Confesso: eu errei sobre John McGinn em 2024. Quando o escocês acumulava semanas de ausência por lesão e o Aston Villa ensaiava uma reconfiguração de meio-campo sem ele, escrevi numa análise que Unai Emery teria de reinventar o esquema para a reta final da temporada europeia — que McGinn, aos 30 anos, talvez não voltasse a ser o mesmo. Nesta quinta-feira (7), no Villa Park, o meia me deu a resposta mais eloquente possível: dois gols em três minutos, uma goleada por 4 a 0 sobre o Nottingham Forest e uma vaga na final da UEFA Europa League que o Aston Villa não alcançava há 44 anos.

A noite que o Villa Park não via desde 1982

A última vez que o Aston Villa disputou uma final europeia foi em maio de 1982, quando ergueu a Copa dos Campeões — atual Champions League — com uma vitória por 1 a 0 sobre o Bayern de Munique. Quem acompanhava o futebol inglês naquela época sabe que o Villa era um clube de outra escala: campeão inglês em 1981, europeu em 1982, e ainda campeão da Supercopa Europeia em 1983, batendo o Barcelona. Quatro décadas de espera depois, a equipe de Emery resgata esse DNA continental de uma forma que poucos esperavam quando a temporada 2025/2026 começou.

A noite que o Villa Park não via desde 1982 McGinn ressurge das cinzas e leva o
A noite que o Villa Park não via desde 1982 McGinn ressurge das cinzas e leva o

O contexto do confronto era de pressão máxima. Na ida, disputada no City Ground em 30 de abril, o Forest havia vencido por 1 a 0 com gol de Chris Wood de pênalti, aos 25 minutos do segundo tempo, após revisão do VAR por toque de braço de Digne. O Villa precisava reverter a desvantagem no agregado — dois gols de diferença para avançar no tempo regulamentar. Parecia tarefa difícil diante de um Forest embalado, que havia vencido o Chelsea na Premier League dias antes sob o comando de Vítor Pereira.

O roteiro do jogo de volta, porém, foi de dominância absoluta. Aos 35 minutos do primeiro tempo, Emiliano Buendía costurou dois marcadores pela esquerda e rolou rasteiro para Ollie Watkins empurrar na pequena área — o mesmo Watkins que havia chegado à marca de 100 gols pelo Villa na fase anterior, contra o Bologna, tornando-se o primeiro jogador do clube a atingir dois dígitos em competições europeias. O placar agregado estava empatado, e o Villa Park, ensurdecedor.

McGinn antes e depois da lesão que quase o apagou do mapa

Para entender o que McGinn fez nesta quinta-feira, é preciso recuar alguns meses. O escocês ficou afastado por várias semanas após uma lesão que tirou do Emery uma de suas peças mais importantes no equilíbrio entre marcação e criação — aquele tipo de meia que os italianos chamam de mezzala de corte inglês: corre, pressiona, aparece na área e ainda tem leitura tática acima da média. Sem ele, o Villa perdeu consistência no meio-campo em momentos decisivos da Premier League.

A recuperação foi gradual, e havia dúvida real sobre o nível que ele retornaria. Não é incomum no futebol europeu que jogadores acima dos 30 anos, após lesões musculares prolongadas, percam aquela fração de segundo de explosão que faz toda a diferença. Lembro de casos análogos: o próprio Clarence Seedorf, que voltou de lesão no Milan em 2004 e levou quase meia temporada para recuperar o timing; ou Zinedine Zidane, que após uma ruptura muscular em 2001 retornou diferente por meses, antes de reencontrar o nível que o levaria ao título da Champions naquele mesmo ano… e aí vem o problema de subestimar jogadores com QI futebolístico fora do comum.

McGinn não é Seedorf nem Zidane, mas tem algo que poucos meias britânicos possuem: a capacidade de aparecer nos momentos de maior pressão coletiva. Aos 31 minutos do segundo tempo, após passe preciso de Watkins pelo lado direito, o escocês bateu de primeira, de canhota, no canto direito do goleiro Ortega — 3 a 0. Três minutos depois, Rogers ajeitou na entrada da área e McGinn repetiu o roteiro, desta vez no canto esquerdo. Dois gols, dois remates de primeira, dois ângulos diferentes. Não foi sorte.

O papel de Emery e o sistema que liberta McGinn

Unai Emery construiu no Villa Park algo que poucos técnicos conseguiram na história recente do futebol inglês: uma identidade tática coerente que não depende de um único nome. Quando McGinn estava lesionado, Buendía — que havia passado quase um ano afastado por lesão grave no joelho antes desta temporada, e que chegou a ser emprestado ao Bayer Leverkusen sem que a compra fosse exercida — assumiu o protagonismo. Nesta quinta, os dois funcionaram em sincronia: Buendía fez o trabalho de criação e conversão do pênalti que virou o agregado aos 12 minutos do segundo tempo; McGinn fechou a conta.

McGinn antes e depois da lesão que quase o apagou do mapa McGinn ressurge das ci
McGinn antes e depois da lesão que quase o apagou do mapa McGinn ressurge das ci

Na avaliação do SportNavo, o que Emery fez com este Villa lembra o que Marcello Lippi fez com a Juventus entre 1994 e 1999: criou um sistema onde a qualidade coletiva supera a dependência individual, mas sabe exatamente quando liberar cada peça para brilhar. O Villa teve Watkins, Buendía e McGinn decisivos no mesmo jogo — três jogadores que passaram por crises físicas ou de confiança nos últimos 18 meses.

Houve um momento de tensão real: aos 24 minutos do segundo tempo, Chris Wood apareceu livre na área após desatenção da zaga e bateu para o gol. Emiliano Martínez fez uma defesa sensacional, evitando o que poderia ter sido um gol que reabria completamente a disputa. Com o 2 a 0 no placar da noite e o agregado em 2 a 1, um gol do Forest naquele instante teria mudado tudo.

"Precisávamos de uma noite assim para mostrar quem somos na Europa", disse McGinn em entrevista após o apito final, segundo relatos da imprensa britânica. "Voltei de uma lesão difícil e queria contribuir de verdade. Hoje foi o jogo mais importante da minha carreira pelo Villa."

Istambul e o Freiburg como próximo capítulo

O adversário na final será o Freiburg, que eliminou o Braga na outra semifinal. O clube alemão, fundado em 1904, nunca disputou uma final europeia — o que torna o confronto marcado para 20 de maio, no Estádio Beşiktaş, em Istambul, uma batalha entre duas histórias de ascensão improvável. O Freiburg é um dos projetos mais coerentes da Bundesliga nas últimas duas décadas, construído com orçamento modesto e identidade clara. O Villa, por sua vez, chega com o peso de 44 anos de espera e um elenco que, pela primeira vez em muito tempo, parece pronto para ganhar algo em nível continental.

É o mesmo cenário que o Porto de José Mourinho viveu em 2004 — clube de médio porte europeu, com jogadores que superaram lesões e ceticismo, chegando a uma final que ninguém esperava — só que agora a aposta é diferente: o Villa tem Emery, tem Martínez, tem McGinn recuperado e tem Watkins com 100 gols no currículo do clube.