Três nomes. Dois clubes. Um problema que Ancelotti já sabia que teria, mas que não fica menor por ser previsto. Marquinhos, Gabriel Magalhães e Martinelli disputam a final da UEFA Champions League em Budapeste neste sábado (30) e não pisarão em solo brasileiro antes da Copa do Mundo. Chegam direto a Nova Jersey, na terça-feira (2 de junho), quando o restante do grupo já terá completado a primeira semana de trabalho conjunto nos Estados Unidos.

O precedente de 2002 e o que ele ensina sobre atrasos de titulares

A história da Seleção Brasileira convive com esse tipo de dilema há décadas. Em maio de 2002, Ronaldo disputou a final da Liga dos Campeões pelo Real Madrid — uma derrota por 2 a 1 para o Bayer Leverkusen no Hampden Park de Glasgow — e se apresentou ao técnico Luiz Felipe Scolari com o grupo já em ritmo de preparação para o Mundial do Japão e Coreia. O Brasil, naquele ano, levantou a taça. Mas a comparação tem limites claros: em 2002, Ronaldo era o único grande nome com chegada atrasada e a defesa titular estava intacta. Hoje, Ancelotti acumula a ausência de Éder Militão, Rodrygo e Estêvão — todos cortados por lesão — antes mesmo de resolver o impasse da zaga.

O regulamento da FIFA para a Copa do Mundo prevê a liberação compulsória de atletas pelos clubes a partir de 26 de maio, mas garante exceção explícita para jogadores envolvidos nas finais de torneios continentais de clubes até 30 de maio de 2026. A CBF não abriu mão dos três jogadores por generosidade: simplesmente não tinha escolha legal para fazê-lo.

O que Marquinhos disse na véspera da decisão em Budapeste

Na sexta-feira (29), em entrevista coletiva antes do jogo, o capitão do PSG foi questionado sobre a possibilidade de poupar energia pensando na Copa do Mundo — e recusou a premissa com clareza:

"Estamos falando da final da Champions League, você não tem a chance de jogá-la todo ano. É muito difícil estar aqui. Há jogadores que trabalham duro e nunca chegarão à final. Nosso sentimento, nosso coração, está nesse jogo. A Copa do Mundo é extraordinária e muito importante, mas a final da Champions também é. Temos que estar focados, 100%. Quero ganhar esse título e chegar ainda mais feliz, mais confiante em fazer uma boa Copa do Mundo."

A declaração de Marquinhos ecoa algo que qualquer veterano de redação esportiva reconhece: a hierarquia emocional de um atleta de alto nível não obedece ao calendário da federação. O zagueiro de 31 anos, que tentará o bicampeonato europeu pelo PSG — o clube conquistou a primeira Champions da história em 2024-2025 —, sabe que finais desse calibre não se repetem com frequência. Gabriel Magalhães e Martinelli, pelo Arsenal, disputam a decisão pela primeira vez nas carreiras.

Dias de treino perdidos e o risco real para a formação titular

O Brasil encerrou a primeira fase da preparação na Granja Comary neste sábado sem o trio. Quando Ancelotti desembarcar em Nova Jersey na terça-feira, terá tido aproximadamente seis dias de trabalho com o grupo — sem os dois zagueiros que formam a dupla titular projetada para a Copa. Para um técnico que, em seu tempo no Real Madrid, levou entre 10 e 14 dias para consolidar esquemas táticos antes de decisões europeias, perder esse tempo com a espinha dorsal defensiva é um custo que não se recupera com facilidade.

A situação lembra, estruturalmente, o que viveu o técnico argentino Marcelo Bielsa na Copa de 2002, quando perdeu dias de preparação com jogadores que disputaram a Libertadores tardiamente — e a Argentina caiu na fase de grupos. A referência não é profecia, mas é aviso: preparação fragmentada cobra preço em torneios eliminatórios.

Existe ainda o risco físico direto. Uma final de Champions exige esforço máximo — sprints, disputas aéreas, pressão constante. Marquinhos e Gabriel Magalhães são zagueiros que cobrem espaço e se envolvem em duelos físicos durante 90 minutos. Chegar ao primeiro treino com a Seleção com o corpo ainda absorvendo o desgaste de Budapeste é diferente de chegar descansado após uma semana de recuperação controlada.

O que Ancelotti pode fazer com o tempo que tem

Existe um paralelo cinematográfico útil aqui: em Moneyball, o personagem de Brad Pitt monta um time com as peças disponíveis enquanto espera as ideais chegarem. Ancelotti, que conhece bem a arte de adaptar planos a contingências — foram 17 títulos como técnico em quatro países diferentes —, terá de usar os primeiros dias nos EUA para trabalhar os jogadores presentes no sistema defensivo sem a dupla central definitiva.

Nomes como Beraldo e Murillo podem ser testados em duplas provisórias. O tempo de treino coletivo com Marquinhos e Gabriel Magalhães antes da estreia do Brasil na Copa será, na melhor das hipóteses, de aproximadamente dez dias — contando a data de chegada do trio e o primeiro jogo do grupo. Em 2014, a Seleção de Felipão teve três semanas de preparação com o grupo completo antes de enfrentar a Croácia na abertura. A comparação é desfavorável.

O Brasil estreia na Copa do Mundo no dia 13 de junho, contra um adversário que ainda será confirmado pelo sorteio de grupos. Marquinhos, Gabriel Magalhães e Martinelli terão, portanto, pouco mais de dez dias para se integrar ao trabalho de Ancelotti em campo — tempo curto, mas não inédito. Gravar os primeiros treinos do trio nos EUA, a partir de terça-feira, é o melhor termômetro para avaliar se o atraso deixará marcas ou será absorvido sem consequências.