Diz-se que zagueiro que marca gol é anomalia estatística, detalhe de bola parada que não muda o modo como o treinador o vê. Na verdade, não é — e o caso de Malick Thiaw na temporada 2025/2026 é a prova mais clara disso na Premier League desta janela.

A assinatura técnica que o identifica

Há zagueiros que defendem. Há zagueiros que jogam. Thiaw, aos 24 anos, está aprendendo a fazer as duas coisas ao mesmo tempo.

Com 194 cm e apenas 80 kg, Thiaw carrega uma proporção física que lembra menos um destroçador clássico e mais aquele perfil de defensor moderno que a Bundesliga começou a fabricar em série na segunda metade dos anos 2010 — longo, ágil, confortável com a bola nos pés. Nesta temporada pelo Newcastle United, ele somou 34 jogos e 4 gols, número que, para um zagueiro, equivale ao que uma temporada de dupla figura representa para um meia ofensivo. Para efeito de comparação histórica: Gaetano Scirea, o grande libero da Juventus dos anos 80, raramente ultrapassava dois gols por temporada — e era celebrado como um dos mais completos da posição. Quatro gols em uma única campanha, para um zagueiro de 24 anos em sua primeira temporada na Inglaterra, não é detalhe.

A assinatura técnica que o identifica Malick Thiaw e os 4 gols que redesenham
A assinatura técnica que o identifica Malick Thiaw e os 4 gols que redesenham

O que a métrica de expected goals on target (xGOT) começa a capturar nesse perfil — uma forma de medir a qualidade real dos chutes ao gol, não apenas a quantidade — é que Thiaw não está apenas aparecendo nas cobranças de escanteio por acaso. Ele busca posição com intencionalidade, o que separa o zagueiro-goleador esporádico do defensor que foi treinado para ser ameaça também no terço ofensivo.

Como ele aprendeu a fazer aquilo

Tudo começa num campo de várzea em Düsseldorf, numa cidade que o futebol alemão sempre tratou como corredor de trânsito entre Colônia e Dortmund.

Thiaw cresceu no TV Kalkum-Wittlaer, clube de bairro na periferia de Düsseldorf, antes de entrar no sistema das grandes academias alemãs. Passou pelo Fortuna Düsseldorf, pelo Bayer 04 Leverkusen — que nos anos 2000 tinha uma das melhores estruturas de base do país — e pelo Borussia Mönchengladbach, clube que entre 2010 e 2020 revelou uma geração impressionante de jogadores para o mercado europeu. Em 2015, aos 14 anos, ingressou na academia do Schalke 04, clube que, apesar das turbulências financeiras que marcariam a década seguinte, ainda mantinha uma filosofia de formação sólida, herdada dos tempos em que revelou Mesut Özil e Manuel Neuer.

Sua estreia profissional aconteceu em 7 de março de 2020, num empate por 1 a 1 contra o Hoffenheim pela Bundesliga — momento em que o futebol europeu vivia o limbo dos estádios vazios por causa da pandemia. Jogar sem torcida naquele contexto forjou uma geração de atletas que aprendeu a se comunicar em campo sem o apoio sonoro das arquibancadas, o que, paradoxalmente, aguçou o senso posicional de muitos defensores jovens. Com o Schalke, Thiaw foi campeão da 2. Bundesliga na temporada 2021/22, título que selou o retorno do clube à elite alemã e que colocou o zagueiro no radar italiano.

Como ele aprimorou ao longo dos anos

O Milan não contrata zagueiros para fazer número — e quando apostou em Thiaw, estava comprando um projeto, não uma certeza.

A mudança para o AC Milan representou um salto de maturidade que poucos zagueiros alemães de sua geração conseguiram fazer tão cedo. A Serie A exige de um defensor central algo que a Bundesliga não cobra com a mesma intensidade: a capacidade de ler o jogo antes que ele aconteça, o que os italianos chamam, com aquela precisão cultural única, de senso della posizione. Thiaw passou por temporadas de adaptação no Milan, acumulando jogos de forma irregular, mas colheu um fruto concreto dessa fase: a Supercopa da Itália em 2024, troféu que, embora modesto na hierarquia das conquistas europeias, é disputado entre os melhores do Calcio e exige consistência coletiva.

A passagem milanesa também coincidiu com um período em que o SportNavo acompanhou de perto a evolução de zagueiros alemães no futebol italiano — e o dado que sempre saltava aos olhos em Thiaw era a velocidade de recuperação posicional após sair da linha defensiva, característica que os treinadores da Serie A valorizam acima de qualquer outra num defensor moderno. Não é à toa que o Newcastle, clube que desde a gestão atual adotou uma política de contratações cirúrgicas, enxergou nele o perfil ideal para a Premier League.

Como aplica em jogos diferentes

A Premier League não perdoa zagueiro lento de leitura — e Thiaw está respondendo à altura do desafio desde o primeiro jogo.

Historicamente, zagueiros continentais chegando à Inglaterra costumam passar por um período de choque cultural tático que dura entre seis meses e uma temporada inteira. Maldini nunca jogou na Premier League; Baresi tampouco. Franco Baresi uma vez disse que a velocidade física do futebol inglês era diferente de qualquer coisa que ele imaginava do lado de fora. Thiaw, no entanto, tem um perfil físico e técnico que o habilita para esse ambiente: a altura de 194 cm garante domínio aéreo, enquanto o peso relativamente baixo de 80 kg mantém a mobilidade necessária para acompanhar centroavantes modernos que preferem o espaço às costas da defesa.

Os 34 jogos nesta temporada, com quatro gols marcados, revelam um zagueiro que não apenas sobreviveu à adaptação — ele se tornou peça de rotina num time que disputa os lugares mais exigentes do calendário inglês. Sua origem bicultural, filho de pai senegalês e mãe finlandesa, criado na Alemanha e formado entre Milão e Newcastle, também diz algo sobre a versatilidade que ele traz para o vestiário: Thiaw transita entre idiomas e sistemas táticos com uma fluidez que vai além do talento individual.

Nos próximos 12 meses, a pergunta que o futebol europeu precisa começar a responder sobre ele não é se ele vai manter o nível — é se ele vai dar o salto para se tornar um dos zagueiros de referência da Premier League. Com 24 anos e uma temporada sólida na bagagem, o arco de carreira de Thiaw ainda está na curva ascendente. Se a história dos grandes defensores alemães ensinasse uma coisa, seria esta: os melhores chegaram ao pico entre os 25 e os 28 anos. O relógio, para ele, está apenas começando a andar.