Confesso: eu errei sobre Carlos Prates em 2024. Achei que o ritmo de nocautes era impressionante, mas que faltava consistência contra adversários de elite para transformar o goiano em candidato real ao cinturão. Na noite de 2 de maio de 2026, no RAC Arena em Perth, Prates me provou que estava errada — e o fez de forma irreversível.
O que aconteceu em Perth muda o mapa dos meio-médios
A vitória sobre Jack Della Maddalena na luta principal do UFC Austrália não foi apenas mais um nocaute na coleção de Prates. Della Maddalena chegava ao card como um dos três ou quatro nomes com argumento legítimo para enfrentar Islam Makhachev pelo cinturão dos 77 kg. Era australiano, lutando em casa, com o público de 15 mil pessoas no RAC Arena empurrando cada golpe. Carlos Prates apagou tudo isso.
O placar da noite importa menos do que o sinal que o resultado enviou para o topo do ranking. Prates soma agora sete nocautes em oito lutas dentro do UFC, uma sequência que poucos meio-médios da história da organização podem replicar. Seu cartel atual registra 23 vitórias, sendo 21 por finalização ou nocaute, contra apenas 6 derrotas — e nenhuma delas recente o suficiente para diminuir o argumento.
Makhachev viu o que o mundo viu e falou em voz alta
Islam Makhachev não costuma abrir o jogo sobre adversários preferidos. O daguestanês de 33 anos, atual campeão dos meio-médios e ex-campeão dos leves, constrói sua carreira sobre eficiência — dentro e fora do octógono. Por isso, quando ele classificou uma possível luta contra Prates como a "luta mais interessante" da divisão, o peso da declaração dobrou.
"Luta mais interessante", disse Makhachev ao ser questionado sobre Carlos Prates após o UFC Austrália.
Na avaliação do SportNavo, essa frase de Makhachev não é protocolo de relações públicas. É reconhecimento técnico. O campeão identificou no estilo de Prates um problema que os adversários recentes — incluindo Jack Della Maddalena, Colby Covington e Belal Muhammad — simplesmente não apresentaram com a mesma intensidade: a capacidade de nocautear com qualquer membro do corpo, de qualquer ângulo, sem avisar.
O estilo de Prates é um problema específico para Makhachev
O que para o treinador europeu de kickboxing é uma sequência de combinações estudadas, para o lutador sul-americano de MMA é instinto construído no chão duro da academia. Prates, faixa-preta de jiu-jítsu, não é apenas um striker com defesa de queda aceitável — ele é um atleta que treinou seu jogo de chão ao ponto de não temer o clinch contra o melhor grappler do UFC.
Makhachev tem 91% de taxa de takedown bem-sucedido no UFC, o número mais alto entre os campeões ativos de todas as divisões. Mas Prates chegou ao RAC Arena contra Della Maddalena — um striker pesado com 190 cm de altura — e neutralizou o jogo de pressão do australiano com um timing de contragolpe que nenhum treinador ensina no quadro-negro. Esse timing é o que Makhachev precisaria resolver.
A comparação direta é brutalmente simples: Prates luta como se cada round fosse o último. Makhachev luta como se tivesse o placar na cabeça o tempo inteiro. Quando esses dois estilos se encontram, o octógono vira um laboratório de hipóteses impossíveis de resolver só com estatística.
O caminho até o cinturão tem nome, data e obstáculos reais
O ranking oficial do UFC, atualizado após o evento de Perth, ainda precisa ser confirmado, mas Prates deve entrar ou consolidar posição no top 3 dos meio-médios. Os nomes à frente na fila pelo title shot incluem Shavkat Rakhmonov, que também invicto no UFC carrega um cartel de 18-0, e o próprio Belal Muhammad, ex-campeão que perdeu o cinturão para Makhachev em outubro de 2024.
Nas casas de apostas, Prates figura como underdog expressivo contra Makhachev — odds que giram em torno de +350 para o brasileiro, contra -450 para o campeão, refletindo o domínio técnico do daguestanês no grappling. Mas odds de nocaute por Prates chegam a +180, o que indica que o mercado reconhece o perigo real que o goiano representa de pé.
O UFC tem o hábito de construir lutas pelo cinturão com pelo menos 90 dias de intervalo entre o último evento do campeão e o card do title shot. Makhachev defendeu o cinturão dos meio-médios pela última vez em fevereiro de 2026, o que abre espaço para um possível anúncio ainda no segundo semestre de 2026. Se a declaração do campeão russo se converter em negociação real, Carlos Prates pode subir ao octógono pelo cinturão antes do fim do ano — e dessa vez eu não vou errar a previsão.








