— Você viu o Marquinhos na entrevista?
— Vi. Parece que ele tá sentindo o peso de tudo isso.
— Faz sentido. Dois mundiais, duas quartas de final. Agora é o terceiro.
Marquinhos tem 32 anos, duas Champions Leagues pelo PSG e uma braçadeira que pesa mais do que qualquer troféu europeu. Quando chegou aos Estados Unidos para a preparação da Copa do Mundo de 2026, foi direto ao ponto na primeira entrevista coletiva:
"Vivo esse momento cada vez mais como se fosse minha última Copa, minha última oportunidade de estar conquistando títulos."
Não é retórica. É a síntese de um jogador que esteve em campo nas eliminações de 2018, na Rússia, e de 2022, no Catar — as duas vezes nas quartas de final. Oito anos de espera, de dor acumulada, de perguntas sem resposta boa o suficiente.
O que os números dizem sobre o Brasil de Ancelotti antes da estreia
A Seleção Brasileira chega a esta Copa com 11 jogos sob Carlo Ancelotti: 6 vitórias, 2 empates e 3 derrotas. São 24 gols marcados e 10 sofridos — média acima de 2 por partida no ataque e abaixo de 1 na defesa. No papel, parece sólido. Mas os dados de onde os gols saem contam uma história mais complexa.
Dos 10 gols sofridos, 6 vieram pelo meio-campo — 60% do total. Isso é um problema estrutural que qualquer analista de PPDA (passes permitidos por ação defensiva) identificaria rapidamente: a Seleção ainda não encontrou o equilíbrio certo entre pressão alta e proteção do corredor central. O PPDA mede a intensidade da pressão de um time; quanto menor o número, mais agressiva é a marcação. O Brasil de Ancelotti ora pressiona, ora recua, e esse meio-termo abre espaço exatamente onde Marquinhos e o parceiro de zaga precisam de mais cobertura.
Outros 30% dos gols sofridos vieram de bola parada — um dado que vai direto para a responsabilidade defensiva do capitão. No futebol moderno, as defensive actions (ações defensivas, que somam interceptações, cortes e duelos ganhos) de um zagueiro líder são monitoradas jogo a jogo. Marquinhos, com sua leitura posicional, é o principal organizador dessa linha — e sabe disso melhor do que ninguém.
A geração de 1994 e o peso que Marquinhos conhece de cor
Tem uma comparação histórica que encaixa bem aqui. Em 1990, na Itália, o Brasil de Lazaroni tinha Taffarel, Dunga e Mauro Galvão — uma defesa experiente que chegou ao Mundial como favorita e caiu nas oitavas para a Argentina, em 1 a 0, num gol de Caniggia. A geração seguinte, de 1994, carregou esse trauma coletivo até Pasadena e foi campeã. O que mudou? A liderança dentro de campo. Dunga, capitão em 1994, transformou a dor de 1990 em combustível — e levou os mais jovens, como Ronaldo, então com 17 anos, junto nessa viagem emocional.
Marquinhos parece consciente desse papel. Nas palavras dele, há uma missão explícita com os estreantes:
"Nós, os jogadores mais velhos da seleção, sabemos a dor que é, quanto é difícil não ganhar uma Copa do Mundo, ser eliminado. É trazer um pouco dessa experiência para os que estão vindo pela primeira vez."
Endrick, Rayan e Igor Thiago chegam a esta Copa sem saber o que é perder em julho com a camisa amarela. Marquinhos sabe. Duas vezes.

Ancelotti, os testes táticos e o papel do capitão no meio do caos
A preparação em Morristown, Nova Jersey — base escolhida pela CBF no centro de treinamento do New York Red Bulls —, está sendo marcada por experimentos táticos. Ancelotti testou uma formação com três meias durante a semana, e os líderes do elenco sinalizaram que querem Paquetá no time contra o Egito no amistoso de sábado, dia 6 de junho, em Cleveland. A ideia é ter mais presença no meio para proteger exatamente aquele corredor central que sangrou nos 11 jogos anteriores.
Nesse contexto, o papel do capitão vai além da zaga. Marquinhos é o filtro entre a filosofia de Ancelotti — que ele mesmo descreveu como a "figura principal" para organizar as diferentes culturas táticas que cada jogador traz do clube — e a execução em campo. Quando Raphinha aprofunda pela direita e Vinicius Júnior ataca pelo lado esquerdo, alguém precisa garantir que os progressive passes (passes que avançam o jogo em direção ao gol adversário) não deixem a equipe exposta em transição. Esse alguém é, invariavelmente, o capitão que organiza a linha defensiva antes de a bola chegar lá.
O Brasil estreia na Copa do Mundo no dia 13 de junho, contra Marrocos, pelo Grupo C — que tem ainda Escócia e Haiti. Antes disso, o amistoso contra o Egito vai mostrar se Ancelotti encontrou o equilíbrio que os dados ainda não confirmaram. Marquinhos estará em campo, braçadeira no braço, vivendo cada minuto como se fosse o último.
É o mesmo cenário que Dunga viveu em 1994 — só que agora a aposta é diferente: o Brasil não tem apenas um líder veterano tentando exorcizar um trauma, tem uma geração inteira de jovens que nunca sentiram essa dor, e o capitão precisa ensiná-los a ter medo do suficiente para não desperdiçar a chance.









