Confesso: eu errei sobre Max Aarons em 2024. Quando soube do empréstimo ao Valencia e depois ao Rangers, pensei que era o tipo de trajetória que termina em silêncio — aquele jogador que some nas dobras do calendário europeu sem deixar marca. Hoje, com 36 jogos na temporada 2025/2026 da Premier League, vejo o porquê de ter errado.
O dado que ninguém olha mas explica tudo
Trinta e seis jogos. Não é um número glamouroso. Não vem acompanhado de gols ou de assistências espetaculares — apenas uma assistência na temporada inteira. Mas para um zagueiro de 26 anos que passou por empréstimos ao Valencia em janeiro de 2025 e ao Rangers em junho do mesmo ano, estar em campo em 36 oportunidades pelo AFC Bournemouth é uma declaração de sobrevivência e de confiança técnica.
No futebol, disponibilidade é uma estatística subestimada. Treinadores não escalam jogadores em que não confiam. E o Bournemouth, clube que opera com elenco enxuto e pressão constante para se manter na elite inglesa, não tem margem para caridade.
Como ele chega a esse número
A história começa em 2016, quando Aarons ingressou na base do Norwich City aos 16 anos. Dois anos depois, assinou seu primeiro contrato profissional. O que veio em seguida foi uma ascensão rápida demais para um jovem ainda em formação — e o futebol inglês cobra caro por isso.
Pelo Norwich, Aarons conquistou a EFL Championship em 2018-19 e novamente em 2020-21, garantindo o acesso à Premier League nas duas ocasiões. Foi eleito Jovem Jogador do Ano da EFL na primeira dessas campanhas e integrou o PFA Team of the Year nas duas. Eram sinais claros de um talento em ascensão.
O problema é que a Premier League rebaixou o Norwich em 2020 e novamente em 2022. Aarons subiu e desceu duas vezes com o clube — e essa montanha-russa deixa marcas em qualquer jogador. Em agosto de 2023, após cinco anos em Norfolk, a transferência para o Bournemouth representou uma ruptura necessária.
Os empréstimos ao Valencia e ao Rangers, em 2025, não foram fracassos — foram laboratórios. Diferentes culturas táticas, ritmos distintos, pressões variadas. Um zagueiro de 177 cm e 69 kg que se adapta a La Liga e à Scottish Premiership em sequência não é frágil. É versátil.
Os outros números que falam o mesmo idioma
Uma assistência em 36 jogos pode parecer pouco. Para um zagueiro, é uma contribuição ofensiva acima da média esperada para a posição — especialmente em um time que não pede que seus defensores sejam protagonistas na construção.
O que os números não mostram, mas o contexto revela, é a consistência de presença. Aarons nasceu em 4 de janeiro de 2000 e completou 26 anos nesta temporada. Está na janela de maturidade defensiva — idade em que um zagueiro começa a transformar experiência em leitura de jogo. Os dois títulos da Championship, as passagens por três países diferentes em menos de três anos, e agora a estabilidade no Bournemouth formam um currículo que fala mais do que qualquer planilha de dados.
Nas categorias de base da Inglaterra, Aarons estreou pela seleção sub-19 em setembro de 2018 e pela sub-21 em setembro de 2019, contra a Turquia. Participou do Campeonato Europeu Sub-21 de 2021, mesmo com a eliminação na fase de grupos. A cogitação de representar a Jamaica — país de origem familiar — nunca se concretizou, e ele permanece como produto das categorias inglesas.
O risco de confiar só nesse dado
Trinta e seis jogos provam presença, não grandeza. E aqui está a tensão real em torno de Max Aarons: ele é uma parede de ferro em termos de disponibilidade, mas ainda não provou que pode ser decisivo nos momentos em que o Bournemouth mais precisa.
Seu primo Rolando Aarons também trilhou o futebol inglês sem nunca consolidar uma carreira de alto nível. A comparação é injusta — cada trajetória é única — mas o futebol não é justo, e o mercado vai fazê-la de qualquer forma.
Nos próximos 12 meses, o cenário mais realista para Aarons é de continuidade no Bournemouth, com a missão de transformar regularidade em protagonismo. Um zagueiro de 26 anos com passagens por Championship, Premier League, La Liga e Scottish Premiership tem argumentos para pleitear um contrato mais longo ou uma transferência para um clube de médio porte europeu que precise de experiência e versatilidade.
O que ele não pode mais fazer é ser apenas o jogador que aparece nos 36 jogos e some da conversa. O futebol inglês tem boa memória para quem entrega e esquece rápido quem só aparece. Aarons está no ponto de inflexão — e a temporada 2026/2027 vai dizer se ele atravessa ou recua.













