37 jogos. Esse é o número que define a temporada de Noussair Mazraoui no Manchester United em 2025/2026 — e também o argumento mais direto contra qualquer narrativa que o coloque como peça descartável num elenco em reconstrução. Num clube que já foi sinônimo de estabilidade defensiva sob Ferguson e que hoje busca reencontrar identidade, o lateral marroquino-holandês aparece como um dos poucos nomes que dispensam debate sobre titularidade.

Onde ele está no jogo global

Para entender o valor de Mazraoui, é preciso recuar um pouco e lembrar o que a Premier League exige de um lateral moderno. Desde os anos 2000, quando Roberto Carlos e Cafu redefiniam o papel da posição no futebol mundial, o lateral deixou de ser um defensor que atacava e passou a ser um atacante que defende. A Premier League, especialmente a partir da era Guardiola no City — com Clichy, Zabaleta, Walker e Cancelo sendo usados como peças de construção —, elevou ainda mais o padrão técnico exigido de quem veste aquela camisa lateral.

Mazraoui, 28 anos, nascido em 14 de novembro de 1997 em Alphen aan de Rijn, nos Países Baixos, é produto de uma escola que entende exatamente essa demanda: o Ajax de Amsterdã. Dez anos nas categorias de base do clube holandês — dez anos que quase não aconteceram, já que alguns treinadores chegaram a sugerir sua saída durante a formação. Ele ficou, mudou de posição (era meia) e construiu uma carreira que o levou do Jong Ajax, onde estreou profissionalmente em 12 de agosto de 2016 contra o Almere City, até Old Trafford.

O que os números dizem na comparação

Uma análise do SportNavo sobre laterais-direitos na Premier League nesta temporada revela um padrão: os mais valorizados combinam volume de participação com consistência defensiva, não com estatísticas ofensivas explosivas. Mazraoui registra 1 assistência em 37 jogos em 2025/2026 — um número modesto em termos de criação direta, mas que precisa ser lido no contexto do sistema tático do United, que não necessariamente libera o lateral para ser o principal criador pela direita.

Quando se compara com pares históricos na mesma posição, o perfil de Mazraoui lembra mais Gary Neville do que Dani Alves — e isso não é demérito. Neville, camisa 2 do United por quase duas décadas, nunca foi o lateral mais técnico da Europa, mas era o mais presente, o mais confiável, o que aparecia nos 37, 38 jogos de temporada sem falhar. O marroquino, com 183 cm e apenas 63 kg — um peso que surpreende para a robustez que demonstra em campo —, tem na leitura tática e na inteligência posicional seus principais ativos, não na explosão física.

Quando faz a cobertura defensiva, Mazraoui raramente está fora do lugar. Quando projeta pelo corredor direito, ele escolhe o momento com parcimônia — característica que o diferencia dos laterais mais instintivos e que reduz os riscos de contra-ataque.

Onde ele se distingue dos rivais

Há um dado biográfico que raramente aparece nas análises táticas de Mazraoui e que, na minha leitura, é central para entender quem ele é: a Copa do Mundo de 2022. Marrocos chegou às semifinais no Catar — algo que nenhuma seleção africana havia feito antes — e terminou em quarto lugar. Mazraoui estava naquele elenco. O Rei Maomé VI o condecorou com a Medalha Ouissam Al Arch após o torneio. Não é detalhe protocolar: é o reconhecimento de que aquele grupo de jogadores carregou um peso simbólico enorme, representando não apenas um país, mas um continente.

Esse contexto importa porque forma o caráter competitivo do jogador. Laterais que passaram por Copas do Mundo como protagonistas — e Mazraoui era titular naquele Mundial — carregam uma maturidade de pressão que não se ensina em academia. Quando o United enfrenta partidas de alta tensão na Premier League, esse repertório emocional é ativo intangível.

Quando faz a transição da fase defensiva para a ofensiva, Mazraoui demonstra algo que o Ajax ensina melhor do que qualquer outro clube europeu: a capacidade de ler o espaço antes de a bola chegar. É o legado de Cruyff, é o DNA do futebol total que ainda pulsa em Amsterdã mesmo décadas depois dos anos 70. Jogadores formados lá chegam ao futebol de elite com uma linguagem tática que os distingue dos formados em academias mais físicas.

Depois do Ajax, veio o Bayern de Munique — um segundo degrau que testou sua adaptação a um futebol mais vertical e de maior pressão institucional. A passagem pelo clube bávaro foi o filtro que separou o talento da consistência. Chegou ao United como jogador testado em dois dos maiores contextos do futebol europeu.

A trajetória que aponta o teto

Um levantamento do SportNavo sobre laterais que migraram do futebol holandês para a Premier League mostra que o período de adaptação costuma ser longo — e frequentemente subestimado pela imprensa inglesa, que cobra resultados imediatos. Mazraoui, aos 28 anos, está no ponto de maturidade ideal para um defensor: experiente o suficiente para não ser surpreendido por situações novas, jovem o suficiente para ter três ou quatro temporadas de alto rendimento pela frente.

O United de 2026 é um projeto que ainda busca seu rosto definitivo. Nesse cenário de transição, jogadores como Mazraoui — com currículo sólido, presença quase absoluta (37 jogos numa temporada de reconstrução não é pouca coisa) e perfil de liderança silenciosa — tendem a ganhar protagonismo crescente. Não o protagonismo do goleador ou do criador de jogadas espetaculares, mas o do jogador que organiza, que está lá, que o técnico não precisa monitorar.

Há um paralelo histórico que me ocorre sempre que analiso perfis assim: Paolo Maldini nunca foi o lateral mais veloz ou o mais goleador. Era o mais presente, o mais inteligente, o que entendia o jogo antes que o jogo acontecesse. Comparar Mazraoui a Maldini seria exagero — e eu não faço isso. Mas o arquétipo, a ideia do lateral que vale pelo que impede e pelo que organiza, é o mesmo.

Mazraoui não precisa de gols para justificar sua camisa 3 no United. Ele precisa de mais 37 jogos.