Resistiu. Quando o futebol europeu começou a catalogar zagueiros pelo volume de saídas de bola e pelo passe progressivo, Martin Valjent continuou fazendo a coisa mais antiga e ingrata do mundo: defender. E foi exatamente essa teimosia funcional que o levou, aos 30 anos, a vestir a camisa 24 do Galatasaray na Champions League.

O número que define a temporada

Três gols em 31 jogos. Para um centroavante, esse número seria motivo de conversa difícil com o treinador. Para um zagueiro de 187 cm que pesa 70 kg — uma combinação que sugere mais elegância do que massa — é um dado que merece atenção. Nesta temporada, Valjent não apenas cumpriu a função primária de seu posto como acrescentou peso ofensivo a uma equipe que disputa o torneio mais exigente do continente. Três gols em uma única campanha europeia representam, para um defensor central, o tipo de produção que nos anos 1990 teria rendido manchetes sobre o "libero moderno" — aquele arquétipo que a Serie A italiana adorava nos tempos de Baresi e Costacurta, quando o zagueiro que marcava era tratado como fenômeno da natureza.

O paralelo não é forçado. Valjent começou sua formação profissional justamente na Itália, no Ternana Calcio da Série B, aos 17 anos, em 2013. Aprender a defender no futebol italiano daquela geração era frequentar uma escola com currículos rígidos e professores impiedosos. Quem passou por lá carrega uma espécie de diploma tácito de solidez defensiva.

Como ele chegou aqui

A trajetória de Valjent tem a geometria discreta de quem constrói carreira sem atalhos. Depois dos anos de formação na Itália, o ponto de inflexão real veio em agosto de 2018, quando foi emprestado ao RCD Mallorca, então na Segunda División espanhola. O empréstimo que parecia provisório tornou-se permanente — e transformou um jovem zagueiro eslovaco em símbolo de uma das histórias mais interessantes do futebol espanhol recente.

Em fevereiro de 2021, ele estendeu o contrato com o clube balear até 2025, consolidando uma relação que já ultrapassava a lógica contratual. O ápice simbólico dessa ligação veio em 24 de fevereiro de 2024, quando Valjent completou sua 200ª partida pelo Mallorca, num empate de 1 a 1 contra o Deportivo Alavés pela Copa del Rey. Duzentos jogos por um único clube é, seria injusto chamar de era — mas é uma era em escala doméstica, especialmente num futebol onde a fidelidade de cinco anos já é considerada exótica.

A renovação até 2029, firmada em 2025, parecia selar definitivamente seu destino nas Ilhas Baleares. Que ele tenha chegado ao Galatasaray e à Champions League a partir desse ponto é o capítulo que nenhum roteirista teria escrito com muita confiança.

Sua história na seleção eslovaca segue a mesma lógica de acumulação paciente. A primeira convocação veio em maio de 2018, pelo técnico Ján Kozák sr., para amistosos contra Países Baixos e Marrocos. A estreia aconteceu contra Marrocos, em Genebra, quando entrou aos 79 minutos substituindo Tomáš Hubočan — uma entrada de sete minutos que, para ele, equivalia a uma dissertação de doutorado defendida após anos de pesquisa.

O que o faz diferente dos pares

Qual é, afinal, o perfil de zagueiro que sobrevive e prospera na Champions League aos 30 anos sem ter passado pelos grandes clubes formativos do continente?

A resposta, no caso de Valjent, parece estar na versatilidade funcional. Sua capacidade de atuar tanto como zagueiro central quanto como lateral direito não é uma curiosidade de ficha técnica — é um diferencial competitivo real num torneio onde os sistemas táticos mudam de semana a semana e onde o técnico precisa de jogadores que resolvam dois problemas com uma única escalação. Nos anos 2000, quando o futebol espanhol vivia a transição entre o 4-4-2 clássico e o 4-3-3 de Guardiola, esse tipo de zagueiro-coringa era ouro puro para equipes de médio porte que disputavam torneios europeus sem elenco para rotação profunda.

Sua estrutura física — 187 cm com apenas 70 kg — também conta uma história. Não é o zagueiro que vence duelos pela força bruta. É o que antecipa, posiciona e lê o jogo. No futebol contemporâneo, onde a pressão alta exige que os defensores sejam os primeiros jogadores da construção ofensiva, esse perfil tem mais valor do que em qualquer outro momento da história recente da posição. Em matéria do SportNavo publicada anteriormente sobre perfis de zagueiros na Champions League desta temporada, o padrão que emerge é exatamente esse: defensores que somam leitura tática à capacidade de contribuir na transição. Valjent se encaixa com precisão nesse molde.

Os limites a vencer

Nenhum perfil honesto ignora as lacunas. A ausência de dados sobre conquistas coletivas na carreira de Valjent não é um detalhe menor — é um dado em si mesmo. Sua trajetória foi construída em clubes que brigaram pela permanência, pela promoção, pela consolidação. O Mallorca da Segunda División que ele ajudou a construir não era o Barcelona de Guardiola nem o Milan de Capello. Era um projeto de resistência, e Valjent foi um de seus pilares mais confiáveis.

A questão que se coloca agora é se, aos 30 anos, ele tem tempo e contexto para acrescentar troféus expressivos a uma carreira que já tem substância mas ainda carece de brilho coletivo. O Galatasaray é um clube com apetite europeu e história de conquistas domésticas na Turquia — mas a Champions League, nesta fase, é um ambiente de pressão diferente de tudo que ele enfrentou antes. Trinta e um jogos e três gols nesta temporada sugerem adaptação, não apenas sobrevivência. Mas a adaptação plena, aquela que transforma um jogador competente em referência de uma geração, ainda está sendo escrita.

Valjent tem 30 anos, uma mentalidade forjada na Série B italiana e na Segunda División espanhola, e a clareza de quem sabe exatamente o que é capaz de fazer. Nos próximos 12 meses, o desafio é simples de enunciar e difícil de executar: provar que o capítulo europeu não é um bônus de fim de carreira, mas o ponto mais alto de uma trajetória que sempre mereceu palco maior.