O presidente ganhou ao perder. Em 29 de abril de 2026, o Senado Federal rejeitou a indicação de Jorge Messias ao Supremo Tribunal Federal por 42 votos contrários contra 34 favoráveis — um placar que humilhou a articulação política do Palácio do Planalto e, ao mesmo tempo, radicalizou a postura de Lula diante do Congresso. O paradoxo se resolve assim: a derrota deu ao presidente a convicção de que a vaga é dele, e não do Senado.

O placar que ninguém no Planalto esperava ver

Os cálculos internos do governo apontavam para uma aprovação "raspando", com algo próximo de 45 votos favoráveis. O líder do governo no Senado, Jaques Wagner (PT-BA), e o relator da indicação na CCJ, senador Weverton Rocha (PDT-MA), trabalhavam com essa margem até momentos antes da votação. O resultado final — 34 a 42 — ficou sete votos abaixo do mínimo necessário de 41 e expôs uma falha grave de leitura do plenário.

O episódio tem precedente histórico único: a última vez que o Senado brasileiro rejeitou uma indicação ao STF foi em 1894, quando o presidente Floriano Peixoto viu cinco nomes derrubados consecutivamente. Lula entrou para esse registro com uma derrota que aliados classificam como a maior humilhação institucional do terceiro mandato.

"Foi uma surpresa", disse Jaques Wagner ao deixar o Senado após a votação, em direção ao Palácio da Alvorada para conversar com Lula.

Instantes antes da contagem de votos, o presidente do Senado, Davi Alcolumbre (União Brasil-AP), avisou a Jaques que Messias iria "perder por oito" — precisamente a diferença final registrada. O áudio foi captado pela TV Senado. A assessoria de Alcolumbre confirmou que ele "deu sua opinião", o que, nos bastidores do Planalto, foi lido como sinal de que o presidente da Casa sabia do resultado com antecedência e não moveu um dedo para revertê-lo.

Dois cenários opostos que o Planalto sustenta ao mesmo tempo

Após a derrota, o governo passou a operar com duas narrativas simultâneas — e contraditórias. O senador Weverton Rocha afirmou que Lula lhe disse diretamente que não enviará outro nome ao Senado em 2026, deixando a vaga para o próximo mandato. A declaração circulou amplamente e foi tratada como posição oficial.

Dias depois, interlocutores do Palácio do Planalto passaram a sinalizar o oposto: Lula avalia reenviar o próprio nome de Messias antes das eleições de outubro, com a leitura de que a rejeição teve caráter político contra o governo, não técnico contra o indicado. O gesto de apoio recebido por Messias durante a posse do ministro Kassio Nunes Marques na presidência do Tribunal Superior Eleitoral foi interpretado no Planalto como prestígio institucional suficiente para sustentar uma nova tentativa.

"Lula ficou convencido de que Messias reúne qualificação para ocupar a cadeira no Supremo", relataram pessoas próximas ao presidente, segundo informações publicadas pela FolhaPress.

O SportNavo apurou que a tensão entre essas duas posições reflete a divisão real dentro do governo: parte da equipe política entende que reenviar o nome seria repetir o erro de subestimar o Senado; outra parte enxerga a recusa como capitulação que enfraquece ainda mais a imagem presidencial.

A rachadura entre Planalto e Senado vai além de Messias

O episódio aprofundou o desgaste entre Lula e Alcolumbre, já visível durante a cerimônia no TSE, onde aliados notaram distanciamento físico e protocolar entre os dois. A relação entre o Palácio do Planalto e o presidente do Senado nunca foi de proximidade orgânica, mas a rejeição de Messias transformou a frieza em tensão declarada.

O ministro das Relações Institucionais, José Guimarães, assumiu o cargo há menos de um mês quando a derrota ocorreu — e já acumula o peso de uma falha de articulação que parlamentares da base aliada descrevem como "sem precedentes". Lula, no entanto, manteve público o respaldo a Guimarães e a Jaques Wagner, sinalizando que não haverá mudanças na equipe de articulação política.

Jorge Messias, por sua vez, teria considerado deixar o governo após a derrota e permaneceu recluso nos dias seguintes. Entrou em férias no dia 13 de maio e retorna às atividades em 25 de maio. Lula aconselhou o ministro a não tomar decisões imediatas — o que, na prática, significa que o futuro de Messias na AGU está suspenso até ele voltar ao trabalho.

A oposição bolsonarista celebrou a rejeição como vitória eleitoral e já declarou que também barrará qualquer novo nome enviado por Lula ao STF ainda neste mandato. Com base aliada fragmentada e oposição coesa, o governo enfrenta uma equação aritmética desfavorável: os mesmos 42 votos contrários provavelmente se repetiriam em uma segunda votação, com ou sem Messias como indicado.

Se Lula reenviar o nome de Messias antes de outubro, o Senado vota novamente com a mesma composição atual. Se esperar o próximo mandato, a vaga fica aberta por pelo menos mais dois anos. Qual desses dois caminhos o presidente vai escolher — e quando essa decisão será anunciada formalmente?