Todo mundo sabe que João Fonseca perdeu para Hamad Medjedovic no Masters 1000 de Roma por 3/6, 6/3 e 7/6 (7/1), em 2h24 de partida. O que ninguém esperava era que a cena mais comentada do jogo não fosse nenhuma bola — fosse um gesto. Ao término do confronto, o sérvio de 22 anos colocou as duas mãos unidas na lateral do rosto, simulando alguém dormindo, e em seguida mandou beijos para as arquibancadas tomadas por brasileiros. Uma provocação calculada, fria, filmada e distribuída em loop pelas redes sociais.
Fonseca no Foro Itálico e o roteiro que virou montanha-russa
Fonseca chegou a Roma como 29º do ranking mundial, contra um adversário ranqueado na 67ª posição — uma diferença de 38 posições que, no papel, indicava favoritismo claro para o brasileiro. Nos primeiros dados do jogo, esse favoritismo se confirmou: o carioca de 18 anos abriu 6/3 no primeiro set com autoridade. Mas os números do segundo e terceiro sets contam outra história. Medjedovic fechou o segundo parcial em 6/3 e chegou a abrir duas quebras de vantagem no terceiro — uma vantagem que, historicamente, se converte em vitória em mais de 85% dos casos no circuito ATP.
Fonseca reagiu, empatou o terceiro set e levou o jogo ao tiebreak. Ali, porém, o sérvio foi cirúrgico: 7/1, sem deixar espaço para drama. Os números finais mostram que Medjedovic venceu 72% dos pontos no primeiro serviço, contra 67% de Fonseca — uma diferença pequena, mas consistente durante toda a partida. Os winners também desequilibraram: 32 a 17 em favor do sérvio. Quando os acertos são quase o dobro, a derrota não é coincidência.
"Foi uma montanha-russa, mas os torcedores dele me ajudaram muito, e acho que eu estava bastante focado. Só fiquei quieto, tentei dar o meu melhor e estou feliz por ter passado", disse Medjedovic após a partida.
A declaração tem uma camada de ironia estatística embutida: o sérvio disse que ficou quieto, mas foi ele quem falou durante um dos saques de Fonseca — episódio que gerou reclamação formal do brasileiro ao árbitro da cadeira. Dois jogadores, duas versões, um árbitro no meio. O tênis conhece esse roteiro de cor.
A torcida brasileira em Roma e os limites do apoio em quadra
Desde Gustavo Kuerten no Roland Garros de 2000 — onde Guga venceu o terceiro título em Paris diante de uma torcida que transformou a Philippe-Chatrier numa extensão de Florianópolis — o Brasil não produziu um tenista com esse nível de mobilização de público em torneios europeus. Fonseca, em menos de dois anos de circuito, já conseguiu levar centenas de brasileiros ao Foro Itálico em Roma, num fenômeno de identificação que os dados de busca do Google Trends e as filas de credenciamento confirmam torneio após torneio.
Mas mobilização de torcida e conduta em quadra são métricas diferentes. O regulamento da ATP é claro no artigo referente ao Code of Conduct: barulho durante o serviço do adversário pode ser enquadrado como interferência, e cabe ao árbitro intervir. Medjedovic reclamou mais de uma vez durante a partida. O árbitro pediu silêncio. A torcida, no compasso da Lapa numa noite de quinta-feira, seguiu no próprio ritmo — barulhenta, apaixonada, e eventualmente contraproducente.

A questão não é nova no circuito. Em 2019, a torcida espanhola em Madrid foi advertida durante a semifinal de Rafa Nadal. Em 2023, a torcida italiana em Roma recebeu críticas de Novak Djokovic por interferência sonora. O tênis, ao contrário do futebol, exige silêncio nos momentos de serviço — e esse contrato cultural ainda não foi completamente absorvido pelo público brasileiro que chega aos torneios europeus.
Medjedovic, a provocação e o que ela revela sobre o sérvio
Hamad Medjedovic não é um nome que aparece com frequência nos primeiros escalões do circuito. Ranqueado na 67ª posição, ele construiu sua carreira no saibro com um estilo combativo e pouco diplomático — características que ficaram evidentes tanto durante quanto após a partida em Roma. O gesto do "dormindo" e os beijos enviados à arquibancada não foram um impulso: foram uma resposta consciente ao que o sérvio classificou como pressão injusta.
O problema, do ponto de vista analítico, é que a provocação pós-partida não distingue entre torcida que interferiu e torcida que apenas torceu. Dos brasileiros presentes no Foro Itálico, quantos efetivamente perturbaram os saques? Não há como saber. O que se sabe é que a imagem que circulou pelo mundo foi a de um jogador zombando de uma nação inteira — e isso, independentemente de qualquer julgamento moral, é exatamente o tipo de narrativa que pode energizar Fonseca no próximo capítulo.
"Em determinado momento, o próprio Fonseca reclamou com o juiz após o adversário ter falado no momento em que ele se preparava para sacar", registrou a cobertura do confronto.
Essa reclamação de Fonseca, muitas vezes ignorada na narrativa da provocação pós-jogo, é o dado mais relevante do ponto de vista competitivo. Se o sérvio de fato falou durante o saque, houve violação do mesmo código de conduta que Medjedovic invocou contra a torcida. Dois pesos, uma medida — ou ausência dela.

A leitura de conjunto aponta para um episódio que vai além de um resultado de segunda rodada. Fonseca, 29º do mundo com 18 anos, perde para um adversário 38 posições abaixo no ranking — derrota que dói nos números — mas sai de Roma com uma imagem que a maioria dos tenistas da sua geração não tem: a de alguém que mobiliza torcidas em continentes que não são o seu. Medjedovic, por sua vez, avança para enfrentar o argentino Mariano Navarro, 44º do ranking, nas oitavas de final do Masters 1000 de Roma.
Fonseca tem pela frente Roland Garros, com início em 24 de maio. O Grand Slam parisiense, no saibro onde Guga escreveu a história do tênis brasileiro, será o verdadeiro teste de maturidade — técnica, mental e comportamental. Está com o ranking para competir — falta confirmar que o tiebreak de Roma foi exceção, não padrão.








