A última vez que o Real Madrid entrou em um El Clásico decisivo sem seu principal atacante disponível foi na temporada 2003/04, quando Ronaldo Nazário ficou fora de uma edição do confronto por lesão muscular — e o time de Queiroz pagou caro, saindo derrotado do Camp Nou. Mais de duas décadas depois, o roteiro se repete com uma diferença perturbadora: Kylian Mbappé não apenas está fora do jogo desta noite, como saiu do treino desta manhã em Valdebebas sem sequer avisar a comissão técnica.
Segundo informações do jornal espanhol Marca, o atacante francês sentiu desconforto nos isquiotibiais — grupo muscular na parte posterior da coxa — durante a sessão preparatória para o clássico e deixou o gramado cinco minutos antes do término do treino, dirigindo-se diretamente ao vestiário. A atitude surpreendeu os integrantes da equipe técnica comandada por Álvaro Arbeloa, que só soube da saída do jogador depois do fato consumado. O Real Madrid confirmou a ausência ao divulgar a lista de convocados para o Clásico desta noite sem o nome do camisa 9.
A segunda ruptura muscular de Mbappé em uma temporada já comprometida
Esta não é a primeira vez que os isquiotibiais tiram Mbappé de combate na temporada 2025/2026. O atacante já havia sofrido uma lesão muscular anteriormente, perdendo partidas importantes no calendário merengue. Trata-se, portanto, de uma recorrência — o tipo de sinal que médicos esportivos tratam com atenção redobrada, especialmente quando o atleta em questão tem 26 anos e um histórico de ausências que se acumula desde sua chegada ao clube.
Dois episódios musculares na mesma temporada em um mesmo grupo muscular não são coincidência.
Desde que assinou com o Real Madrid no verão europeu de 2024, Mbappé acumula passagens pelo departamento médico que contrastam com a imagem de atleta explosivo e quase inquebrável que construiu no Paris Saint-Germain. Na temporada de estreia, lesões e polêmicas extraesportivas dividiram as manchetes. Em 2025/2026, a sequência de problemas físicos ganhou um ingrediente novo: a forma como o jogador conduziu a saída do treino desta manhã, sem comunicar ninguém, acrescentou uma camada de ruído institucional a um momento já delicado.
O que está em jogo no Clásico desta noite
O Barcelona chega ao confronto desta noite com vantagem na tabela de La Liga e a possibilidade concreta de selar o título espanhol diante do rival histórico. Um resultado positivo para o time catalão no Clásico pode encerrar matematicamente a disputa, dependendo da margem de pontos que separa as equipes na classificação. Para o Real Madrid, portanto, a partida tem caráter de final — e disputá-la sem Mbappé amplia de forma significativa a pressão sobre Vinicius Jr., Rodrygo e os demais atacantes do elenco.
A avaliação do SportNavo é que a ausência do francês não é apenas uma baixa tática: é um teste de resiliência para um grupo que, segundo diversas reportagens da imprensa espanhola, já convive com tensões internas ao longo desta temporada. Arbeloa, cujo futuro no clube é incerto diante dos rumores que apontam José Mourinho como candidato ao cargo para a próxima temporada, precisará reorganizar o ataque em menos de horas.
"Não tive qualquer contato com o presidente [Florentino Pérez] ou outros elementos do clube", declarou Mourinho recentemente, em resposta às especulações sobre uma possível chegada ao Real Madrid — o que, paradoxalmente, manteve o assunto vivo nas redações europeias.
O padrão que preocupa mais do que a lesão em si
Analisando os registros desta temporada, o que chama atenção não é apenas a frequência das lesões musculares de Mbappé, mas o padrão de comportamento associado a elas. Em ao menos duas ocasiões, o atacante esteve em dúvida para jogos importantes e acabou confirmando sua ausência de forma abrupta — gerando incerteza para a comissão técnica e para os companheiros que precisam se reorganizar taticamente em cima da hora.
Jogadores que lideram vestiários de alto nível — Zidane, Ronaldo, Benzema — raramente geraram esse tipo de ruído operacional, independentemente das lesões que sofreram. A diferença entre uma baixa esperada e uma surpresa de última hora pode parecer pequena, mas no ambiente de alta performance do futebol de elite, ela afeta o planejamento de jogo, a confiança do grupo e a percepção pública do clube.
"Mbappé abandonou o relvado e dirigiu-se para o interior do balneário cinco minutos antes da sessão terminar", relatou o Marca, descrevendo a cena que pegou a comissão técnica de surpresa em Valdebebas nesta manhã.
A reta final da temporada e o peso do que vem a seguir
Com o título espanhol potencialmente decidido nesta rodada, o Real Madrid entra na fase mais crítica do calendário europeu em situação de fragilidade. A Champions League 2025/2026 ainda reserva compromissos de alto nível, e a Copa do Rei também permanece no horizonte. Cada semana perdida por Mbappé em recuperação é uma semana a menos para o atacante encontrar ritmo, entrosamento e a forma física necessária para ser determinante nas fases decisivas.
O histórico comparativo reforça a gravidade do momento. Quando Ronaldo Nazário sofreu sua primeira lesão muscular séria no Real Madrid, em 2002, o clube levou mais de um semestre para entender o impacto real da recorrência no rendimento do atacante. Com Mbappé, o ciclo parece se comprimir: dois episódios musculares em uma única temporada, com o segundo ocorrendo justamente na véspera do jogo mais importante do calendário doméstico.

O Clásico está marcado para esta noite no Santiago Bernabéu. Se o Barcelona confirmar o título em casa do rival, o Real Madrid encerrará a rodada com a obrigação de vencer todos os jogos restantes de La Liga apenas para salvar a honra — e com Mbappé correndo contra o tempo para estar disponível nos compromissos europeus das próximas semanas.
No vestiário de Valdebebas, os jogadores que ficaram nos últimos cinco minutos do treino desta manhã terminaram a sessão sem saber exatamente o que havia acontecido com o número 9. Essa imagem resume bem a temporada.








