Quantos atacantes brasileiros chegaram à Premier League antes dos 20 anos, venceram a FA Cup, conquistaram ouro olímpico e ainda assim carregam a sensação de que o melhor está represado, esperando uma válvula que ainda não abriu?

A pergunta paira sobre Gabriel Martinelli toda vez que o Arsenal entra em campo. Não porque ele decepcione — ele não decepciona. Mas porque a distância entre o que ele mostra e o que ele parece capaz de mostrar ainda é larga o suficiente para incomodar quem assiste do Emirates Stadium ou de qualquer tela do mundo.

Barcelona - Real Madrid

Guarulhos, 2001. Uma cidade que não para, um menino que também não parava.

O que ele ainda não resolveu

Na temporada 2025/2026 da Premier League, Martinelli acumula 6 gols e 4 assistências em 35 jogos. Os números não mentem — mas também não contam tudo. Para um ponta-esquerda de 24 anos que usa a camisa 11 num dos clubes mais ambiciosos da Europa, a conta esperada é mais alta. O que falta não é vontade nem velocidade: é a consistência assassina, aquela frieza milimétrica que transforma boas participações em partidas dominadas.

O que para o argentino é instinto de área — esse olfato quase genético que Lautaro Martínez carrega como segundo idioma —, para o atacante brasileiro costuma ser construção. Martinelli ainda está construindo. E a obra, neste ponto da carreira, deveria estar mais adiantada.

Há um padrão que os dados desta temporada sugerem: ele aparece, ele participa, ele cria — mas os momentos de definição, quando a bola pede que o jogador imponha sua assinatura, ainda escapam com frequência desconcertante. Seis gols em 35 jogos é uma linha de contribuição que mantém o jogador relevante, não uma linha que o coloca no centro da narrativa.

Onde está hoje em relação a esse buraco

A trajetória de Martinelli tem uma curva que poucos jovens brasileiros conseguiram desenhar. Ele saiu do Ituano em 2018, passou pelas categorias de base do Corinthians e chegou ao Arsenal em 2019 por 6 milhões de euros — um valor que, olhando para trás, parece quase uma brincadeira. Em 2020, ergueu a FA Cup. Em 2021, em Tóquio, estava no grupo que devolveu ao Brasil a medalha de ouro olímpica. Em 2022, estreou pela Seleção principal e foi à Copa do Mundo. Em 2023, a Supercopa da Inglaterra.

São conquistas reais. Não são enfeites.

E agora, em maio de 2026, com a Copa do Mundo batendo à porta — as notícias das últimas semanas colocam seu nome entre os convocados de Carlo Ancelotti para Budapeste —, Martinelli está exatamente no ponto de inflexão que define carreiras. Ou ele fecha o buraco da regularidade ofensiva agora, neste ciclo, ou o buraco cresce junto com as expectativas.

Aos 24 anos e 178 cm, com 75 kg de explosão concentrada, ele tem o físico certo. Tem o clube certo. Tem o palco certo. O que ainda falta é a versão de si mesmo que ele ainda não entregou por completo numa temporada inteira.

O caminho técnico para tapá-lo

A lacuna de Martinelli não é de esforço — quem o viu correr pelos flancos do Emirates sabe que ele não poupa o corpo. A lacuna é de escolha. Nos metros finais, quando o campo se fecha e o goleiro se impõe, ele ainda hesita onde outros decidem. É um décimo de segundo. Mas na Premier League, um décimo de segundo é a diferença entre gol e escanteio.

O caminho técnico passa por uma coisa simples de enunciar e difícil de executar: mais chutes, menos elaboração. Os dados desta temporada — 6 gols em 35 jogos — sugerem que ele ainda busca o passe perfeito quando o chute imperfeito seria suficiente. É um ajuste de mentalidade tanto quanto de mecânica.

Há também a questão da variação de posição. Como atacante que atua prioritariamente pelo lado esquerdo, Martinelli depende de certa previsibilidade do sistema ao redor para se soltar. Quando o Arsenal varia o esquema ou quando o adversário fecha a diagonal para o centro, ele precisa de mais recursos para criar perigo por caminhos alternativos. Desenvolver esse repertório — o gol pelo corredor, o cabeceio na segunda trave, o passe de ruptura — é o que separa o jogador bom do jogador grande.

O que isso destrava na carreira

Se Martinelli resolver a equação da consistência ofensiva nos próximos 12 meses, o que se abre é considerável. A Copa do Mundo de 2026 é o palco mais visível do planeta, e ele estará lá — as convocações recentes de Ancelotti confirmam que seu nome está no radar, com Marquinhos e Gabriel ao lado em possíveis combinações táticas. Um torneio bem jogado, com gols em momentos decisivos, reescreve percepções em semanas.

No Arsenal, a camisa 11 carrega peso histórico. Vestir esse número e transformá-lo numa referência ofensiva consistente ao longo de uma temporada completa colocaria Martinelli numa conversa diferente — não mais a do talento promissor que chegou jovem da América do Sul, mas a do jogador que o clube construiu e que o clube precisa.

Há uma versão de Gabriel Martinelli que ainda não existiu por uma temporada inteira. Ela está próxima. O futebol europeu não espera para sempre — mas, por enquanto, ainda espera.