Quando Formiga tinha 39 anos, em 2017, a seleção brasileira feminina ainda a escalava como titular no meio-campo — e o mundo do futebol feminino debatia se aquilo era homenagem ou necessidade real. Quase uma década depois, a questão se repete com outro nome e outro peso histórico: Marta, 40 anos completos em fevereiro, foi convocada nesta quarta-feira (20/5) pelo técnico Arthur Elias para os amistosos da Seleção Brasileira Feminina contra os Estados Unidos, marcados para 6 e 9 de junho, na Neo Química Arena, em São Paulo, e na Arena Castelão, em Fortaleza. A diferença é que, desta vez, o debate não é sobre homenagem nem sobre necessidade operacional — é sobre o que uma jogadora com seis Copas do Mundo nas costas representa dentro de um processo de renovação que Arthur Elias vem construindo há dois anos.
A lista de 26 e o equilíbrio entre gerações
A convocação divulgada na sede da CBF, no Rio de Janeiro, traz 26 nomes que atuam tanto no Brasil quanto no exterior. A base do grupo mantém jogadoras que já se consolidaram no projeto de Elias: a zagueira Rafaelle, do Orlando Pride, a atacante Bia Zaneratto, do Palmeiras, e Kerolin, do Manchester City — três nomes que estiveram presentes nos Jogos Olímpicos de Paris 2024, onde o Brasil chegou às quartas de final. Ao lado delas, nomes jovens como Kaylane, do Flamengo, e Gio Garbelini, do Atlético de Madrid, ganham espaço num grupo que também conta com Ary Borges, do Angel City, e Gabi Portilho, do San Diego. Marta, que defende o Orlando Pride na NWSL, é a única jogadora da lista com passagem por seis edições de Copa do Mundo — um dado que, sozinho, justifica sua presença independentemente de qualquer argumento técnico.
O que os números dizem sobre Marta hoje
Há uma métrica chamada expected goals (xG) — uma estatística que mede a qualidade das chances criadas ou finalizadas por um jogador, independentemente de o gol ter entrado ou não. Na temporada atual da NWSL, Marta apresenta um xG acima de 0,30 por 90 minutos no Orlando Pride, número que coloca ela entre as atacantes mais eficientes em termos de posicionamento e qualidade de finalização do campeonato. Para o leigo: significa que ela ainda ocupa as posições certas na hora certa, o que, para uma atacante de 40 anos, é mais raro do que qualquer título. O SportNavo acompanhou os dados da temporada 2025/2026 da NWSL e o índice confirma que o declínio físico não apagou o repertório técnico que a tornou a maior artilheira da história das Copas do Mundo femininas, com 17 gols em seis edições.
O precedente histórico e o papel simbólico nos amistosos
A rivalidade Brasil x Estados Unidos no futebol feminino tem uma das histórias mais ricas do esporte mundial. O confronto mais emblemático permanece sendo a final dos Jogos Olímpicos de Atenas 2004, quando os EUA venceram o Brasil por 2 a 1 na prorrogação — jogo em que Marta, então com 18 anos, já era titular. Vinte e dois anos depois, ela estará de volta ao gramado diante da mesma seleção, agora como a jogadora mais experiente do grupo. Não é pouca coisa. A comissão técnica de Arthur Elias também convocou, paralelamente, 30 jogadoras para um período de treinamentos em Itu, no interior de São Paulo — um sinal claro de que a ampliação do banco de observações é parte do planejamento para a Copa do Mundo Feminina de 2027, que será disputada no Brasil.
O que Elias espera de junho
Segundo a comissão técnica, a intenção dos amistosos vai além do resultado. Arthur Elias quer observar como as jovens convocadas reagem à pressão de enfrentar as tetracampeãs mundiais, e o retorno de Marta ao ambiente da seleção serve como catalisador desse processo — menos pelo que ela produz em campo e mais pelo que transmite nos treinos, nas conversas e nas situações de jogo que só quem disputou seis Copas consegue antecipar. O primeiro teste acontece em 6 de junho, às 18h30, na Neo Química Arena. Três dias depois, em 9 de junho, às 21h30, a Arena Castelão recebe o segundo duelo.
"A lista mescla experiência com renovação", afirmou a comissão técnica no evento de divulgação da convocação, realizado na sede da CBF no Rio de Janeiro.
Imaginem a cena: Marta aquecendo no gramado da Neo Química Arena ao lado de Kaylane, que tinha 7 anos quando a camisa 10 chorou na Copa de 2007 pedindo que as crianças brasileiras continuassem acreditando. Essa imagem, antes de qualquer placar, já diz tudo sobre o que esses dois jogos de junho pretendem ser.









