Trinta anos de idade, a camisa 10 nas costas e um contrato que transformou o Cruzeiro enquanto o clube saía da zona de rebaixamento. Tudo se explica daí.
Onde ele pode estar em 2027
Matheus Pereira chegará a 2027 com 31 anos e, se mantiver o ritmo atual, com um currículo doméstico sólido o suficiente para reabrir conversas que o mercado europeu fechou há alguns anos. Na temporada atual pelo Cruzeiro, são 34 jogos, 6 gols e 7 assistências — números que o colocam entre os meias mais produtivos do Brasileirão Série A em 2026. Projetando esse ritmo, um Matheus Pereira que encerre a temporada com duplo dígito de participações diretas em gols seria um candidato natural a prêmios individuais e, dependendo da campanha da Raposa, uma peça valiosa demais para ser ignorada por clubes sul-americanos de maior porte. O cenário mais realista não é o de transferência, mas o de consolidação: um meia de 31 anos que domina o sistema, comanda a saída de bola e distribui jogo numa equipe que ainda busca identidade definitiva no campeonato nacional.
O que precisa acontecer até lá
A conta é simples na teoria, difícil na prática. Para que Matheus Pereira feche 2026 como referência incontestável da posição no Brasil, o Cruzeiro precisa deixar de oscilar — e ele precisa deixar de ser apenas o termômetro do time. A vitória sobre o Grêmio em abril de 2026, que tirou a Raposa da zona de rebaixamento, ilustra bem o problema: quando o time ganha, Matheus aparece; quando o time tropeça, a ausência de um segundo criador pesa. Seria injusto chamar de era — mas é uma era em escala doméstica — a dependência que o Cruzeiro construiu em torno do seu camisa 10 nesta temporada. Os 2.823 minutos jogados (dado da temporada atual) revelam um jogador que não é poupado, o que é um voto de confiança da comissão técnica, mas também um sinal de alerta para o segundo semestre do campeonato. Manter a média de participações em gols e reduzir os sete cartões amarelos acumulados são as duas variáveis mais concretas a monitorar.
O que já aconteceu na trajetória
Nascido em Belo Horizonte em 5 de maio de 1996, Matheus Fellipe Costa Pereira construiu uma carreira que passou por latitudes muito distintas antes de voltar ao Brasil. O passo mais audacioso foi a Premier League inglesa, pelo West Brom — experiência que poucos meias brasileiros acumulam. Depois vieram os anos na Arábia Saudita, onde pelo Al-Hilal conquistou a Supercopa Saudita em 2021, a Liga dos Campeões da AFC no mesmo ano e o Campeonato Saudita na temporada 2021-22. O ciclo no Oriente Médio incluiu ainda passagem pelo Al Wahda FC, nos Emirados Árabes. O retorno ao Brasil, pelo Cruzeiro, começou de forma discreta: em 2023, foram 15 jogos e apenas 1 gol e 1 assistência na Série A — números que não justificavam o currículo europeu e árabe. A virada chegou em 2024, quando o meia somou participações relevantes na Série A (5 gols e 7 assistências em 13 jogos) e na Copa Sul-Americana (2 gols e 2 assistências em 6 jogos), além de ter contribuído para o título do Campeonato Mineiro de 2026. O SportNavo mapeou essa curva de desempenho como um dos casos mais claros de readaptação tardia bem-sucedida no futebol nacional recente — um jogador que precisou de quase um ano inteiro para reaprender o ritmo do Brasileirão após anos fora do país.
Os obstáculos no caminho
O perfil de Matheus Pereira tem uma contradição embutida: ele é um meia de 175 cm e 80 kg com histórico em ligas fisicamente exigentes, mas que acumula cartões com uma frequência que sugere dificuldade de adaptação ao ritmo de arbitragem do futebol brasileiro. Sete cartões amarelos em 34 jogos na temporada atual representam uma média que, projetada para o segundo turno, coloca em risco a continuidade em partidas decisivas. Há também a questão da idade — 30 anos é um ponto de inflexão para meias que dependem de mobilidade e chegada à área. Nos próximos doze meses, a pergunta não é se Matheus Pereira ainda tem qualidade (os números respondem que sim), mas se o Cruzeiro conseguirá construir ao redor dele um elenco que distribua a responsabilidade criativa. Um camisa 10 que carrega sozinho a produção ofensiva tende a chegar ao fim de temporadas longas com o tanque vazio — e o Brasileirão de 38 rodadas não perdoa quem desacelera em outubro.
É o mesmo cenário que o Cruzeiro viveu em 2023, quando dependia de um único criador para sair do sufoco na tabela — só que agora a aposta é diferente: o jogador já provou que sabe entregar, e o clube já sabe que não pode desperdiçar o que tem.












