18 de outubro de 2024. Matheuzinho completava 27 anos — e o Matheuzinho que soprou as velas era um jogador diferente daquele que havia chegado ao Vitória vindo da Série B: mais rodado, com a camisa 10 nas costas e uma temporada de 33 jogos na Série A já encerrada com 5 gols e 5 assistências. A data funciona como divisor de águas numa carreira que percorreu o futebol brasileiro de baixo para cima, categoria por categoria, divisão por divisão.
Onde ele pode estar em 2027
Na temporada atual do Brasileirão Série A, Matheuzinho soma 33 jogos, 5 gols e 6 assistências — números que, para um meia de 28 anos que carrega a camisa 10, indicam um jogador em plena maturidade produtiva. Se mantiver esse ritmo até o fim do campeonato, ele terá entregado dois dígitos em participações diretas em gols pela segunda temporada consecutiva na elite. Para um atleta de 165 cm e 59 kg, isso representa uma eficiência técnica que vai além da estrutura física: é posicionamento, leitura de jogo e capacidade de criar em espaços reduzidos.
O cenário mais realista para 2027 é de consolidação no Vitória como referência técnica do meio-campo — e, eventualmente, de interesse de clubes da Série A com orçamentos maiores. A camisa 10 num clube nordestino que disputa a elite não é enfeite: é responsabilidade de criação em cada partida. Quem a carrega com consistência estatística tende a aparecer no radar do mercado.
O que precisa acontecer até lá
Para que a trajetória de Matheuzinho siga em ascensão, o ponto central é a regularidade. Num campeonato de pontos corridos com 38 rodadas, 33 jogos já demonstram que o treinador conta com ele — mas os 5 gols precisam crescer. Meias com a camisa 10 na Série A são avaliados por participações em gols por 90 minutos, e a margem entre ser um bom jogador e ser um jogador decisivo passa exatamente por esse número.
Há também a questão da Copa do Nordeste e do Campeonato Baiano, competições que o Vitória disputa e que demandam rotação. Em 2024, Matheuzinho acumulou 12 jogos pelo Baiano e 6 pela Copa do Nordeste além dos 33 da Série A — um volume que exige gestão física cuidadosa para um atleta de biotipo leve. O risco do desgaste acumulado é real e precisa ser administrado pelo clube.
O que já aconteceu na trajetória
Matheus Martins Fogaça de Paula nasceu em Capivari de Baixo, cidade de pouco mais de 30 mil habitantes no litoral sul de Santa Catarina — um detalhe geográfico que já diz algo sobre a trajetória não-linear que o levaria a Salvador. Sua carreira profissional passou pelo Ypiranga-RS, pelo Caxias e pelo Vitória, percorrendo um caminho que começou nas divisões inferiores e subiu gradualmente.
Em 2022, no Caxias, Matheuzinho disputou 11 jogos no Gaúcho e 17 na Série D, marcando 3 gols na quarta divisão nacional. É o tipo de passagem que raramente aparece nos currículos dos jogadores que chegam à elite, mas que forma a base técnica e psicológica de quem vai durar. A Série D exige adaptação a campos ruins, viagens longas e pressão de resultado com estrutura mínima — condições que funcionam como filtro.
Em 2023, dividiu a temporada entre Ypiranga-RS e Vitória. Pelo clube gaúcho, somou 31 jogos no Gaúcho com 2 gols e 2 assistências. Pelo Vitória, foram 31 jogos na Série B com 2 gols e 2 assistências — números modestos, mas suficientes para convencer o clube baiano a mantê-lo para a Série A de 2024. Ali começou o salto real: 33 jogos na elite, 5 gols e 5 assistências, com participação direta em 10 gols numa temporada só.
Há algo de Moneyball nessa lógica — a ideia de encontrar valor onde o mercado não olha. Matheuzinho não veio de base de clube grande, não tem histórico de convocações para seleções de base e chegou à Série A pela porta dos fundos da Série D. Mas os números falam uma língua que qualquer analista entende.
Os obstáculos no caminho
O perfil físico de Matheuzinho — 165 cm, 59 kg — é o primeiro ponto de resistência que ele enfrenta em qualquer análise de mercado. No futebol brasileiro, meias de biotipo reduzido precisam compensar com técnica e inteligência posicional acima da média para não serem descartados em duelos físicos. A Série A de 2026 tem um padrão físico elevado, e cada partida representa um teste de resistência para quem não tem massa corporal como aliada.
O segundo obstáculo é estrutural: o Vitória, como clube do Nordeste, opera com orçamento menor do que os grandes centros. Isso significa que, se Matheuzinho continuar evoluindo, a pressão por uma saída vai aumentar — e a capacidade do clube de retê-lo vai diminuir. O risco de perder o jogador no momento em que ele atinge seu pico de rendimento é uma equação que o Vitória já conhece bem.
Por fim, há o peso simbólico da camisa 10. No futebol brasileiro, o número carrega expectativa de genialidade em cada lance — e o julgamento sobre quem a veste é sempre mais severo do que sobre qualquer outra camisa. Matheuzinho precisa conviver com isso em cada partida no Barradão e fora dele.
É o mesmo cenário que Marcelinho Paraíba viveu no final dos anos 1990 num clube nordestino — um meia técnico, de estatura baixa, carregando a camisa 10 com a pressão de justificá-la em cada jogo — só que agora a aposta é diferente.










