Todo mundo sabe que Gabriele Gravina deixou a presidência da FIGC depois de mais uma eliminatória desastrosa da Azzurra para a Copa do Mundo. O que ainda não está claro é quem vai pegar os cacos e montar um projeto que faça o futebol italiano voltar a ser referência. Nesta quarta-feira (13), o prazo de inscrições encerrou e dois nomes formalizaram candidaturas: Giovanni Malagò, ex-presidente do CONI, e Giancarlo Abete, atual líder da LND e ex-presidente da própria FIGC. Eleição marcada para 22 de junho — quarenta dias que prometem ser um verdadeiro campo de batalha institucional.
Nos bastidores da federação, dois perfis e uma crise herdada
Malagò chega com o apoio mais amplo: tem ao lado a Lega Serie A, a Lega Serie B, a associação italiana de jogadores (AIC) e a associação de treinadores (AIAC). No jargão da análise de dados, seria como um time com PPDA baixíssimo — pressionando em todas as linhas do campo eleitoral, sufocando o adversário antes mesmo do apito inicial. Quem controla as ligas profissionais, controla o voto pesado.
Abete, por sua vez, aposta na capilaridade. Como presidente da LND, ele gerencia a Série D e todas as divisões amadoras do calcio — uma estrutura que envolve mais de 15 mil clubes em todo o território italiano. É um eleitorado pulverizado, mas numericamente expressivo. Seria como ter um time com altíssimo volume de progressive passes na construção: muita circulação de bola, muita presença em zonas intermediárias, mas ainda sem o peso dos grandes nomes para converter.
"Começa agora uma longa campanha eleitoral; 40 dias é muito tempo para discutir os assuntos do futebol. Será uma competição que se desenvolverá à medida que discutimos as atividades que serão realizadas. Desistir no meio da disputa? Isso não é algo que eu esteja considerando", disse Abete ao formalizar sua candidatura.
A declaração tem um subtexto importante: Abete sabe que é o azarão. Mas quarenta dias em política esportiva italiana equivalem — seria injusto chamar de eternidade, mas é uma eternidade em escala federativa — a tempo suficiente para aliados mudarem de lado e narrativas se inverteram.
O que cada candidato propõe para o calcio que parou de marcar xG
Quando a gente analisa o futebol italiano através de métricas modernas, o diagnóstico é preocupante. A Azzurra nas últimas eliminatórias apresentou índices de xG (expected goals) — a métrica que calcula a qualidade das chances criadas com base em posição e contexto — consistentemente abaixo de 1.0 em jogos decisivos fora de casa. Para uma seleção que historicamente produzia finalizações de alta qualidade, isso indica falha na criação de oportunidades, não apenas na finalização.
Malagò, com background no CONI, tende a priorizar uma reforma estrutural top-down: mais investimento nas categorias de base das equipes profissionais, integração entre clubes e seleção, e modernização dos centros de treinamento. A lógica é aumentar o xA (expected assists) do sistema — melhorar a qualidade das situações que precedem os gols, não apenas treinar finalizadores.
Abete, vindo das divisões amadoras, defende uma abordagem diferente. Sua proposta passa por fortalecer o futebol de base nas regiões menos desenvolvidas, ampliar o número de jovens com acesso a treinamento de qualidade e criar um pipeline mais eficiente entre o amadorismo e o profissionalismo. Em termos de análise, seria trabalhar as defensive actions do sistema — cortar o problema na raiz, antes que talentos sejam desperdiçados por falta de infraestrutura regional.
Qual dos dois modelos o futebol italiano realmente precisa agora?
A resposta honesta é que os dois diagnósticos estão certos e errados ao mesmo tempo — e talvez seja exatamente por isso que a eleição não está decidida apesar da vantagem aparente de Malagò.
A mesa de decisão em 22 de junho e o peso do voto profissional
No sistema eleitoral da FIGC, os votos são ponderados por categoria. A Lega Serie A carrega um peso desproporcional em relação ao número de clubes — o que explica por que o apoio de Malagò nas ligas profissionais é tão valioso. Segundo levantamento do SportNavo, em eleições anteriores da federação, candidatos com suporte das ligas A e B converteram essa vantagem em vitória em 100% dos casos desde 2014.
Mas o sistema também garante representação às ligas amadoras, e é aí que Abete tem seu trunfo. Se ele conseguir mobilizar os representantes da LND de forma coordenada e conquistar algum apoio nas associações de árbitros — outro grupo com voto na assembleia —, a distância pode diminuir.
"Será uma competição que se desenvolverá à medida que discutimos as atividades que serão realizadas", reforçou Abete, sinalizando que pretende usar o debate programático como ferramenta de campanha.
O contexto de crise pesa sobre os dois. A Itália ficou de fora de mais uma Copa do Mundo — trauma que se repete e que exige do novo presidente não apenas gestão administrativa, mas um projeto técnico crível para a seleção. Malagò terá que provar que sua proximidade com as ligas profissionais não significa captura pelos interesses dos grandes clubes. Abete terá que mostrar que sua experiência anterior na FIGC não significa retorno ao passado.
A assembleia eleitoral acontece em 22 de junho, em Roma. Até lá, os dois candidatos percorrerão federações regionais, ligas e associações em busca de votos. Quem vencer herda uma estrutura que precisa de reformas profundas — e a pressão imediata de montar um projeto para as eliminatórias da Copa do Mundo de 2030.








