Resistiu. Quando o futebol brasileiro costuma encerrar ciclos de goleiros na casa dos 35 anos, Marcelo Lomba entrou em campo 37 vezes na temporada 2026 pelo Palmeiras — e ainda não deu sinais de que essa conta vai parar de crescer.
O número que define a temporada
Trinta e sete jogos. Esse é o dado central para entender o que Marcelo Lomba representa em 2026. Num elenco do Palmeiras construído para disputar títulos em múltiplas frentes, um goleiro de 39 anos acumular essa quantidade de partidas na temporada vigente não é acidente de planejamento — é escolha técnica. Para contextualizar: estamos falando de um atleta nascido em 18 de dezembro de 1986, com 189 cm e 85 kg, que usa a camisa 14 num clube onde a concorrência por espaço é permanente. Manter 37 aparições no Brasileirão Série A e demais competições exige constância física e mental que poucos atletas nessa faixa etária conseguem manter em alto nível.
Os números de desempenho das temporadas anteriores no Palmeiras ajudam a calibrar o peso dessa presença. Em 2023, Lomba somou 38 jogos na Série A com nota média de 7,30 — índice que coloca qualquer goleiro em patamar de confiabilidade dentro de uma tabela classificatória. Em 2024, foram 34 partidas na Série A com nota 6,30, além de 13 no Campeonato Paulista com média 7,10 e quatro na Copa do Brasil com 7,20. São recortes que mostram consistência, não pico isolado.
Como ele chegou aqui
A trajetória de Lomba começa no Flamengo, clube onde ele se profissionalizou e onde conquistou seus primeiros títulos relevantes: a Copa do Brasil de 2006 e uma sequência de Campeonatos Cariocas em 2007, 2008, 2009 e 2011. Naquele período, o goleiro carioca — nascido no Rio de Janeiro — acumulou também Taças Guanabara em 2007, 2008 e 2011, e Taças Rio em 2009 e 2011. Era um goleiro em formação que já acumulava prata na prateleira.
A passagem pelo Bahia entre os períodos de maior maturidade rendeu dois Campeonatos Baianos, em 2012 e 2014. Foi uma fase de consolidação fora do eixo Rio-São Paulo, onde Lomba aprendeu a carregar elencos com menos profundidade técnica. Depois veio o Internacional, clube gaúcho onde ele seguiu construindo reputação como goleiro de alto rendimento na Série A.
O ponto de inflexão definitivo da carreira chegou com a transferência para o Palmeiras. No clube alviverde, Lomba encontrou o ambiente competitivo mais exigente de sua trajetória — e respondeu com títulos: Recopa Sul-Americana de 2022, Campeonato Paulista de 2022, 2023, 2024 e 2026, Campeonato Brasileiro de 2022 e 2023, e Supercopa do Brasil de 2023. Uma vitrine de conquistas que transforma qualquer análise de declínio em exercício de humildade jornalística.
Antes de tudo isso, há um dado de formação que raramente aparece nas fichas técnicas: Lomba foi campeão mundial com a Seleção Brasileira Sub-17 em 2003. Aos 16 anos, ele já carregava o peso de uma camisa amarela em competição de alto nível internacional — experiência que molda mentalidade de forma irreversível.
O que o faz diferente dos pares
Goleiros com 39 anos em atividade no futebol brasileiro de primeira divisão são raros por definição. O que separa Lomba da maioria não é apenas longevidade biológica — é a capacidade de manter notas de desempenho acima de 7,00 em competições de alta intensidade, como demonstram os dados de 2023 e 2024 no Palmeiras. Em 2024, a nota 7,70 na Copa do Brasil em quatro partidas e o 7,20 no Campeonato Paulista indicam que, quando acionado em mata-mata, o rendimento sobe.
Há também uma característica técnica que define sua atuação defensiva: o posicionamento entre as traves funciona como uma represa em dia de chuva fina — sem drama aparente, mas impermeável. Lomba raramente precisa de grandes defesas espetaculares porque antecipa o ângulo antes de o atacante decidir. Essa leitura de jogo é produto de mais de duas décadas de profissionalismo, não de atletismo puro.
Comparado a goleiros titulares de outros clubes do Brasileirão 2026 na mesma faixa etária, Lomba se distingue pela quantidade de jogos acumulados numa única temporada. Trinta e sete partidas em 2026 representam uma carga que muitos atletas cinco ou seis anos mais jovens não sustentam com regularidade.
Os limites a vencer
Nenhuma análise honesta ignora o contexto: 39 anos é uma idade em que o corpo impõe negociações que a vontade sozinha não resolve. A recuperação entre jogos torna-se mais lenta, a janela de rendimento máximo por partida se estreita, e qualquer lesão muscular carrega risco de cronificação. Lomba acumula 201 jogos na carreira segundo os dados disponíveis — um número que, cruzado com a intensidade das competições que disputou pelo Palmeiras nos últimos anos, indica um organismo submetido a carga elevada de forma consistente.
O desafio imediato é manter o patamar de 2026 até o encerramento da temporada sem queda de rendimento que force o clube a rever o planejamento. O Palmeiras, clube que conquistou o Campeonato Paulista de 2026 e segue em disputa no Brasileirão Série A, não tem margem para variação técnica na posição de goleiro em momentos decisivos. Lomba sabe disso melhor do que qualquer analista externo.
A questão que fica para o segundo semestre de 2026 não é se Lomba ainda tem condições — os 37 jogos desta temporada já responderam isso. A questão é outra, mais específica: se o Palmeiras chegar a uma final do Brasileirão Série A com a necessidade de um goleiro em plena capacidade física, Lomba terá acumulado partidas demais no corpo para ser o nome escalado — ou será exatamente essa experiência acumulada que o Abel Ferreira vai querer entre as traves no momento mais importante?













