Resistiu. Quando a Premier League começou a exigir mais do que bloqueios e desarmes de seus zagueiros, alguns resistiram à mudança. Maxim De Cuyper não é um deles — e essa distinção, aos 25 anos, define o que ele representa para o Brighton nesta temporada 2025/2026.

O número que define a temporada

Trinta jogos. Dois gols. Três assistências. Para um zagueiro de 182 cm que usa a camisa 29, esses números precisam ser lidos com o contexto certo. Na temporada atual, De Cuyper contribuiu diretamente para 5 gols — número superior ao total de participações ofensivas registradas por toda a linha defensiva de clubes de médio porte da Premier League neste ciclo. É um dado que não grita, mas que fala com precisão sobre o que o futebol contemporâneo passou a exigir da posição.

Para entender o peso desse dado, vale recorrer à história. Na temporada 1993/1994, quando o Arsenal de George Graham venceu a Copa da Liga inglesa com uma defesa que somou menos de 10 participações ofensivas no campeonato inteiro, o papel do zagueiro era essencialmente reativo. Três décadas depois, o Brighton de 2025/2026 pede ao seu defensor com camisa 29 que leia o jogo como um meia, ocupe espaços como um ala e finalize com a frieza de um atacante posicional. De Cuyper entrega exatamente isso.

O número que define a temporada Maxim De Cuyper e os 30 jogos que a Prem
O número que define a temporada Maxim De Cuyper e os 30 jogos que a Prem

Como ele chegou aqui

Nascido em 22 de dezembro de 2000, De Cuyper é produto de uma geração belga que cresceu sob a sombra de uma das seleções mais talentosas da história recente do país — a chamada "geração de ouro" que chegou ao terceiro lugar na Copa do Mundo de 2018. Mas De Cuyper pertence a uma camada posterior, a dos que precisaram construir espaço sem o holofote pronto.

Os dados detalhados sobre seus clubes anteriores não estão disponíveis nos registros desta reportagem, mas o que os números da temporada atual revelam é que ele chegou ao Brighton já em estágio avançado de maturidade tática. Não é o perfil do jovem que a Premier League ainda está formatando — é o de alguém que chegou com um modelo de jogo definido e passou a executá-lo com regularidade. Trinta jogos em uma temporada, para um zagueiro de 25 anos em um clube com as exigências táticas do Brighton, não é acidente. É consistência.

O paralelo histórico que me ocorre é o de Frank de Boer no Ajax dos anos 90 — um zagueiro que, antes de ser reconhecido como um dos melhores da Europa, passou temporadas sendo classificado como "bom, mas ainda em desenvolvimento". De Cuyper está nessa fase de transição: suficientemente presente para não ser ignorado, ainda não consolidado o suficiente para ter seu nome no topo das listas de mercado.

O que o faz diferente dos pares

O zagueiro moderno que apenas defende passou a ser, na linguagem do mercado europeu, um recurso em extinção. Desde que o Pep Guardiola do Barcelona 2008/2009 popularizou a ideia do defensor como primeiro construtor de jogo — com Gerard Piqué como modelo mais acabado —, a posição passou por uma reconfiguração que ainda está em curso. De Cuyper representa uma variante específica desse processo: não é o zagueiro-construtor no estilo Barça, mas o zagueiro que participa do jogo ofensivo sem abandonar a função primária.

Com 72 kg distribuídos em 182 cm, seu físico não é o de um zagueiro de área clássico — é o de um defensor que precisa ser rápido em coberturas, eficiente em saída de bola e capaz de aparecer na finalização sem comprometer o posicionamento defensivo. Os 2 gols e 3 assistências desta temporada indicam que essa equação está funcionando. Para comparação: na Bundesliga da temporada 2002/2003, Carsten Ramelow, o zagueiro do Bayer Leverkusen que chegou à final da Champions, registrou números ofensivos similares em um sistema que também exigia participação constante dos defensores na construção.

O Brighton, sob sua atual orientação técnica, opera com uma estrutura que demanda que seus zagueiros tomem decisões em menos de dois segundos em situações de pressão alta. Trinta jogos nesse sistema, com a regularidade que os números mostram, indicam que De Cuyper não está apenas sobrevivendo à demanda — está atendendo a ela.

Os limites a vencer

A trajetória de De Cuyper tem uma lacuna que os dados desta reportagem não conseguem preencher: não há registros de conquistas ou troféus disponíveis. Isso não é necessariamente um problema de carreira — há zagueiros que chegaram ao topo sem títulos precoces —, mas é um dado relevante para quem tenta projetar os próximos 12 meses.

Com 25 anos e uma temporada de contribuição consistente no Brighton, De Cuyper está na janela de tempo em que decisões de mercado costumam ser tomadas. O ciclo histórico mostra que zagueiros europeus atingem seu pico entre os 26 e os 30 anos — Fabio Cannavaro levantou a Copa do Mundo aos 32, mas já era considerado de elite desde os 27. De Cuyper está entrando nessa faixa com argumentos concretos: regularidade, participação ofensiva e adaptação a um dos sistemas táticos mais exigentes da Premier League.

O que falta, e que os próximos 12 meses podem definir, é a prova em competição de alto nível com pressão acumulada — seja em uma campanha europeia do Brighton, seja em uma convocação mais regular pela seleção belga. Sem esse tipo de exposição, o risco é permanecer no território do "bom zagueiro de Premier League" sem dar o salto para a categoria que o mercado remunera de forma diferente. O talento, os números desta temporada sugerem, está presente. O cenário, ainda, precisa ser construído.