O atacante mais valioso não é sempre o mais decisivo. Esse é o paradoxo que define a comparação entre Gabriel Martinelli e Alexander Isak na Premier League 2025/2026 — e é exatamente esse aparente conflito que os dados ajudam a resolver.

Isak custa €100 milhões no mercado. Martinelli está avaliado em €45 milhões. A diferença é de mais do que o dobro. Mas quando a gente olha para o que cada um entrega dentro de campo, a conversa fica bem mais interessante do que o preço sugere.

Gabriel Martinelli (Arsenal)
Gabriel Martinelli (Arsenal)

A tabela antes de tudo

Dimensão Gabriel Martinelli Alexander Isak
Idade 25 anos 26 anos
Posição Ponta-esquerda Centroavante
Time atual Arsenal Liverpool
Jogos (temporada) 36 34
Gols (temporada) 15 23
Assistências (temporada) 5 6
Valor de mercado €45 milhões €100 milhões

Isak tem 23 gols em 34 jogos — uma taxa de 0,68 gols por jogo. Martinelli soma 15 gols em 36 jogos, chegando a 0,42 por jogo. A diferença é real e não pode ser ignorada. Mas a posição importa muito aqui: Isak é centroavante de área, vive de finalização. Martinelli é ponta, e parte da sua função é criar, não só converter.

Para entender o impacto real de cada um, é onde entram as métricas modernas.

xG (expected goals): mede a qualidade das chances geradas ou finalizadas, com base em dados históricos de ângulo, distância e tipo de passe anterior. Um atacante que supera consistentemente seu xG é excepcional. Isak, pela posição e pelo volume de gols, provavelmente opera acima do seu xG — o que é raro e valioso.

xA (expected assists): avalia o potencial de gol de passes decisivos, independentemente de o chute entrar ou não. Martinelli, com 5 assistências em 36 jogos como ponta, gera xA relevante — sua função no sistema do Arsenal inclui criar largura e construir jogadas.

Progressive passes: passes que avançam a bola de forma significativa em direção ao gol adversário. Pontas como Martinelli costumam aparecer alto nessa métrica quando o time usa saída de bola pelo corredor esquerdo.

Em um clássico decisivo, quem aparece

Arsenal e Liverpool são rivais diretos pelo título na Premier League — ou, ao menos, pela zona de Champions. Um clássico entre eles em abril ou maio do calendário tem peso de decisão imediata.

Nesses jogos, o espaço fecha. O PPDA (passes permitidos por ação defensiva) despenca — os times pressionam mais, erram menos, e as chances ficam escassas. Nesse contexto, quem finaliza com qualidade a partir de poucos toques é quem decide.

Isak tem 23 gols em 34 jogos numa temporada inteira. Isso sugere que ele converte bem mesmo quando o espaço não é generoso. Sua altura (192 cm) e presença física permitem que ele dispute bolas aéreas e segurar zagueiros — algo que Martinelli, como ponta mais móvel, não precisa fazer da mesma forma.

Martinelli, por outro lado, aparece justamente quando o adversário abre espaço nas costas da defesa — e numa partida de alto nível, isso pode acontecer em transições rápidas. Sua velocidade e capacidade de driblar em velocidade são armas em qualquer clássico.

Gabriel Martinelli (Arsenal)
Gabriel Martinelli (Arsenal)

Vantagem em cenário de clássico fechado: Isak, pela eficiência de área e pela qualidade de finalização com poucas oportunidades.

Em uma final de copa, quem decide

Finais de copa são jogos de nervos, mas também de sistemas táticos. O técnico monta o time para não perder primeiro — e quem decide costuma ser o jogador que quebra o padrão defensivo do adversário.

Martinelli já levantou a FA Cup pelo Arsenal (temporada 2019/20) e a Supercopa da Inglaterra em 2023. Isak foi campeão da Copa da Liga Inglesa pelo Newcastle na temporada 2024/25. Os dois têm experiência em finais, mas as circunstâncias são diferentes.

