Confesso: eu subestimei o MasterChef Brasil. Por anos, tratei o programa como um reality culinário de domingo à noite — aquele tipo de atração que você assiste enquanto dobra roupa, sem precisar de muita atenção. Errei. A 13ª temporada, que estreia nesta terça-feira (26) às 22h30 na Band, chega com uma reconfiguração de perfil tão clara que obriga qualquer observador a rever o diagnóstico.
O formato Copa do Mundo que muda a lógica da disputa
A produção estruturou as seletivas iniciais como um torneio de futebol: 24 cozinheiros amadores divididos em quatro grupos de seis, com mata-mata e até disputas em formato de pênaltis para definir quem conquista os 18 aventais da temporada. O prêmio ao final de 19 semanas de competição é de R$ 300 mil. Os participantes vêm de 12 estados diferentes — de Gabriela, ginecologista de Salvador, a Patric, engenheiro ambiental de Porto Velho — e a diversidade geográfica é um dado que a produção usa como argumento de representatividade, mas que na prática cria dinâmicas de grupo imprevisíveis desde o primeiro episódio.
O esquema de grupos não é só estético. Ele força alianças imediatas e rivalidades antes mesmo de qualquer avental ser distribuído.
Participantes que jogam xadrez enquanto cozinham
Tem uma cena em Succession — a série da HBO sobre poder e traição dentro de uma família bilionária — em que um dos personagens explica que a única forma de vencer um jogo longo é nunca revelar o quanto você quer ganhar. Os participantes desta edição parecem ter assistido. Segundo Erick Jacquin, chef e jurado do programa, o nível de consciência estratégica surpreendeu logo nas primeiras gravações.
"Nessa temporada eles são muito mais competitivos, eles são muito mais 'jogo'. Eles analisam como vão chegar à final. Pensam em dar dificuldades para os melhores e ajudar os piores, porque na final é melhor ter um cara de quem você acha que vai vencer. Então hoje eles estão jogando muito mais do que no passado. Eu acho que isso é muito interessante", declarou Jacquin.
A lógica descrita pelo chef francês é a mesma de qualquer competição de alto nível: você não derrota o adversário mais forte na fase de grupos se puder evitá-lo. Você o enfraquece. A novidade é que isso agora acontece dentro de uma cozinha, entre pessoas que vieram aprender a cozinhar melhor — ou pelo menos é o que dizem na inscrição.
O jurado Henrique Fogaça foi preciso ao mapear o diferencial emocional que separa quem avança de quem desmorona cedo.
"Se formos rígidos e o indivíduo não estiver pronto para lidar com isso, vai afundar nos embates. Aqueles que ouvem críticas duras, reconhecem os tropeços e procuram se aperfeiçoar, conseguem evoluir", afirmou o chef.
A comparação com o BBB que a Band não está desmentindo
A imprensa especializada em televisão já colocou o programa lado a lado com o Big Brother Brasil — e a comparação não é absurda. Frases como "a selvageria vai rolar" e "vou acabar com você", ditas por participantes ainda na fase de seletivas, são o tipo de material que qualquer produtor de reality de confinamento colocaria no trailer sem hesitar. A diferença estrutural é que no MasterChef o jogo tem uma âncora objetiva: o prato. Você pode ser o mais estratégico da temporada, mas se errar o ponto da carne na hora errada, vai para casa.
Essa tensão entre o jogo político e o critério técnico é o que torna a comparação com o BBB interessante sem ser definitiva. No confinamento da Globo, a competência na tarefa raramente salva quem está mal posicionado socialmente. No MasterChef, um prato excepcional ainda pode reverter uma semana inteira de má vontade dos colegas.
A jurada Helena Rizzo apontou o que mantém o programa com identidade própria mesmo diante da escalada estratégica.
"Tem uma coisa de genuíno numa cozinha amadora, de espontaneidade", disse a chef durante a coletiva de imprensa da temporada.
Dinâmicas novas e o calendário que vem pela frente
A produção confirmou o retorno de provas clássicas como o Leilão e as Caixas Misteriosas, mas acrescentou formatos inéditos — entre eles o "Amo ou Odeio" e o "Ranking" — que prometem criar exatamente o tipo de situação que Fogaça descreveu como "botar fogo no parquinho". O mecanismo de prejudicar rivais ao tirar tempo de prova, já presente em edições anteriores, segue no cardápio e deve ganhar peso maior num grupo que chegou pensando em estratégia desde o primeiro dia.
Ao longo das 19 semanas, os desafios incluirão ingredientes exóticos, sustentabilidade e preparo de pratos para públicos específicos — de motoboys a influenciadores digitais. A temporada conta com 12 marcas patrocinadoras confirmadas, entre elas Cacau Show, Nestlé e Heinz nas cotas Master, e o programa também estará disponível em simulcast no Band.com.br e no aplicativo Bandplay.
O terceiro episódio, quando os 18 classificados entram oficialmente na fase principal, é a data que define o tom real da temporada. Até lá, o que a Band mostra são 24 pessoas que chegaram dispostas a vencer — e que não estão disfarçando isso.









