A bola ainda subia quando o Celtic Park inteiro já sabia o que estava por vir. O japonês se projetou no ar, as pernas inverteram a lógica do corpo e a rede balançou antes que o goleiro pudesse reagir. Daizen Maeda havia acabado de marcar de bicicleta, e o que parecia um clássico de domingo com desfecho previsível se transformou numa das tardes mais dramáticas da temporada escocesa. O Celtic venceu o Rangers por 3 a 1 de virada, chegou a 76 pontos e ficou a apenas um do líder Hearts — tudo isso na 36ª rodada da Scottish Premiership.

O Rangers abriu o placar, mas o Celtic lembrou quem manda no Old Firm

Quem acompanha o Old Firm desde os anos 1990 sabe que a pressão do início de jogo costuma ser enganosa. O Rangers entrou melhor em campo e abriu o placar aos nove minutos com Mikey Moore, jovem atacante emprestado pelo Tottenham — um gol que, em outros contextos, poderia ter definido o clássico. Só que o Celtic de 2026 tem uma característica que lembra aquelas equipes de Martin O'Neill dos anos 2000: reage com convicção, não com desespero. Hyun-Jun Yang igualou ainda no primeiro tempo, aos 23 minutos, devolvendo o equilíbrio e, mais do que isso, o controle psicológico da partida para os anfitriões.

Segundo dados de expected goals (xG) — métrica que estima a qualidade das chances criadas independentemente do resultado — o Celtic acumulou 2,4 xG no segundo tempo, contra apenas 0,3 do Rangers. Em linguagem direta: os donos da casa não apenas venceram; criaram chances consideravelmente melhores do que o adversário na etapa decisiva, o que transforma a virada em algo mais do que sorte ou ímpeto emocional.

Maeda e a arte de decidir quando o título está na mesa

Daizen Maeda não é exatamente um nome que aparece nos grandes debates do futebol europeu, mas quem trabalhou como correspondente em Barcelona e Milão aprende a reconhecer um tipo específico de jogador: aquele que cresce exatamente quando o ambiente exige mais. No segundo tempo, o japonês marcou duas vezes em quatro minutos — primeiro com um chute de primeira dentro da área aos oito minutos da etapa final, depois com aquela bicicleta espetacular que fechou o placar em 3 a 1. Dois gols, quatro minutos, um título reaberto.

Nas palavras do técnico Martin O'Neill após a partida, a equipe entrou em campo consciente de que um tropeço do Hearts diante do Motherwell tornava a vitória ainda mais urgente.

"Precisávamos vencer de qualquer maneira. O empate do Hearts antes do nosso jogo aumentou a pressão, mas também aumentou a crença do grupo."
O Celtic respondeu com uma das atuações mais completas do Old Firm em anos recentes — e com um gol de bicicleta que já circula em loop nas redes sociais do futebol europeu.

Para contextualizar historicamente: o Celtic dominou a Scottish Premiership de forma quase hegemônica entre 2012 e 2020, acumulando nove títulos consecutivos — um ciclo que lembra, em proporção, o que o Bayern Munique fez na Bundesliga entre 2013 e 2023, ou o que a Juventus construiu na Serie A de 2012 a 2020. A chegada do Hearts à liderança com 77 pontos representa exatamente o tipo de ruptura que esses ciclos eventualmente sofrem, como o Borussia Dortmund fez com os bávaros em 2011 e 2012.

O que muda na tabela e o que o Hearts precisa fazer para segurar o título

Com 76 pontos, o Celtic ocupa agora a segunda posição e mantém vivo o que parecia improvável há poucas semanas. O Rangers, por sua vez, estaciona nos 69 pontos — matematicamente fora da disputa pelo título e na terceira colocação, o que representa um fracasso considerável para um clube que investiu na contratação de Moore justamente para disputar o topo da tabela.

O Hearts lidera com 77 pontos, mas o empate diante do Motherwell — resultado que antecedeu o Old Firm — revelou uma fragilidade que o Celtic soube explorar. Com duas rodadas restantes, a diferença de apenas um ponto transforma cada jogo numa final. O Celtic precisa vencer suas próximas partidas e torcer por um tropeço do rival de Edimburgo; o Hearts, por outro lado, tem a vantagem de jogar com o próprio destino nas mãos — e sabe que uma vitória em qualquer dos dois jogos restantes pode ser suficiente para encerrar um jejum de décadas.

O próximo compromisso do Celtic está marcado para o meio da semana, quando a equipe de O'Neill entra em campo precisando de uma vitória para manter a pressão máxima sobre o Hearts — que joga no mesmo fim de semana, num duelo que pode definir quem ergue a taça escocesa de 2026. O título ainda não tem dono — mas agora tem, pelo menos, dois candidatos de verdade.