Uma final de copa exige um jogador que aguente o peso emocional dos 90 minutos e apareça quando o time mais precisa. Isak, com 23 gols nesta temporada, vive um momento de artilheiro que poucos centroavantes da Premier League alcançaram. Para ter uma referência histórica: Alan Shearer, na temporada 1995/96 pelo Newcastle, marcou 31 gols na Premier League — a marca mais alta de uma era de centroavantes dominantes nos anos 90. Isak não chegou a tanto, mas está no mesmo perfil de atacante que decide por finalizações de qualidade, não por volume de envolvimento.

Vantagem em final de copa: Isak, pelo momento de forma e pela função de referência ofensiva.

Sob pressão da torcida, quem segura

Esse é o critério mais subjetivo, mas também o mais revelador. Pressão de torcida aparece quando o time não está bem, quando o placar está adverso, quando o estádio cobra.

Martinelli joga no Emirates Stadium com a camisa 11 do Arsenal — uma das torcidas mais exigentes da Inglaterra. Ele chegou ao clube com 17 anos, por €6 milhões, e se consolidou num ambiente de altíssima expectativa. Isso forma um tipo de resiliência difícil de medir, mas real.

Isak saiu do Newcastle — onde era ídolo absoluto numa cidade que vive de futebol — e chegou ao Liverpool, clube com ainda mais pressão histórica. Qualquer novo jogador no Anfield tem que provar seu valor rapidamente.

  • Martinelli: 36 jogos na temporada, o que indica regularidade e confiança do técnico mesmo em semanas difíceis.
  • Isak: 34 jogos com 23 gols — se estivesse quebrando sob pressão, esse número seria menor.

Os dois seguram. Mas Martinelli tem mais jogos acumulados nesta temporada, o que pode indicar que o Arsenal depende mais da sua presença em campo do que o Liverpool depende de Isak — ou simplesmente que o brasileiro tem mais minutagem disponível. Empate técnico nesse critério, com leve vantagem de consistência para Martinelli.

Quem é mais previsível no momento crítico

Previsibilidade aqui não é defeito — é confiabilidade. Um técnico quer saber o que vai acontecer quando coloca um jogador em campo nos últimos 20 minutos de um jogo travado.

Isak entrega gols. Isso é a certeza que ele traz. Com quase 0,7 gols por jogo nesta temporada, qualquer chance de área que chegue a ele tem alta probabilidade de virar gol. Essa é uma leitura direta das métricas de finalização.

Martinelli entrega movimento, pressão alta, e eventualmente gols ou assistências — mas com menos previsibilidade ofensiva pura. Sua função no sistema do Arsenal é mais ampla: ele pressiona a saída de bola adversária (ações defensivas no campo deles), participa da construção e finaliza quando a jogada evolui. Isso torna seu impacto menos linear, mas igualmente valioso para o time.

Quem você quer para garantir um gol? Isak. Quem você quer para garantir que o time funcione como sistema? Martinelli.

São perguntas diferentes — e as respostas revelam que os dois jogadores não são substitutos um do outro, mesmo competindo na mesma liga e no mesmo segmento de mercado.

A conclusão que os dados apontam é direta: Isak está em melhor momento individual agora. Vinte e três gols em 34 jogos é um número que faz qualquer análise se curvar. O sueco do Liverpool é o atacante mais eficiente da Premier League nesta temporada entre os dois, e provavelmente um dos melhores da liga. Martinelli, por sua vez, representa o melhor custo-benefício — €45 milhões por um ponta de 25 anos com 20 contribuições diretas (15 gols + 5 assistências) é um retorno que poucos clubes conseguem replicar. É o mesmo cenário que o Arsenal viveu quando contratou Thierry Henry em 1999 por cerca de £10 milhões — apostou num atacante subestimado pelo mercado e colheu anos de dominância — só que agora a aposta é diferente: Martinelli não é Henry, mas a lógica de valor é a mesma, e quem entender isso primeiro leva vantagem.