Falhou. Com o placar em 3 a 0, o Clássico Mineiro já resolvido e o Cruzeiro reduzido a nove homens, Lyanco ainda encontrou maneira de complicar a noite do Atlético-MG. Aos 33 minutos do segundo tempo da vitória por 3 a 1 no Mineirão, pela 14ª rodada do Brasileirão de 2026, o zagueiro recebeu o segundo cartão amarelo após entrada dura em Bruno Rodrigues e foi expulso — deixando o Galo com dez jogadores numa partida que já estava sob controle total.
A cena
O vermelho de Lyanco não foi o que mais chamou atenção. Foi o que veio depois. Renan Lodi atravessou o campo para cobrar o companheiro, e o que deveria ser uma conversa rápida transformou-se em bate-boca que precisou ser interrompido por outros jogadores atleticanos. Num clássico que já havia registrado as expulsões de Arroyo e Kaiki pelo lado celeste, a última imagem da noite foi dois alvinegros discutindo no gramado do Mineirão — casa do rival.
O episódio ganhou contornos ainda mais reveladores quando Lodi, em entrevista ao SporTV após o jogo, explicou que o alerta havia sido dado muito antes daquela falta. "Eu tinha acabado de falar com ele no intervalo, e vou falar com ele outra vez. A gente sabe que a equipe deles ia provocar o Lyanco, ele tem um histórico que todo mundo sabe, não precisa esconder. Eu tinha acabado de falar com ele no intervalo para ter cabeça, dois a zero no placar. Não precisava daquilo", disse o lateral-esquerdo.
O contexto que explica
A frase de Lodi — "ele tem um histórico que todo mundo sabe" — não é retórica. Segundo levantamento do SportNavo, esta foi a sexta expulsão de Lyanco na temporada de 2026, número que o coloca numa categoria à parte no futebol brasileiro. Para se ter dimensão histórica do problema: Edmundo, o "Animal", acumulou 13 expulsões ao longo de toda a carreira no futebol brasileiro. Lyanco está no caminho de superar essa marca em menos de dois anos.

O próprio clássico mineiro já havia servido de palco para o descontrole do zagueiro antes. Na final do Campeonato Mineiro de 2026, Lyanco recebeu cartão vermelho sem sequer entrar em campo, durante a confusão generalizada do pós-jogo — partida que ficou marcada pelo recorde mundial de 23 expulsões. A sequência de comportamento repetitivo revela um padrão que os adversários aprenderam a explorar sistematicamente, como o próprio Lodi confirmou ao mencionar que o Cruzeiro havia planejado provocar o zagueiro durante o clássico deste sábado.
O movimento de Lyanco naquela entrada em Bruno Rodrigues lembrou uma onda quebrando em pedra seca — força total aplicada onde não havia mais nenhuma necessidade, apenas o impulso irrefreável do momento. O Galo vencia por 3 a 0, tinha dois jogadores a mais e o jogo estava encaminhado para a vitória mais tranquila do ano. A análise do SportNavo sobre o histórico disciplinar do zagueiro mostra que três das seis expulsões ocorreram em momentos em que o Atlético tinha vantagem no placar — o que torna o problema ainda mais grave do ponto de vista tático.
As implicações imediatas
A consequência mais visível foi o crescimento do Cruzeiro nos minutos finais. Com a superioridade numérica reduzida, a Raposa ganhou ânimo, Júnior Alonso cometeu pênalti desnecessário em Kaio Jorge aos 37 minutos, e o camisa 19 descontou para 3 a 1. O que poderia ter terminado em goleada tranquila encerrou com clima de tensão — e o técnico Artur Jorge reconheceu, na coletiva, que sua equipe "perdeu o controle emocional" na reta final, beneficiada justamente pela expulsão atleticana.
Lodi foi preciso ao diagnosticar o risco coletivo do comportamento individual: "Querendo ou não, isso incendeia o jogo. Querendo ou não, viram como a equipe deles cresceu depois. Mas isso eu resolvo com ele, tenho que cobrar dele, sim, e cobro porque gosto dele". A declaração é de alguém que entende a diferença entre crítica destrutiva e cobrança de quem quer ver o companheiro evoluir — distinção que o próprio Eduardo Domínguez precisará administrar nos próximos dias.
A vitória por 3 a 1 — com gols de Alan Minda, Maycon de pênalti e Cassierra — levou o Atlético aos 17 pontos, na 11ª colocação, ultrapassando justamente o Cruzeiro, que ficou em 14º com 16 pontos. O resultado alivia pressão após duas derrotas consecutivas, incluindo um 4 a 0 sofrido para o Flamengo dentro do próprio Mineirão. Mas a questão disciplinar de Lyanco não se resolve com uma vitória. O zagueiro cumprirá suspensão automática, e o Atlético já sabe que terá de recompor a defesa para o duelo contra o Botafogo, em 10 de maio, às 16h, pela 15ª rodada do Brasileirão.









