É um relógio suíço com pavio curto.
A metáfora serve para Conor McGregor como uma luva: mecanismo de precisão por dentro, instabilidade imprevisível por fora. O irlandês de 37 anos confirmou, em entrevista ao canal Mac Energy, que seu retorno ao UFC está marcado para 11 de julho — no card da Semana Internacional da Luta, o UFC 329, em Las Vegas. O oponente é Max Holloway. O acordo com a organização, segundo o próprio Notorious, foi o melhor de sua carreira. E a última vez que ele pisou num octógono foi em julho de 2021, quando saiu de maca do UFC 264 com a tíbia fraturada após a derrota para Dustin Poirier.
O que aconteceu nos bastidores até o acordo com o UFC
Quatro anos e dez meses. Esse é o intervalo entre a noite traumática do UFC 264 e o que está programado para acontecer no dia 11 de julho. Durante esse período, McGregor acumulou processos judiciais, polêmicas extraesportivas, uma passagem pelo filme Road House e uma série de negociações que, segundo pessoas próximas ao seu time, estacionaram repetidamente por divergências financeiras com o Ultimate. Quando Dana White finalmente confirmou o retorno há cerca de dez dias, o tom foi de resolução — não de improviso.
McGregor foi direto ao ponto na entrevista que circulou nas últimas horas:
"Consegui um ótimo acordo com o UFC. Estou muito feliz. Eles me honraram, finalmente. 11 de julho, e o rival é um cara que eu já venci, Max Holloway. Um lutador consagrado, experiente, ex-campeão mundial do UFC várias vezes, então é um adversário de qualidade."
O detalhe que chama atenção nessa declaração não é a confiança — essa sempre foi marca registrada do irlandês. É a palavra finalmente. Ela revela que a demora não foi de McGregor. Ou pelo menos é o que ele quer que o público acredite. Sem cifras divulgadas, o mercado especula que o pacote inclui percentual de PPV, algo que o ex-campeão duplo já havia exigido em negociações anteriores que não avançaram.
McGregor e Holloway — o que ficou da primeira vez e o que mudou desde então
A primeira luta entre os dois aconteceu em agosto de 2013, no UFC Fight Night 26, em Boston. McGregor venceu por decisão unânime numa luta de peso-pena, quando ambos ainda construíam seus cartéis. Holloway tinha 21 anos e um cartel de 7 vitórias e 3 derrotas. McGregor tinha 25 anos e estava em ascensão meteórica rumo ao cinturão que conquistaria dois anos depois.
O que veio depois para Max Holloway foi, talvez, a maior virada de carreira da história da divisão dos penas. O havaiano acumulou 16 vitórias consecutivas após aquela derrota, conquistou o cinturão dos pesos-penas em 2017, defendeu-o três vezes e construiu um cartel atual de 26 vitórias e 8 derrotas — com nocautes sobre Dustin Poirier, Calvin Kattar e Justin Gaethje, este último considerado por muitos o melhor nocaute de 2024. Holloway chega ao UFC 329 como um dos lutadores mais completos do planeta, independentemente de categoria.
McGregor, por sua vez, chegou a ser campeão simultâneo dos penas (66 kg) e dos leves (70 kg), mas sua última vitória no UFC foi contra Donald Cerrone, em janeiro de 2020 — uma performance de 40 segundos que hoje parece pertencer a outra era geológica do esporte. Desde então, duas derrotas para Poirier e a fratura que encerrou o UFC 264 antes do terceiro round.
"É como um musical — é música para os meus ouvidos. Fiquei tanto tempo afastado, cinco anos. Meu corpo está descansado e a mente está afiada. Estou pronto para voltar", declarou McGregor na mesma entrevista.
O que esperar taticamente no UFC 329 — e o que dizem os que conhecem os dois
A luta está programada para a categoria dos pesos-leves (70 kg), o que significa que Holloway subirá de divisão — algo que ele já fez com sucesso ao nocautear Gaethje pelo título interino dos leves em abril de 2024. McGregor, historicamente, sempre teve dificuldade com a musculatura e o ritmo dos leves após os primeiros rounds, enquanto Holloway é famoso por crescer no combate conforme os rounds avançam.
As opiniões dentro do MMA estão divididas de forma reveladora. Georges St-Pierre, que conhece como ninguém o impacto de uma longa inatividade, expressou preocupação pública sobre qual versão de McGregor aparecerá no octógono após quase cinco anos parado. Do outro lado, Ilia Topuria — atual campeão dos penas e um dos lutadores mais perspicazes da geração atual — vai na contramão e aponta o irlandês como favorito para o duelo.
As odds de apostas, pelo que circula nas principais casas europeias, colocam Holloway como leve favorito, algo entre -140 e -160, dependendo da plataforma. McGregor aparece entre +120 e +135 — números que refletem exatamente essa divisão de opinião: qualquer resultado é plausível, mas a inatividade pesa na conta.
- Última luta de McGregor: derrota para Poirier, UFC 264, julho de 2021 (fratura de tíbia no R1)
- Última luta de Holloway: nocaute sobre Gaethje pelo cinturão interino dos leves, abril de 2024
- Cartel McGregor: 22 vitórias, 6 derrotas no MMA profissional
- Cartel Holloway: 26 vitórias, 8 derrotas no MMA profissional
O ranking e o que está em jogo além do resultado
Uma vitória de McGregor no UFC 329 o colocaria imediatamente na conversa pelo cinturão dos leves, atualmente nas mãos de Islam Makhachev. Uma derrota, especialmente por nocaute ou finalização, provavelmente encerra qualquer narrativa de título — e talvez a própria carreira. Para Holloway, o cenário é igualmente definitivo: uma vitória sobre o lutador mais famoso do mundo, na maior arena de Las Vegas, consolidaria sua candidatura ao cinturão de uma forma que nenhuma outra luta poderia proporcionar. O impacto no ranking dos leves seria imediato para ambos, independentemente de quem sair vencedor.
McGregor garantiu que sua rotina atual está "100% voltada para treinos", dormindo e acordando na academia. Se isso se traduzirá num desempenho competitivo depois de 1.746 dias sem lutar, o octógono da T-Mobile Arena responde em 11 de julho. É um relógio suíço com pavio longo — e o tempo acabou de começar a contar.








