O ringue do Lumpinee Stadium, em Bangkok, ainda estava iluminado quando o corpo de Oumar Kane desabou sobre a lona. Um direito cruzado de Anatoly Malykhin atravessou a guarda do senegalês, dobrou seus joelhos e encerrou, em fração de segundo, dezoito meses de espera. Era o 4º round do ONE Friday Fights 154, disputado em 15 de maio de 2026, e o russo de 35 anos acabava de recuperar o cinturão peso-pesado do ONE Championship da forma mais contundente possível.
A dívida aberta desde novembro de 2024
O primeiro combate entre Malykhin e Reug Reug, realizado em novembro de 2024, já havia sido alvo de críticas pela falta de ação. O senegalês venceu por decisão dividida num resultado que gerou controvérsia imediata — um dos juízes apontou Malykhin como vencedor, enquanto os outros dois favoreceram Kane. A derrota custou ao russo o cinturão que ele havia conquistado com autoridade, e a revanche tornou-se obrigatória na narrativa da divisão pesada do ONE.
Do ponto de vista técnico, a estratégia de Reug Reug no primeiro confronto foi construída sobre o controle de distância e o trabalho de clinch, explorando seu alcance e força física para neutralizar o striking de Malykhin. A decisão dividida, no entanto, indicava que a margem foi mínima — e que qualquer ajuste tático do russo poderia inverter o resultado numa revanche.

Como Malykhin encontrou o range para o nocaute
Os dois primeiros rounds da revanche reproduziram o padrão frustrante do primeiro combate. Reug Reug adotou uma postura passiva, recuando para o corner e esperando Malykhin avançar, o que gerou muito hand-fighting e pouco striking efetivo de ambos os lados. A estratégia de Kane parecia apostada em forçar o russo a tomar iniciativa e cometer erros de timing — uma abordagem que funciona contra lutadores impacientes, mas que carrega o risco de entregar o controle do ritmo ao adversário.
Reparemos no detalhe que mudou o combate: no 3º round, Malykhin começou a calibrar o jab para criar o corredor de entrada para o direito. Ele parou de perseguir Kane lateralmente e passou a usar o centro do ringue como âncora, forçando o senegalês a se mover ao redor dele. Esse ajuste de footwork reduziu a eficácia do recuo de Reug Reug e abriu o ângulo para o golpe que viria no round seguinte.
No 4º round, Malykhin conectou um direito cruzado de alta velocidade que atingiu o queixo de Kane em momento de transição defensiva. O impacto foi suficiente para apagar o senegalês imediatamente. Socos adicionais no chão selaram o nocaute técnico — e foi exatamente nesse ponto que a noite saiu dos trilhos.
Chutes extras e a briga generalizada entre as equipes
Com Kane já caído e inconsciente, Malykhin aplicou chutes adicionais no adversário — uma sequência que ultrapassou o limite do que o regulamento e o código de conduta do MMA permitem após o nocaute. O corner do senegalês reagiu com fúria, invadindo o ringue, e o corner de Malykhin respondeu na mesma moeda. O resultado foi uma briga generalizada dentro do ringue do Lumpinee Stadium, com membros de ambas as equipes envolvidos fisicamente antes de a organização conseguir separar todos.
Segundo apuração do SportNavo, o próprio Malykhin tentou acalmar os ânimos após a confusão — um gesto que, ainda que tardio, contrastou com a brutalidade dos chutes extras que havia desencadeado o tumulto. A ONE Championship ainda não se pronunciou oficialmente sobre possíveis sanções disciplinares relacionadas ao comportamento pós-nocaute.
"Obrigado, 'Sladkiy'" — foi a mensagem publicada pela própria ONE Championship nas redes sociais logo após o combate, usando o apelido russo de Malykhin, que significa 'Doce'.
O episódio levanta uma questão técnica e ética relevante para árbitros e organizações: o intervalo entre o nocaute e a interrupção do árbitro foi longo o suficiente para permitir os chutes adicionais. A responsabilidade primária de proteção ao atleta caído é do árbitro central, mas a conduta de Malykhin após o KO confirmado é indefensável sob qualquer critério de fair play no MMA profissional.
O gesto das luvas e o impacto na divisão peso-pesado do ONE
Após o combate, Malykhin removeu as luvas diante do público do Lumpinee Stadium num gesto que a ONE Championship interpretou publicamente como sinalização de aposentadoria. O russo, que se tornou campeão de três divisões na organização — feito histórico no MMA asiático —, completaria sua trajetória com um cartel que inclui finalizações por nocaute e por finalização em peso-médio, meio-pesado e pesado.
"O melhor presente de aposentadoria" — escreveu a ONE Championship ao publicar imagens da celebração de Malykhin, confirmando a leitura do gesto como despedida das competições.
Para Reug Reug, a derrota representa um recuo significativo na narrativa que ele havia construído com a vitória por decisão dividida em novembro de 2024. O senegalês, que chegou ao MMA com background em wrestling e luta livre africana, ainda não demonstrou capacidade de absorver striking de alto nível quando a guarda é comprometida — uma vulnerabilidade que Malykhin explorou com precisão cirúrgica no 4º round.
Com Malykhin sinalizando aposentadoria e o cinturão peso-pesado do ONE recém-trocado de mão, a divisão entra num vácuo de liderança que a organização precisará resolver rapidamente. Se a retirada do russo for confirmada, o título ficará vago pela segunda vez em menos de dois anos — e o próximo campeão da categoria terá de ser definido sem o atleta que dominou a divisão com três títulos simultâneos. Malykhin termina sua carreira com 100% de finish rate nas vitórias dentro do ONE Championship.








