— Medvedev caiu na primeira rodada.
— Caiu pra quem?
— Adam Walton. Número 97 do mundo.
— Então Sinner já ganhou Roland Garros.
A conversa é exagerada, mas contém uma verdade incômoda: a eliminação de Daniil Medvedev na terça-feira, 27 de maio, diante do australiano Adam Walton em cinco sets — 6/2, 1/6, 6/1, 1/6 e 6/4 — retirou da metade superior da chave o único homem que havia conseguido arrancar um set de Jannik Sinner no Masters 1000 de Roma, último grande torneio antes de Paris. O russo era cabeça de chave 6. Agora, é mais um nome riscado de um quadro que parecia desenhado para o italiano.
O que a queda de Medvedev revela sobre a metade vazia de Sinner
No saibro parisiense, o que para o argentino é uma catedral — o palco onde Guillermo Vilas construiu uma lenda — para o italiano nascido em San Candido é um laboratório de precisão cirúrgica. Sinner, número 1 do mundo, chega a Roland Garros 2026 com a metade de cima da chave praticamente desimpedida. Seus rivais mais prováveis até a semifinal são Ben Shelton, contra quem acumula nove vitórias consecutivas, e Félix Auger-Aliassime, de quem não perde há cinco confrontos. Medvedev era a única variável com histórico real de competitividade — e ela desapareceu num jogo de altos e baixos contra um wildcard.
O placar contra Walton diz tudo sobre a fragilidade do russo no saibro: dois sets ganhos com autoridade intercalados com dois sets perdidos sem resistência. A irregularidade não é novidade — Medvedev nunca escondeu que a argila é sua superfície menos amada — mas a derrota para um tenista ranqueado na posição 97 do mundo tem um peso simbólico que vai além do resultado. Quem acompanhou o SportNavo ao longo da temporada europeia de saibro sabe que o russo chegou a Paris sem a consistência necessária para sustentar cinco sets no nível exigido pela primeira semana de um Grand Slam.
"Sinto que meu tênis no saibro ainda não está onde precisa estar para competir com os melhores durante duas semanas", admitiu Medvedev em coletiva após a derrota em Roma, onde havia forçado Sinner a disputar um set completo antes de ceder.
A confissão do russo antes mesmo de Paris soava como aviso. O aviso se cumpriu.
Quem pode se beneficiar do vácuo criado na metade de cima
Com Medvedev fora, o espaço mais imediato é ocupado por Francisco Cerúndolo, número 26 do mundo. O argentino, que alcançou as oitavas de final em Roland Garros tanto em 2023 quanto em 2024, enfrentaria o russo na terceira rodada. Agora, seu caminho passa por Hugo Gaston na segunda fase e, na sequência, pelo vencedor do duelo entre Walton e Zachary Svajda — ranqueado na posição 85. Nas oitavas, Cerúndolo enfrenta o sobrevivente da seção encabeçada por Flavio Cobolli (14º do mundo) e Learner Tien (18º). É uma janela concreta para um argentino que conhece o saibro parisiense como poucos fora do top 10.
O backhand cruzado de Cerúndolo corta o ar com uma angulação que poucos tenistas do circuito conseguem defender em movimento. Se o argentino encontrar ritmo desde a segunda rodada, pode chegar às quartas com confiança acumulada — e aí estaria o encontro com Sinner. Confronto que, no estado atual do italiano, não muda o prognóstico final, mas pode gerar um set de alto nível antes da decisão.
A metade de baixo onde os perigos reais estão todos juntos
Enquanto Sinner navega por águas relativamente calmas, a metade inferior da chave parece um torneio dentro do torneio. Alexander Zverev, número 2 do mundo, está lá. Novak Djokovic — o último tenista a derrotar Sinner em um Grand Slam — também. Casper Ruud, o tenista que mais venceu partidas, mais disputou finais e mais conquistou títulos no saibro desde 2020, completa o trio de favoritos. E ainda há Rafael Jódar, a sensação adolescente espanhola que chegou às quartas de final tanto em Roma quanto em Madri nesta temporada, além de João Fonseca, que chega a Paris com a pressão de reverter três derrotas consecutivas.
"Cada derrota me ensina algo que a vitória não consegue", disse Fonseca após a eliminação em Roma, numa maturidade verbal que contrasta com os seus 19 anos e com a sequência negativa que carrega para a Philippe-Chatrier.
Zverev, Djokovic e Ruud não podem se enfrentar antes da semifinal — o que significa que pelo menos dois deles serão eliminados antes de chegar à final. A violência da metade de baixo garante que o finalista saído desse lado chega a Paris exausto e testado. Sinner, se mantiver o ritmo atual, chega descansado.
A conta é simples: Sinner tem 28 vitórias acumuladas na temporada, a metade de cima da chave sem um adversário de histórico comprovado contra ele, e o número 1 do mundo solidificado depois de meses de dominância. Sua estreia está marcada para os próximos dias na quadra Philippe-Chatrier. O primeiro adversário sequer figura no top 50. O caminho até a final nunca esteve tão pavimentado.








