Ele joga para que o espetáculo aconteça em volta dele. E é exatamente por isso que Matheus Nunes pode ser o nome mais importante que você menos ouve quando fala do Manchester City em 2026.
Onde ele está no jogo global
Manchester. Tarde de abril. O Etihad Stadium ainda carregava o eco do empate em 1 a 1 contra o Arsenal — resultado que, dependendo do ângulo, pareceu frustrante para uns e revelador para outros. Frustrante pela falta de vitória. Revelador porque, olhando o mapa de movimentação do City naquele jogo, havia um corredor de equilíbrio que só funcionava quando o camisa 27 estava no lugar certo. Matheus Nunes, 27 anos, nascido em 27 de agosto de 1998, tem uma simetria quase absurda com a sua própria camisa — e com a função que ocupa no esquema de Pep Guardiola na temporada 2025/2026.
O português de raízes brasileiras chegou ao City em 2023, vindo do Sporting de Lisboa, clube onde havia conquistado a Primeira Liga portuguesa em 2020/21 e duas Taças da Liga, em 2020/21 e 2021/22. Não era uma contratação de vitrine. Era uma contratação de engenharia — alguém para fazer o sistema respirar. E o City, acostumado a peças desse tipo, sabia exatamente o que estava comprando.
O que os números dizem na comparação
Trinta e quatro jogos. Um gol. Cinco assistências. É a fotografia estatística de Matheus Nunes nesta temporada pela Champions League. Para quem olha de fora e usa gol como única régua, parece pouco. Para quem entende o papel que ele ocupa, é uma declaração de consistência.

Pense num maestro de orquestra. Ninguém sai do concerto falando do regente — falam dos violinos, da soprano, do contrabaixo. Mas retire o maestro e a música desmorona. É essa a função que Nunes desempenha: ele não é o solista, ele é o tempo. E nessa temporada, com 34 aparições, ele foi o metrônomo que o City precisou em cada fase da competição.
Compare com o perfil médio de um jogador na mesma faixa etária disputando Champions League em 2025/2026: a maioria dos que ultrapassam 30 jogos em campanhas europeias tende a polarizar entre alta contribuição ofensiva ou solidez defensiva pura. Nunes se recusa a escolher um dos dois lados — e essa recusa tem custo de visibilidade, mas tem ganho de valor tático.

Onde ele se distingue dos rivais
O histórico de Nunes tem uma linha narrativa que poucos jogadores da sua geração conseguem traçar com coerência. Começou na Ericeirense, clube humilde da região de Lisboa, onde ajudou a conquistar o Campeonato Distrital AF Lisboa — Divisão de Honra de 2017/18. Não é um título que aparece em capas de revista. É o tipo de conquista que forma caráter, que ensina o que é vencer com pouco.
Do distrito para o Sporting foi um salto de qualidade que ele sustentou com trabalho. No clube lisboeta, acumulou títulos de peso — incluindo a Supertaça Cândido de Oliveira de 2021 — e construiu o currículo que convenceu o City a investir nele. Desde que chegou a Manchester, somou a Copa do Mundo de Clubes da FIFA de 2023, a Premier League de 2023/24, a Supertaça da Inglaterra de 2024 e, na temporada em curso, a Copa da Liga Inglesa de 2025/26. São conquistas que não aparecem no nome das ruas, mas aparecem no palmares — e palmares, no futebol de elite, é o único passaporte que importa.
O que diferencia Nunes de outros jogadores que transitam pela zona intermediária do campo é a capacidade de aparecer em momentos de transição sem ser apenas um nome no relatório técnico. Cinco assistências em 34 jogos, numa posição de construção, falam de alguém que entende onde a bola precisa chegar antes que o atacante perceba que precisa dela.
A trajetória que aponta o teto
Nos próximos 12 meses, o cenário mais realista para Matheus Nunes é o de consolidação definitiva. Ele tem 27 anos — a idade em que jogadores de meio-campo costumam atingir o pico de leitura de jogo. Não é a explosão dos 22, não é a sabedoria dos 32. É o ponto de equilíbrio onde físico e inteligência tática se encontram no mesmo momento.
O City, que atravessa uma temporada europeia exigente, precisará cada vez mais de jogadores que entreguem volume sem volatilidade. Nunes, com 183 cm e 78 kg, tem estrutura física para suportar calendários densos — e o histórico desta temporada, com 34 jogos disputados, sugere que ele já é parte inegociável da rotação de Guardiola.
A dúvida não é se ele vai crescer. A dúvida é se o mercado vai parar de subestimá-lo. Porque enquanto os holofotes miram nos nomes que aparecem no placar, Matheus Nunes já está três jogadas à frente, montando o próximo capítulo.
O City não ganhou títulos apesar de Nunes. Ganhou com ele.









