Diz-se que o Real Madrid tem o melhor elenco do mundo e que, com isso, qualquer crise interna se resolve sozinha. Os números desta temporada 2025/26 contestam essa premissa com precisão cirúrgica — e o episódio de 24 de abril em Valdebebas é o exemplo mais recente.

Naquela data, às vésperas do confronto contra o Real Betis pela La Liga, Kylian Mbappé entrou em discussão com um integrante da comissão técnica de Álvaro Arbeloa durante o treino. O motivo foi a marcação de um impedimento que paralisou um ataque do francês. Segundo apuração do The Athletic, o camisa 10 "falou de maneira irritada e com termos considerados ofensivos em direção a um membro da equipe". O episódio foi descrito internamente como uma "discussão acalorada" — eufemismo que, no contexto atual do clube, pesa muito mais do que parece.

O que os dados de Mbappé no Real Madrid ainda não conseguem justificar

Para entender a dimensão da crise, convém olhar além dos gols marcados. Em termos de xG (expected goals) — métrica que mede a qualidade das chances criadas com base na posição e no tipo de finalização —, Mbappé tem números abaixo do esperado para um jogador de seu calibre na temporada 2025/26. O problema não é só a conversão: é o posicionamento no pass network merengue, que mostra o francês cada vez mais isolado das linhas de passe centrais de Bellingham e Valverde.

Para comparar: quando Ronaldo Fenômeno chegou ao Real Madrid em 2002, o clube também precisou reorganizar seu sistema ofensivo para acomodar uma estrela de perfil dominante. Naquele ano, o brasileiro marcou 23 gols em 39 jogos e o time conquistou La Liga. A diferença é que Ronaldo, mesmo em um elenco de Galáticos, nunca gerou um PPDA (passes permitidos por ação defensiva) tão desequilibrado quanto o bloco atual — um indicador de que o Madrid de 2025/26 pressiona menos coletivamente quando Mbappé está em campo, porque o francês raramente participa das ações defensivas no terço inicial.

Os progressive passes — passes que avançam o jogo ao menos 10 metros em direção ao gol adversário — de Mbappé nesta temporada também estão abaixo da média de Vini Jr. e Rodrygo nos mesmos critérios posicionais. Isso indica que o atacante está sendo mais finalizador do que construtor, o que sobrecarrega o meio-campo e isola os pontas.

A viagem à Itália e o racha silencioso no vestiário merengue

Se a briga no treino foi o estopim público, o racha silencioso começou antes. Fotos de Mbappé passeando com a namorada na Itália enquanto estava fora de ação por lesão circularam amplamente e, segundo apuração do 90min, "não foram bem recebidas pelo elenco merengue". O entendimento interno era claro: num momento de forte cobrança da torcida e com o clube ameaçado de fechar a segunda temporada consecutiva sem títulos, a exposição pública do francês foi lida como descaso.

O episódio de Mbappé não foi o único foco de tensão. A Rádio Onda Cero apurou que o zagueiro Antonio Rüdiger agrediu o lateral-esquerdo Álvaro Carreras em um treinamento, dias após a eliminação do Real Madrid para o Bayern de Munique na Champions League. Carreras veio a público nas redes sociais nesta quarta-feira, 6 de maio, tratando o caso como "superado" — mas a repercussão já havia extrapolado os muros de Valdebebas.

Rüdiger, aliás, carrega um histórico que amplifica qualquer novo incidente: um vídeo antigo do alemão dando um tapa na cara de um funcionário do clube foi resgatado pelos torcedores merengues nas últimas semanas, tornando sua figura ainda mais controversa num momento de fragilidade coletiva.

A petição contra Mbappé, que já ultrapassa milhões de assinaturas segundo os veículos que acompanham o caso, é o termômetro mais visível da insatisfação. Arbeloa, por sua vez, já havia declarado publicamente sua insatisfação com a falta de comprometimento do elenco — declaração que, lida agora, parece ter sido um aviso que ninguém quis ouvir.

O que tudo isso significa para Mbappé e a França na Copa do Mundo 2026

A Copa do Mundo de 2026 começa em junho, nos Estados Unidos, Canadá e México. A França chega como uma das favoritas, mas Mbappé — capitão e principal referência ofensiva da Les Bleus — chegará ao torneio carregando o peso de uma temporada marcada por conflitos internos, lesões e ausência de títulos pelo Real Madrid.

O que os dados de Mbappé no Real Madrid ainda não conseguem justificar Mbappé di
O que os dados de Mbappé no Real Madrid ainda não conseguem justificar Mbappé di

Do ponto de vista das métricas, o que mais preocupa para o contexto da seleção francesa é o dado de xA (expected assists) — métrica que mede a qualidade das chances criadas para os companheiros. Um atacante em crise de confiança e com relações desgastadas no clube tende a centralizar mais o jogo, reduzindo seu xA e prejudicando a fluidez coletiva. Na Copa de 2022, quando a França chegou à final, Mbappé tinha um xA acima de 0,25 por 90 minutos na fase de grupos. Manter esse nível após uma temporada de tensões constantes é um desafio real.

Técnicos e analistas que acompanham o futebol francês já apontam que Didier Deschamps precisará gerenciar com cuidado o estado emocional de Mbappé durante a preparação para o Mundial. O risco não é técnico — é comportamental. Um jogador que discute com assistentes técnicos em treinos de clube pode carregar esse padrão para o ambiente da seleção, especialmente sob pressão.

O Real Madrid ainda tem compromissos pela La Liga até o final de maio, e Mbappé deve retornar aos gramados nas próximas semanas após se recuperar da lesão. A janela até a convocação oficial da França para a Copa do Mundo 2026 é curta — e cada treino em Valdebebas, a partir de agora, será observado com uma lupa que o francês claramente ainda não aprendeu a ignorar.

Uma receita que leva ingredientes de qualidade mas é preparada sem temperatura controlada nunca sai como prometida na embalagem — e o Real Madrid de 2025/26 está descobrindo isso da pior maneira possível, a poucos meses do torneio mais importante do planeta.