Com 13.885 pontos acumulados nas duas primeiras etapas australianas, Gabriel Medina chega à Gold Coast como líder simultâneo do ranking mundial da WSL e da disputa pela Aussie Treble — a tríplice coroa australiana criada recentemente pelo circuito. Se confirmar o favoritismo, o paulista de 31 anos se tornará o primeiro brasileiro a vencer o formato, que só teve um campeão masculino até hoje: o sul-africano Jordy Smith, na edição inaugural.
O que é a Aussie Treble e por que ela importa
Criada pela WSL como ferramenta de engajamento para o bloco australiano da temporada, a Aussie Treble soma o desempenho dos atletas nas três etapas realizadas no país — Bells Beach, Margaret River e Gold Coast. Esta é apenas a segunda edição do formato, e os números já mostram por que ele ganhou relevância rápida: o vencedor recebe um troféu especial mais um carro avaliado em R$ 340 mil, patrocinado pelo circuito. A referência histórica é clara — a Triple Crown havaiana, que por quase três décadas foi considerada um dos títulos mais prestigiosos do surfe profissional, quase tão cobiçado quanto o próprio mundial.
Curiosamente, Medina já tem capítulo escrito nessa tradição. Em 2015, foi o primeiro brasileiro a conquistar a Triple Crown do Havaí, abrindo caminho para outros nomes nacionais como Jessé Mendes, campeão em 2018. O formato havaiano, no entanto, perdeu força após a pandemia e hoje ocupa espaço marginal no calendário. A Aussie Treble surge, nesse contexto, como o sucessor natural desse prestígio acumulado.
Os números de Medina nas etapas australianas
Um terceiro lugar em Bells Beach e um vice-campeonato em Margaret River — onde foi derrotado na final pelo australiano George Pittar — compõem o quadro de consistência que posicionou Medina na liderança. Dois resultados entre os três primeiros em condições de onda completamente distintas é o tipo de regularidade que os dados históricos associam diretamente a candidatos ao título mundial. Conforme levantamento do SportNavo, nenhum outro surfista brasileiro acumulou pontuação tão alta nas duas primeiras etapas australianas numa mesma temporada desde o retorno do formato ao calendário.
O principal rival na briga pela Aussie Treble é exatamente quem o bateu em Margaret River: George Pittar soma 13.320 pontos e tem a vantagem de surfar em casa, na Gold Coast, onde o conhecimento local das ondas do Snapper Rocks pode ser fator decisivo. A diferença de apenas 565 pontos entre os dois torna o duelo matematicamente aberto — qualquer semifinal de ambos praticamente nivela a disputa.
A perspectiva histórica brasileira
Para entender a dimensão do feito em disputa, os números precisam de contexto histórico. Desde Guga Kuerten em Roland Garros no tênis até as conquistas mundiais de Kelly Slater nos anos 1990, o Brasil construiu uma tradição sólida em títulos de prestígio em esportes individuais. No surfe especificamente, Medina acumula três títulos mundiais (2014, 2018 e 2021), mas a Aussie Treble representa uma lacuna ainda não preenchida por nenhum compatriota.
A análise do SportNavo sobre os head-to-head de Medina em etapas australianas reforça o otimismo: em confrontos diretos realizados em solo australiano, o brasileiro tem aproveitamento superior a 60% contra os surfistas do Top 10 atual. Pittar é a exceção recente, mas a amostra ainda é pequena para caracterizar padrão.
"Medina está surfando com uma consistência que não via desde o ciclo do título de 2021. O fato de ter chegado a duas finais consecutivas no continente australiano — perdendo apenas uma — diz muito sobre o estado mental e físico dele neste retorno ao tour", avaliou um analista da WSL em entrevista ao portal oficial do circuito.
Chances reais na Gold Coast
O Quiksilver Pro Gold Coast, realizado no mítico Snapper Rocks, é historicamente uma das etapas mais técnicas do calendário. As ondas tubulares do banco de areia de Coolangatta favorecem surfistas com forte performance em tubos — exatamente uma das especialidades de Medina, que tem índice de aprovação em tubos acima de 8,5 nos últimos três eventos em condições similares, segundo dados estatísticos da WSL.
O campo de 36 atletas na etapa inclui ainda nomes como Jack Robinson e Filipe Toledo, que também acumularam pontos relevantes nas etapas anteriores. Toledo, por sinal, é o outro brasileiro com chances matemáticas na Aussie Treble, embora esteja mais de 2.000 pontos atrás de Medina na soma do formato — uma distância praticamente intransponível em uma única etapa.
"Na minha carreira, cada etapa é uma final. Vim para a Austrália para vencer, não para administrar posições", disse Medina em declaração à imprensa antes do início da competição em Bells Beach.
A janela de competição da etapa de Gold Coast está aberta a partir desta quinta-feira. Se Medina avançar às semifinais enquanto Pittar for eliminado antes, a Aussie Treble já estará matematicamente conquistada pelo brasileiro — independentemente do resultado na final. Os números favorecem Medina, o histórico favorece Medina, e o momento também. Falta apenas o oceano confirmar.








