Quem seria capaz de incomodar Islam Makhachev em agosto — um lutador que nunca perdeu no UFC, que domina grappling em nível olímpico e que nocauteou Alexander Volkanovski com um head kick no segundo round em outubro de 2023?
A pergunta não é retórica por acidente. Quando o campeão dos leves do UFC sinalizou retorno para agosto e o nome de Ian Garry começou a circular como possível oponente, a reação imediata da maioria foi de descaso. Garry luta nos meio-médios. Makhachev é o melhor lutador libra por libra do planeta. A narrativa óbvia seria de mismatch.

Mas os números pedem mais cuidado antes de qualquer conclusão.
O que Makhachev disse e o que os dados revelam sobre seu retorno
Makhachev sugeriu publicamente o retorno em agosto, sem confirmar adversário. A última vez que ele lutou foi em fevereiro de 2025, quando defendeu o cinturão dos leves contra Arman Tsarukyan no UFC 311, vencendo por decisão unânime em uma luta tecnicamente dominante — 5 rounds, 10 takedowns tentados, 7 convertidos, 68% de wrestling defense absorvida pelo adversário. O campeão não perde desde 2015.
Quando o nome de Garry apareceu na conversa, Makhachev não descartou. Nas palavras do próprio campeão em declarações recentes às redes sociais:
"Estou pronto para lutar em agosto. Se for Ian Garry, tudo bem. Vou fazer o mesmo trabalho."
Esse "mesmo trabalho" é o que precisa ser destrinchado. Makhachev tem reach de 70.5 polegadas e uma taxa de significant strikes absorvidos de apenas 2.8 por minuto — terceiro menor entre todos os campeões ativos do UFC. Ele não é nocauteado porque não fica em posição de ser nocauteado.
Ian Garry tem ferramentas reais ou é só narrativa de marketing
Ian Garry, 26 anos, irlandês de Dublin, tem cartel de 15 vitórias e 0 derrotas no MMA profissional, com 9 finalizações. Nos meio-médios, ele é top 5 e vem de vitória sobre Carlos Prates em março de 2025, onde mostrou controle de distância acima da média da divisão — reach de 74 polegadas, maior do que o do próprio Makhachev.
Esse detalhe importa.
Garry usa o reach para manter a luta em pé, trabalha o jab longo e tem 5.3 significant strikes por minuto — número alto para um lutador que também usa wrestling defensivo com eficiência de 78%. O problema real é que ele nunca enfrentou nada parecido com o nível de grappling de Makhachev. Prates, Geoff Neal, Song Kenan — nenhum deles chega perto do que o campeão dos leves oferece no chão.
Em matéria do SportNavo publicada anteriormente, já apontamos que a maior vulnerabilidade de Garry é a transição da luta em pé para o grappling no segundo e terceiro rounds — exatamente o período em que Makhachev acelera o volume de takedowns.
"Garry é o lutador mais completo que já enfrentei no UFC. Mas preciso melhorar minha defesa de queda se quiser competir com os melhores", admitiu o próprio irlandês em entrevista ao canal MMA Fighting após a vitória sobre Prates.
Por que essa luta define mais do que um número 1 contender
A questão central não é se Makhachev vence — a maioria dos analistas colocaria o campeão como favorito de -400 ou mais. A questão é o que acontece se Garry conseguir manter a luta em pé por dois rounds completos.
Nenhum adversário recente de Makhachev conseguiu isso com consistência. Volkanovski tentou nos dois confrontos e foi finalizado na primeira defesa, nocauteado na segunda. Tsarukyan teve mais sucesso no striking, mas ainda assim perdeu o controle da luta toda vez que o campeão iniciou o clinch.
Garry tem o reach e o footwork para tentar. Tem 26 anos contra os 33 de Makhachev. Tem a velocidade de mãos para criar ângulos que lutadores menores nos leves não conseguem. E, diferente de outros possíveis contenders como Dustin Poirier ou Justin Gaethje, ele chega sem o desgaste de múltiplas guerras no octógono.
Isso não é argumento para colocá-lo como favorito. É argumento para levá-lo a sério como oponente.
Se a luta for confirmada para agosto — possivelmente no UFC 311 ou em um card especial fora dos Estados Unidos, dado o interesse do UFC em mercados europeus com Garry como atração —, o que estará em jogo não é apenas o próximo desafiante ao cinturão. Estará em jogo a narrativa de que Makhachev pode ser pressionado por um lutador de perfil diferente, mais alto, mais jovem, com estilo que o campeão ainda não enfrentou.
Islam Makhachev no aquecimento do octógono, capuz levantado, olhos fixos no centro do cage. Ian Garry do outro lado, seis centímetros mais alto, reach maior, sem nenhuma derrota para carregar. Essa imagem, por si só, já vale o card.












