O paddock estava em silêncio quando os bastidores do grid mais veloz do mundo começaram a vazar a informação. Não era rumor de fim de semana de corrida — era a notícia que a MotoGP esperava há meses. Marc Márquez aceitou renovar com a Ducati por mais dois anos, estendendo o vínculo até o fim de 2028, segundo informações publicadas pela imprensa espanhola e confirmadas por fontes do paddock.

O contrato atual do heptacampeão expiraria no fim de 2026. A renovação antecipada sinaliza que tanto Márquez quanto a Ducati enxergam vantagem em garantir estabilidade antes que o mercado de pilotos esquente de vez — e antes que as mudanças regulatórias de 2027 embaralhem as cartas de todo o grid.

O que Márquez ganha ao ficar na Ducati até 2028

Fontes ligadas ao mercado de contratos da MotoGP estimam que o salário anual de Márquez na Ducati gira em torno de € 12 milhões a € 15 milhões por temporada — valores que, convertidos à cotação atual, representam entre R$ 72 milhões e R$ 90 milhões por ano. Com a renovação por dois anos, o pacote total do contrato pode chegar a € 30 milhões, posicionando o espanhol entre os três atletas mais bem pagos do motociclismo mundial.

Além do salário base, contratos dessa magnitude na MotoGP costumam incluir bônus por título (estimados em 10% a 15% do valor anual), cláusulas de exclusividade com patrocinadores da equipe e percentual sobre direitos de imagem explorados pela Ducati. Nenhum valor oficial foi divulgado pela equipe italiana ou pelo entourage do piloto.

Márquez chegou à Ducati para a temporada 2024 após deixar a Honda, onde passou 11 anos e conquistou seis dos seus sete títulos mundiais na categoria rainha. A adaptação foi rápida: o espanhol somou vitórias ainda em seu primeiro ano com a moto italiana e consolidou a posição de líder técnico dentro da estrutura da fábrica de Bolonha.

"A Ducati é a melhor moto do grid agora. Faz sentido continuar aqui", declarou Márquez em entrevista à imprensa espanhola durante o GP de Jerez, em abril, sem confirmar nem desmentir as negociações.

O regulamento de 2027 como peça central da decisão

A MotoGP anunciou mudanças regulatórias significativas a partir de 2027, com alterações na arquitetura dos motores e nas especificações aerodinâmicas das motos. O novo pacote técnico deve reduzir a vantagem competitiva acumulada pelas equipes que dominam o grid atual — e a Ducati é a principal delas, com oito motos na categoria rainha em 2026, distribuídas entre as equipes de fábrica e satélites.

Para Márquez, renovar agora significa garantir continuidade em um projeto que ele conhece a fundo, com engenheiros e dados de desenvolvimento acumulados. Trocar de equipe às vésperas de uma virada regulatória seria apostar em uma estrutura nova sem histórico com as novas regras — risco que o espanhol, aos 33 anos, claramente não quis correr.

Do lado da Ducati, segurar Márquez até 2028 é uma declaração de intenção. A equipe italiana venceu os últimos três títulos de construtores e quer manter a hegemonia mesmo após a mudança de regras. Ter o piloto mais vitorioso da história da categoria — 65 vitórias na MotoGP — dentro de casa é um ativo técnico e comercial difícil de precificar.

"Com as mudanças que vêm em 2027, ter continuidade no projeto é mais valioso do que qualquer salário extra em outra equipe", avaliou o jornalista espanhol especializado em MotoGP, Carlos Miquel, em coluna publicada no jornal Marca.

Qual equipe teria condições reais de tirar Márquez da Ducati neste momento?

O impacto no grid e o que muda para os coadjuvantes do paddock

A confirmação da renovação fecha uma das últimas grandes janelas de movimentação do mercado de pilotos para 2027. Com Márquez garantido na Ducati, equipes como Aprilia e KTM — que monitoravam o espanhol como opção de alto impacto — precisarão redirecionar suas estratégias de contratação.

A Aprilia, que nos últimos dois anos investiu pesado no desenvolvimento da RS-GP e contratou nomes como Jorge Martín para 2025, precisará construir seu projeto de 2027 sem poder contar com Márquez como âncora. A KTM, por sua vez, ainda lida com instabilidade financeira após o processo de reestruturação iniciado em 2024, e dificilmente teria condições de competir financeiramente com a proposta da Ducati.

Para pilotos jovens da estrutura Ducati, como Enea Bastianini e Franco Morbidelli, a permanência de Márquez como piloto de fábrica reforça a hierarquia interna. O espanhol tem prioridade no desenvolvimento técnico da moto e nos dados de telemetria compartilhados — vantagem que se traduz em tempo de pista e recursos de engenharia.

Outro nome diretamente afetado é Pedro Acosta, o jovem espanhol da KTM apontado como principal candidato a substituir Márquez caso ele deixasse a Ducati. Com a renovação confirmada, Acosta segue no projeto da marca austríaca, pelo menos até que uma janela real se abra.

"Márquez na Ducati até 2028 muda o planejamento de todo mundo. As equipes que esperavam uma janela em 2027 vão ter que buscar outras soluções", disse uma fonte do paddock ouvida pela agência GPOne.

A próxima etapa da MotoGP acontece no GP da França, em Le Mans, no dia 11 de maio — e Márquez chega ao circuito francês como um dos favoritos ao título de 2026, com o contrato de renovação praticamente selado e a Ducati firme na liderança do campeonato de construtores.