Confesso: eu errei sobre Luka Doncic em março. Quando os NBA analytics trackers mostravam ele liderando o Oeste em Box Plus/Minus durante uma sequência de 15-2 dos Lakers, escrevi aqui que o MVP seria uma disputa de dois. Era Luka ou SGA, dizia eu, com toda a convicção de quem tem quatro anos de Python e um dashboard bonito. O que eu não modelei foi o tendão da coxa. Ninguém modela o tendão da coxa.

O que os números de Doncic diziam antes da lesão mudar o jogo

A temporada regular de Doncic foi, em termos brutos, a mais produtiva de um jogador dos Lakers desde Kobe Bryant na era pré-lesão. Em 64 jogos, ele terminou com 33,5 pontos por jogo — título de artilharia da liga —, 8,3 assistências, 7,7 rebotes e 1,6 roubos de bola, com aproveitamento de 47,6% do campo e 36,6% de três. Para contextualizar esses números com uma métrica que vai além da linha de estatuto: o eFG% (Effective Field Goal Percentage, que pondera que cestas de três valem mais que as de dois) de Doncic ficou na casa dos 55%, território de eficiência de elite para um jogador com tamanha demanda de criação.

O problema não foi a produção. Foi o calendário. A lesão no tendão da coxa no fim da temporada regular retirou Doncic das discussões num momento em que a narrativa de MVP é tão decisiva quanto a estatística. O técnico JJ Redick não escondeu a frustração:

"Decepcionado. Acho que ele merecia estar lá e acho que os três que acabaram sendo finalistas tinham casos fortes. Muito disso, infelizmente, é momentum de mídia."

Redick tem razão num ponto que os dados confirmam: a votação de MVP correlaciona fortemente com performance nos dois meses finais da temporada regular. Doncic estava em trajetória ascendente em março — e então o corpo decidiu outra coisa.

Por que SGA, Jokic e Wembanyama ficaram à frente na votação

O painel de 100 jornalistas e analistas que vota o MVP usa critérios implícitos que qualquer modelo de regressão logística consegue capturar: recorde do time, disponibilidade e narrativa de impacto coletivo. Shai Gilgeous-Alexander levou o troféu pelo segundo ano consecutivo porque o Oklahoma City Thunder terminou com o melhor recorde da liga — e SGA esteve disponível e dominante do começo ao fim. Nikola Jokic segue sendo o padrão-ouro de eficiência bidirecional, e Victor Wembanyama, com 22 anos, produziu números de defesa que analistas como o SportNavo vêm acompanhando como potencialmente sem precedente histórico para a idade.

Doncic, por sua vez, teve um obstáculo adicional antes mesmo da lesão: ele quase não se qualificou para os prêmios. O mínimo exigido é 65 jogos disputados, e ele foi a campo apenas 64 vezes. O que salvou sua elegibilidade foi um recurso de Circunstâncias Extraordinárias aceito pela liga, motivado pela ausência em dois jogos para acompanhar o nascimento de sua filha. Sem esse recurso, a discussão sobre All-NBA sequer existiria.

A sexta seleção All-NBA e o clube que Doncic está prestes a entrar

Aqui é onde a história fica interessante — e onde eu, como alguém que passou anos construindo modelos preditivos, precisaria de muito pouco código para projetar o óbvio. Desde 2000, apenas três jogadores que terminaram em quarto no MVP deixaram de ser selecionados no primeiro time All-NBA: Russell Westbrook em 2015, Peja Stojakovic em 2004 e Karl Malone em 2000. Isso é 12% de probabilidade histórica de Doncic ficar fora — e nos três casos, os jogadores foram para o segundo time, não para o limbo. A vantagem de Doncic sobre o quinto colocado, Cade Cunningham, foi de 133 pontos na votação de MVP, e sobre Jaylen Brown, de 161 pontos. Essa margem confortável sinaliza que o consenso dos votantes o vê claramente acima do pelotão seguinte.

Se for selecionado no primeiro time — e seria uma das maiores surpresas estatísticas da história recente se não fosse —, Doncic empatará com Kevin Durant, James Harden, Hakeem Olajuwon, George Mikan e Dolph Schayes com seis primeiros times All-NBA. Ele e Jokic seriam os jogadores 22 e 23 a atingir essa marca. Para completar o absurdo: Doncic tem 27 anos. Só Wilt Chamberlain e Giannis Antetokounmpo chegaram a sete. LeBron James detém o recorde com 13. Seria hiperbólico chamar o que Doncic está construindo de uma era — mas é uma era em escala doméstica, e os dados de longevidade de elite sugerem que ele tem pelo menos cinco temporadas de pico pela frente.

O que os números de Doncic diziam antes da lesão mudar o jogo Luka Doncic ficou
O que os números de Doncic diziam antes da lesão mudar o jogo Luka Doncic ficou

O próximo passo concreto é a divulgação oficial do All-NBA, que deve ocorrer ainda nesta semana da pós-temporada da NBA. Se Doncic entrar no primeiro time, os Lakers terão, aos 27 anos do esloveno, um dos ativos mais valiosos da liga para construir ao redor no draft e no mercado de transferências do verão americano — e a pressão sobre a diretoria para dar a ele um elenco competitivo contra Thunder e Spurs no Oeste será proporcional ao tamanho histórico do nome no troféu.