A diferença entre os dois projetos táticos nesta semifinal foi, em termos de eficiência, da distância entre Manaus e Salvador — os bávaros criaram muito volume, os parisienses criaram os gols que importavam.
"Visceralmente ligado ao estádio bávaro desde a goleada sobre a Inter de Milão na final da última Champions, o clube parisiense repetiu a dose, com um merecido empate contra o Bayern, assegurando vaga na segunda final consecutiva." — L'Équipe
O Arsenal chega invicto, mas Budapeste já tem um dono recente
Mikel Arteta construiu um Arsenal disciplinado e difícil de bater — a equipe inglesa eliminou o Atlético de Madrid com vitória de 1 a 0 em Londres, após empate de 1 a 1 no Metropolitano, e chega à final de Budapeste sem ter sido derrotada na competição. Será apenas a segunda final de Champions da história do clube, vinte anos depois da derrota para o Barcelona por 2 a 1 no Stade de France, em Paris, com Thierry Henry como capitão.
O histórico recente, porém, pende para o lado francês. Na semifinal da temporada passada, PSG e Arsenal se encontraram e os parisienses venceram os dois jogos — 2 a 1 em Paris e 1 a 0 em Londres. Agora, o PSG chega como atual campeão, com um sistema tático consolidado e dois jogadores — Dembélé e Kvaratskhelia — que demonstraram capacidade de decidir contra qualquer defesa da Europa. A final está marcada para as 13h (horário de Brasília), com transmissão pelo SBT, TNT e HBO Max, e o show de abertura fica por conta do The Killers.
Nas arquibancadas da Puskás Arena, em 30 de maio, Kvaratskhelia vai aquecer numa extremidade do gramado enquanto o estádio ainda enche. Do outro lado, Dembélé vai ajustar as chuteiras. Luis Enrique, de braços cruzados na beira do campo, vai olhar para os dois e não vai precisar dizer nada.








