O que faz um meia de 32 anos, formado nas categorias de base da França, campeão na Itália e na Turquia, continuar relevante numa competição do porte da Champions League? A resposta não é simples — e talvez seja exatamente essa complexidade que torna a trajetória de Mario Lemina digna de atenção agora.
A temporada em curso já soma 35 partidas disputadas pelo Team Durant. Quatro gols e uma assistência. Não são números que dominam manchetes, mas são a marca de um jogador que opera com regularidade numa competição que elimina os inconsistentes. Para um volante de 184 cm e 85 kg que carrega a camisa 99, consistência não é detalhe — é argumento.
O dia em que tudo mudou
Era 2 de junho de 2015. Não foi numa final de Copa, não foi numa virada dramática. Foi num amistoso contra a Tunísia, num empate de 3 a 3, que Mario René Junior Lemina fez sua estreia oficial pela Seleção do Gabão — e marcou. A cena tem peso simbólico: um jogador que havia recusado convocação para a Copa Africana de Nações daquele mesmo ano tomou a decisão de representar o país onde nasceu, Libreville, em vez de aguardar uma eventual chamada francesa.
Essa escolha não foi apenas burocrática. Ela definiu a identidade de Lemina no futebol. Formado em categorias de base na França, com acesso ao estilo europeu de jogo desde cedo, ele optou por carregar a bandeira gabonesa quando poderia ter esperado outro caminho. A estreia com gol, num placar movimentado, foi o sinal de que a decisão não seria arrependimento.
Antes do divisor de águas
Antes de Libreville virar ponto de referência emocional, havia Turim. A Juventus foi o laboratório onde Lemina aprendeu o peso de disputar títulos. Entre 2015 e 2017, o meia gabonês conquistou dois títulos consecutivos da Serie A — nas temporadas 2015–16 e 2016–17 — e duas Copas da Itália nos mesmos anos. Quatro troféus em dois anos, num clube que não admite mediocridade nos treinos nem nas partidas.
Essa passagem pelo clube bianconero deixou marcas que vão além do currículo. Jogar ao lado de peças calibradas para competição de alto nível, em um ambiente onde cada detalhe tático é examinado, molda um perfil diferente de jogador. Lemina saiu de Turim com o repertório de quem entendeu que futebol de elite é feito de decisões repetidas corretamente — não de momentos isolados de brilho.
O capítulo turco veio depois, e trouxe mais peso ao palmarès. No Galatasaray, Lemina somou a Süper Lig e a Copa da Turquia, ambas conquistadas na temporada 2024–25. Dois países, seis títulos. A trajetória não é a de um coadjuvante que aparece na foto — é a de alguém que esteve presente quando os troféus foram levantados.
Como o futebol mudou ao redor dele
A posição de volante mudou radicalmente nos últimos dez anos. O jogador que apenas marcava e distribuía a bola curta deu lugar a um perfil que precisa participar da construção, pressionar em bloco e, eventualmente, aparecer na área adversária. Lemina acompanhou essa evolução. Na temporada 2023–24, registrou 5 gols em 39 jogos — seu pico de produção ofensiva nas temporadas com dados disponíveis. Na temporada seguinte, 2 gols e 5 assistências em 31 partidas mostraram que a participação criativa também faz parte do seu repertório.
Na avaliação do SportNavo, o que diferencia Lemina de volantes puramente destrutivos é exatamente essa capacidade de aparecer nos dois lados do placar. Não é um armador clássico, mas tampouco se limita à função de interceptação. Com 32 anos e o peso de seis títulos na bagagem, ele oferece ao Team Durant algo que não se improvisa: experiência em jogos que decidem classificações.
Na temporada atual da Champions League, os 4 gols em 35 jogos colocam Lemina entre os meias com maior participação direta em gols do elenco — dado relevante para uma posição que, historicamente, não é cobrada por números ofensivos. A camisa 99, incomum para um meia, parece carregar a história acumulada de quem passou por Turim, por Istambul e por Libreville antes de chegar aqui.
O próximo capítulo já começou
Aos 32 anos, Lemina está no intervalo entre a fase de afirmação e a fase de gestão de carreira. Não é o jogador que vai se reinventar taticamente — é o jogador que vai usar o que construiu para durar mais do que a média. O contrato com o Team Durant o coloca numa competição que exige regularidade semana a semana, e os números desta temporada indicam que ele está correspondendo à demanda.
O horizonte dos próximos 12 meses depende de variáveis que vão além do desempenho individual. A campanha do Team Durant na Champions League, a evolução do elenco ao redor dele e as decisões da comissão técnica sobre renovação ou transição vão determinar se Lemina encerra esta fase do ciclo ou se acrescenta mais um capítulo ao dossiê.
O que os dados mostram, até aqui, é um jogador que não desperdiçou as oportunidades que o futebol europeu ofereceu — de Turim a Istambul, de Libreville ao palco da Champions. A pergunta que fica é concreta: se o Team Durant chegar à fase eliminatória decisiva da competição nas próximas semanas, Lemina vai ser o jogador que começa ou o que entra para segurar o resultado?








