O mar avançou. Mais uma vez, a estrutura cedeu. Na manhã desta sexta-feira, 22 de maio de 2026, imagens registradas na Praia da Macumba, no Recreio dos Bandeirantes, Zona Oeste do Rio, mostravam o calçadão sendo devorado pelas ondas — o mesmo trecho que já havia sucumbido pelo menos três vezes em anos anteriores. Um ciclista se feriu durante o colapso parcial da estrutura, e parte de uma residência próxima também desmoronou, segundo a Subsecretaria Municipal de Defesa Civil.

Quatro desabamentos e uma obra de R$ 14,5 milhões que durou dois meses

Os números contam uma história difícil de ignorar. A Prefeitura do Rio concluiu há cerca de dois meses as obras de contenção na orla da Macumba, investimento que somou R$ 14,5 milhões em reforço de muro, reconstrução do calçadão e colocação de sacos de areia como barreira adicional. A ressaca desta semana, com alerta emitido pela Marinha do Brasil válido de quinta-feira (21) até as 9h de sábado (23), foi suficiente para romper os sacos e abrir novos buracos na faixa de areia. A obra considerada "definitiva" pela Secretaria de Conservação e Meio Ambiente durou menos de 60 dias antes de ser colocada à prova — e reprovada.

Para quem acompanha o histórico da orla carioca com atenção estatística, o padrão é alarmante. O trecho da Macumba registra pelo menos quatro intervenções estruturais relevantes nos últimos anos, todas seguidas de novo colapso. Se transformarmos isso em taxa de sucesso, chegamos a 0% de efetividade permanente — um índice que, em qualquer outra área de gestão pública ou esportiva, levaria a uma revisão completa de metodologia.

Moscatelli e a lógica que as obras ignoram

O biólogo Mario Moscatelli esteve no local logo após o desabamento e foi categórico na análise. Suas palavras resumem o que os dados já indicavam:

"Mais uma vez, o mesmo cenário. Eu acho que já deve ser a segunda, terceira, quarta intervenção que deve ser feita nessa área daqui. A gente insiste em ocupar áreas que não são ocupáveis, porque é uma área de retirada e reposição de areia da natureza."

Moscatelli foi ainda mais direto ao apontar a inutilidade do ciclo de gastos:

"Mais uma ressaca e mais obra, mais um caminhão de dinheiro que vai ser gasto na reposição, na recomposição de uma área que vai ser degradada na próxima ressaca."

O biólogo não está sozinho nessa leitura. A Coppe, instituto de pesquisa da UFRJ, apresentou pela primeira vez em 2000 um projeto que combinava a construção de um quebra-mar com a reposição de aproximadamente 600 mil metros cúbicos de areia na praia. O custo estimado, já defasado, girava entre R$ 40 milhões e R$ 50 milhões. A contratação da Coppe para atualizar a série histórica de comportamento das ondas, prometida pela prefeitura ainda em outubro de 2017, nunca foi formalizada.

Quanto custaria, afinal, continuar remendando uma estrutura que o mar rejeita a cada temporada de ressaca?

A Ciclovia Tim Maia e o padrão de vulnerabilidade costeira no Rio

A Macumba não é um caso isolado na orla carioca. A Ciclovia Tim Maia permanece interditada desde as 19h34 de quinta-feira (21), no trecho entre São Conrado e a passarela metálica do Vidigal, Zona Sul. O fechamento foi determinado pelo Centro de Operações Rio por risco estrutural durante a ressaca — o mesmo tipo de impacto que, em fevereiro de 2016, causou o colapso de um trecho da ciclovia com morte de duas pessoas. A recorrência dos fechamentos preventivos indica que a gestão costeira do Rio opera em modo reativo, e não proativo.

Como diria o ditado popular, "água mole em pedra dura, tanto bate até que fura" — e aqui o Rio inverte a lógica: gasta-se dinheiro para colocar pedra dura onde a água mole já demonstrou, repetidas vezes, que vai vencer. A avaliação do SportNavo é que o padrão histórico de intervenções paliativas na Macumba configura um dos exemplos mais documentáveis de gestão ineficiente de infraestrutura costeira no Brasil.

As soluções existem — e estão paradas desde 2000

O secretário municipal de Conservação, Diego Vaz, informou que as secretarias de Conservação e Infraestrutura vão atuar em conjunto para avaliar os danos. As equipes técnicas aguardam o fim da ressaca para definir um cronograma. A prioridade imediata, segundo o secretário, é garantir segurança antes de iniciar os reparos — o que, na prática, significa mais um ciclo idêntico aos anteriores.

A solução técnica de longo prazo, porém, já existe e tem endereço: o projeto da Coppe que combina quebra-mar com reposição de areia em escala. Projetos similares foram implementados com sucesso em praias de Copacabana e em trechos da orla de Niterói, onde a reposição de areia reduziu significativamente a erosão costeira. A diferença entre essas intervenções e o que se fez na Macumba é a abordagem: dissipação da energia das ondas antes que ela atinja a estrutura construída, e não reforço da estrutura para resistir ao impacto. A prefeitura terá de apresentar um cronograma concreto para a contratação da Coppe e execução do projeto — caso contrário, a próxima ressaca de setembro ou outubro já tem endereço certo para o próximo desabamento.