"Zagueiro que distribui seis assistências em uma temporada não é zagueiro — é um terceiro volante disfarçado de líbero." A frase circula nos bastidores do futebol catarinense e resume, com precisão incômoda, o que Marcelo Hermes representa para o Criciúma na Brasileirão Série A de 2026.

Sob a lente do treinador

Nascido em Sarandi, interior do Rio Grande do Sul, em 1º de fevereiro de 1995, Marcelo Hermes completou 31 anos ainda no início desta temporada. Seus 177 cm e 68 kg definem um zagueiro fora do padrão físico convencional da posição — a maioria dos titulares na Série A opera com ao menos 5 cm a mais e 10 kg a mais de massa muscular.

O que falta em volume, Hermes compensa em leitura posicional e capacidade de iniciar jogadas. Na temporada atual, 36 partidas disputadas com 6 assistências registradas apontam para um defensor que funciona como válvula de saída de bola — um perfil que treinadores modernos pagam caro para ter na zaga.

Sua passagem pelo Benfica, onde foi campeão da Primeira Liga portuguesa em 2016-17 e venceu a Supertaça Cândido de Oliveira em 2017, moldou um jogador acostumado a sistemas de pressão alta, onde o zagueiro precisa ser confortável com a bola nos pés. Essa bagagem europeia raramente aparece em fichas técnicas, mas está impressa no estilo de jogo.

Sob a lente do torcedor

Para a torcida do Criciúma, Hermes é uma das peças mais duráveis do projeto recente do clube. Ele esteve presente na conquista do Campeonato Catarinense — Série B em 2022, nos títulos do Campeonato Catarinense em 2023 e 2024, e nas Recopas Catarinenses de 2024 e 2025. São cinco troféus em quatro temporadas com a mesma camisa.

Essa consistência tem peso simbólico e econômico. Jogadores que atravessam ciclos de acesso, manutenção e conquista regional constroem capital de vestiário difícil de quantificar — mas que aparece nos momentos de pressão, quando o grupo precisa de referências.

Sob a lente do treinador Marcelo Hermes e os 36 jogos que um zagu
Sob a lente do treinador Marcelo Hermes e os 36 jogos que um zagu

Em 2024, Hermes disputou 37 jogos na Série A, marcou 2 gols e distribuiu 5 assistências. Na Série B de 2023, foram 34 partidas, 1 gol e 2 assistências. Em 2022, ainda na segunda divisão, registrou 4 gols em 31 jogos — seu pico de eficiência ofensiva até então. A trajetória mostra progressão, não estagnação.

Sob a lente da planilha de dados

Os números da temporada atual são os mais completos de sua carreira no recorte ofensivo: 2 gols e 6 assistências em 36 jogos. Para um zagueiro na Série A, onde a média de assistências por defensor raramente ultrapassa 2 por temporada, o índice de Hermes é estatisticamente atípico.

O que explica esse volume de participações em gols?

Parte da resposta está no modelo tático do Criciúma, que utiliza saídas de bola pelo lado esquerdo — posição onde Hermes opera com mais frequência. Parte está na capacidade do jogador de identificar linhas de passe em situações de transição, convertendo recuperações defensivas em lançamentos que viram chances reais de gol.

Comparado com sua própria série histórica, o dado de 6 assistências em uma única temporada representa praticamente o dobro de tudo que havia produzido em participações diretas em gols nas temporadas anteriores pelo clube. Isso não é flutuação — é evolução mensurável.

  • Temporada 2026: 36 jogos | 2 gols | 6 assistências
  • Temporada 2024: 37 jogos na Série A | 2 gols | 5 assistências
  • Temporada 2023: 34 jogos na Série B | 1 gol | 2 assistências
  • Temporada 2022: 31 jogos na Série B | 4 gols | 2 assistências

A linha de tendência é clara: Hermes produz mais à medida que o nível da competição sobe. Na Série B, entregou gols. Na Série A, passou a entregar assistências — o que sugere adaptação tática, não acomodação.

Sob a lente do mercado

Hermes tem 31 anos e contrato com o Criciúma. Sem dados públicos de valor de mercado disponíveis no Transfermarkt para esta janela, qualquer estimativa precisa partir das variáveis observáveis: posição, idade, desempenho na elite e histórico europeu.

Zagueiros brasileiros com passagem confirmada em ligas do top-5 europeu e performance acima da média na Série A raramente ficam abaixo de R$ 3 milhões em avaliações de mercado interno. O perfil de Hermes — versátil, experiente, com leitura de jogo refinada — tem demanda em clubes que buscam reforçar a saída de bola sem investir em contratações de alto custo.

O risco de mercado é a idade: aos 31 anos, a janela de valorização máxima já passou. O ROI de uma eventual transferência dependeria do prazo contratual restante e da cláusula de rescisão — dados não públicos, mas que o Criciúma tem interesse em manter competitivos para não perder o jogador de graça.

Para clubes de médio porte da Série A ou interessados em mercados sul-americanos, Hermes representa um ativo de baixo risco operacional: entrega consistência, não acumula lesões registradas no histórico disponível e já demonstrou capacidade de adaptação a diferentes divisões e sistemas táticos. Em jargão de agentes, é o tipo de jogador que resolve o problema sem criar outro.

Nos próximos 12 meses, o cenário mais realista é a renovação com o Criciúma — especialmente se o clube mantiver a permanência na Série A. Uma saída para o exterior seria possível apenas via mercados de menor exigência física, como o futebol árabe ou o mercado japonês, onde o perfil técnico-intelectual tem mais valor que o atlético.

Hermes caminha para a reta final da temporada com a camisa 22 no peito e seis assistências no currículo. A planilha fecha bem. O contrato ainda corre. E em Criciúma, isso já é suficiente para garantir o seu lugar na escalação de domingo.