O banco de reservas tem memória longa. Para Matías Tagliamonte, essa memória começa em junho de 2017, quando ele ficou sentado num banco em Rafaela enquanto o Atlético enfrentava o Almagro pela Copa Argentina. Ele tinha 19 anos. Passariam mais dois anos antes de ele tocar em uma bola profissional de verdade.

O que ele ainda não resolveu

Tagliamonte, argentino de 28 anos, 1,95 m e 88 kg, defende o Racing Club no Brasileirão Série A com a camisa 30. O número já diz muito: não é a camisa 1, não é a camisa 12. É a camisa de quem espera.

A carreira do goleiro argentino é construída sobre um paradoxo incômodo. Ele tem tamanho, tem experiência de base sólida no Atlético de Rafaela, tem um título real — o Trofeo de Campeones de la Liga Profesional de 2022 com o Racing Club — e até um histórico de convocação para categorias de base da seleção argentina, em 2015. Mas em nenhum momento de sua trajetória ele assumiu de vez a titularidade de um grande clube.

Na temporada atual de 2026, os números refletem esse impasse com precisão cirúrgica: 1 jogo disputado, sem gols sofridos registrados, sem qualquer assistência. Uma aparição. Uma janela aberta por um instante e logo fechada.

Onde está hoje em relação a esse buraco

A história com o Racing tem uma lógica que merece ser contada sem romantismo. Em fevereiro de 2021, Tagliamonte chegou ao clube argentino por empréstimo do Atlético de Rafaela — com opção de compra — depois de 16 meses praticamente parado, em parte por uma lesão no ombro. Sua estreia pelo Racing, em 17 de março de 2021, só aconteceu porque os dois goleiros titulares, Gabriel Arias e Gastón Gómez, testaram positivo para COVID-19. A porta se abriu por ausência alheia, não por mérito próprio — ao menos não naquele momento.

O clube exerceu a opção de compra ao fim do empréstimo. Isso significa que o Racing enxergou valor em Tagliamonte. Mas qual valor, exatamente?

O problema está na hierarquia. Desde que chegou ao Racing, ele jamais foi o goleiro número um. Ficou na fila atrás de nomes estabelecidos, funcionando como seguro contra eventualidades — lesões, convocações, suspensões. No futebol argentino, essa posição tem nome técnico: goleiro de terceiro nível. No futebol brasileiro, como diz o ditado, quem não tem cão caça com gato — e Tagliamonte tem sido o gato em mais de uma ocasião.

Aos 28 anos, ele está em um momento decisivo. Não é mais jovem o suficiente para ser tratado como promessa. Ainda não é velho o suficiente para ser tratado como referência. É o intervalo mais perigoso de uma carreira de goleiro.

O que ele ainda não resolveu Matías Tagliamonte e o buraco que sete a
O que ele ainda não resolveu Matías Tagliamonte e o buraco que sete a

O caminho técnico para tapá-lo

Será que Tagliamonte tem o perfil técnico para competir de igual para igual pela titularidade no nível em que está inserido?

Os dados disponíveis não permitem uma análise estatística aprofundada desta temporada — um jogo é uma amostra insuficiente para qualquer conclusão sobre defesas por jogo, saídas aéreas ou aproveitamento em cobranças de pênalti. O que os dados biográficos mostram é um atleta com 1,95 m, peso de 88 kg e formação técnica em um clube argentino de tradição nas categorias de base, o Atlético de Rafaela.

A questão física não é o problema. Goleiros com esse porte físico têm vantagens claras em bolas aéreas e no duelo um contra um. O gap que Tagliamonte precisa fechar é de consistência de jogo. Goleiros que ficam meses sem atuar em partidas oficiais — como aconteceu durante os 16 meses de inatividade no Atlético de Rafaela antes do empréstimo ao Racing — perdem ritmo de competição. E ritmo de competição, para um goleiro, não se recupera em treinos.

Para fechar esse buraco, o caminho passa por minutos em campo. Não importa o nível da competição — Copa do Brasil, jogos de menor prestígio no campeonato, qualquer oportunidade de atuar em situação de pressão real. A alternativa seria uma saída temporária por empréstimo para um clube em que ele fosse titular indiscutível. Nenhuma das duas opções está confirmada nas informações disponíveis até o momento, conforme publicado em matéria do SportNavo.

O que isso destrava na carreira

Se Tagliamonte conseguir acumular sequência de jogos, o cenário muda de figura. Aos 28 anos, goleiros ainda estão bem abaixo do pico típico da posição — que costuma ocorrer entre 30 e 35 anos. Ele tem tempo. Mas esse tempo não é ilimitado.

O Trofeo de Campeones de la Liga Profesional de 2022 no currículo é um ativo real. Clubes de médio porte na América do Sul ou na própria Série A brasileira reconhecem esse tipo de passagem. Um goleiro que participou de um elenco campeão no futebol argentino tem mercado — desde que demonstre que ainda consegue jogar.

Onde está hoje em relação a esse buraco Matías Tagliamonte e o buraco que sete a
Onde está hoje em relação a esse buraco Matías Tagliamonte e o buraco que sete a

O histórico de convocação para a seleção argentina de base, em 2015, indica que houve um momento em que ele foi considerado um dos melhores goleiros de sua geração no país. Esse capital simbólico ainda existe, mas deprecia a cada temporada em que ele soma uma única aparição.

O desfecho mais provável nos próximos 12 meses tem dois cenários realistas. No primeiro, Tagliamonte permanece no Racing como terceira opção, mantém o contrato e usa a estabilidade financeira para se preparar para um movimento em 2027, quando estará com 29 anos — ainda dentro da janela produtiva de um goleiro. No segundo, algum clube da Série A ou da Série B brasileira o aciona por empréstimo em busca de um substituto experiente, e ele finalmente tem a sequência de jogos que a carreira exige para dar o salto definitivo.

Sete anos de profissionalismo, um título argentino e uma lesão no ombro no meio do caminho. A conta está aberta. Tagliamonte ainda tem crédito para pagá-la.