A última vez que o Manchester City precisou reinventar sua identidade tática foi em 2016 — quando Roberto Mancini e Manuel Pellegrini já tinham ficado para trás e um treinador catalão chegou com uma nova linguagem de jogo que o futebol inglês não conhecia. Dez anos depois, o clube se prepara para uma transição igualmente estrutural, e desta vez com Enzo Maresca no centro do planejamento.

Segundo informações do The Athletic divulgadas nesta quarta-feira (20 de maio), Manchester City e Maresca já operam em conjunto nos bastidores. O anúncio oficial não aconteceu, mas o trabalho está em curso.

O que Maresca e Hugo Viana já decidiram para a próxima temporada

O italiano de 46 anos atua em parceria direta com o diretor esportivo Hugo Viana, ex-jogador português que assumiu a função estratégica no clube. As reuniões cobrem três frentes simultâneas: janela de transferências, estrutura da pré-temporada e montagem do elenco base para 2026/27.

O recorte já é cirúrgico. Bernardo Silva e John Stones encerram contrato ao final desta temporada e deixam o clube. Os dois representam, juntos, mais de 4.000 minutos jogados na temporada 2025/26 da Premier League — uma lacuna considerável em termos de volume de posse e cobertura defensiva.

Rodri, Gvardiol e o goleiro Trafford também aparecem em especulações sobre possíveis saídas. Rodri, em particular, representa o pivô de contenção que ancora a compactação no terço médio — função que qualquer sistema de Maresca precisará redistribuir ou substituir com precisão.

"Maresca conhece bem o ambiente do City", destacou o The Athletic, lembrando que o treinador comandou a equipe sub-21 na temporada 2020/21 e retornou ao clube em 2022 como auxiliar de Guardiola.

Essa familiaridade com a cultura tática do Etihad não é detalhe. Significa que Maresca absorveu — de dentro — os princípios de linha de pressão alta, circulação de bola em triângulos e transição ofensiva rápida que Guardiola instalou ao longo de uma década.

O perfil tático de Maresca e onde ele diverge de Guardiola

Maresca não é um copista. No Leicester, conquistou o título da Championship com um 4-2-3-1 de alta intensidade de pressão, usando linhas defensivas adiantadas e recuperação de bola no campo adversário — média de 18,4 duelos ganhos por jogo na segunda divisão inglesa na temporada do acesso.

No Chelsea, a abordagem evoluiu. A equipe operou com um sistema de posse posicional em 4-3-3 adaptável, com os laterais subindo para criar superioridade numérica no corredor e o pivô de contenção funcionando como terceiro zagueiro na saída de bola. O resultado foi a conquista da Conference League e, posteriormente, do Mundial de Clubes.

A diferença estrutural em relação a Guardiola está na gestão de posse: enquanto o espanhol prioriza a circulação lenta para atrair a pressão adversária e criar linhas de passe profundas, Maresca tende a acelerar a transição ofensiva assim que recupera a bola no terço médio. São filosofias com a mesma base — domínio territorial — mas com diferentes pontos de gatilho.

Decidiu.

A questão agora é como essa aceleração de transição funciona com um elenco historicamente construído para a posse prolongada. Jogadores como Kevin De Bruyne — ainda no clube — foram recrutados e desenvolvidos para um ritmo de jogo diferente.

Os 20 títulos de Guardiola e o peso da sucessão no Etihad

Guardiola encerra sua passagem pelo Manchester City com 20 títulos, incluindo a Copa da Liga Inglesa e a Copa da Inglaterra nesta temporada 2025/26. O último jogo será contra o Aston Villa, no Etihad Stadium, pela rodada final da Premier League.

"Uma era de dez anos no mesmo clube é rara no futebol moderno", escreveu o The Athletic ao contextualizar a saída do treinador espanhol — comparando sua permanência com a de Alex Ferguson no Manchester United, o único precedente recente de domínio técnico tão prolongado em um clube inglês.

Do ponto de vista de dados estruturais, o legado é mensurável. Sob Guardiola, o City manteve média de posse acima de 58% em todas as temporadas da Premier League desde 2017/18. A taxa de passes completos raramente caiu abaixo de 87%. São benchmarks que qualquer sucessor carregará como parâmetro de comparação — justo ou não.

Maresca não precisa replicar esses números. Precisa apresentar uma identidade tática coerente com o plantel que vai herdar, as saídas confirmadas e as entradas que estão sendo negociadas agora com Viana. O trabalho de bastidores que o The Athletic revelou nesta quarta-feira é, precisamente, essa construção.

A última vez que o Manchester City precisou reinventar sua identidade tática foi em 2016 — quando Roberto Mancini e Manuel Pellegrini já tinham ficado para trás e um treinador catalão chegou com uma nova linguagem de jogo que o futebol inglês ainda não havia visto. Dez anos depois, o clube se prepara para uma transição igualmente estrutural, e desta vez com Maresca no centro da solução.