Falhou. E dessa vez o cenário foi mais revelador do que qualquer estatística: Daniil Medvedev, ex-número 1 do mundo, campeão do US Open 2021, foi eliminado na primeira rodada de Flushing Meadows pelo mesmo Benjamin Bonzi que já o havia derrotado em Wimbledon semanas antes — desta vez em cinco sets, com placar de 6-3, 7-5, 6-7(5), 0-6, 6-4, em três horas e 45 minutos de jogo que serão lembrados por muito tempo, mas não pelo tênis praticado.

A narrativa popular sobre Medvedev precisa ser corrigida

Circulou nas redes sociais, e em boa parte da cobertura imediata, a ideia de que o meltdown de Medvedev foi desencadeado por um fotógrafo que invadiu a quadra no momento em que Bonzi servia no match point do terceiro set. A versão é sedutora porque oferece uma causa externa para um efeito interno. O árbitro Greg Allensworth concedeu ao francês um primeiro serviço adicional, interrompendo o jogo por quase sete minutos. Medvedev foi ao árbitro, encarou a câmera posicionada ao lado da cadeira e perguntou em voz alta:

"Are you a man? Are you a man? He wants to go home, guys. He gets paid by the match, not the hour."
O russo ganhou aquele ponto — Bonzi cometeu dupla falta —, venceu o set no tie-break e o quarto set por 6-0. Mas perdeu o quinto. E então destruiu a raquete contra a cadeira como quem precisa transferir para o equipamento uma derrota que só existe dentro de si.

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O fotógrafo foi o gatilho. Não foi a causa. Medvedev chegou ao US Open como 13º cabeça de chave, tendo acumulado apenas uma vitória nos quatro Grand Slams de 2025 — Australian Open (segunda rodada), Roland Garros, Wimbledon e agora Flushing Meadows, todos com saída precoce. Bonzi, sem seeding, venceu o russo pela segunda vez consecutiva em Slam. Não há tragédia: há contabilidade.

O que Boris Becker, McEnroe e os dados dizem em uníssono

A resposta do circuito foi incomum pela unanimidade. Boris Becker, seis vezes campeão de Grand Slam, foi direto nas redes sociais:

"We call this a 'public meltdown'. I think he needs professional help."
Brad Gilbert, ex-número 4 do mundo e técnico que conduziu Andre Agassi ao topo do ranking, corroborou a avaliação. Patrick McEnroe, no podcast Nothing Major Show, foi ainda mais preciso ao afirmar que Medvedev já havia "desistido há meses" — e que o incidente com o fotógrafo apenas "cimentou o quanto ele tem pouca confiança em qualquer coisa".

Craig O'Shannessy, analista australiano que integrou a equipe de Novak Djokovic e trabalhava com seis jogadores em Nova York durante o torneio, ofereceu a leitura mais técnica: "Parece uma combinação de resultados ruins e frustração por não conseguir endireitar o barco." O russo recebeu uma multa de aproximadamente 42.500 dólares da USTA — valor equivalente a cerca de 40% de seu prêmio pela participação —, o que ilustra a extensão formal das consequências.

Colocando em perspectiva comparativa: quando Rafael Nadal atravessou sua crise de 2015-2016, caiu ao 9º lugar do ranking e ficou meses sem título em Slam, mas manteve uma estrutura psicológica que o trouxe de volta ao número 1 em 2017. Andy Murray, após a cirurgia no quadril em 2019, reconstruiu sua carreira com suporte especializado e voltou a jogar Slams competitivamente. O que esses casos têm em comum é o reconhecimento explícito de que o problema existia — algo que Medvedev ainda parece resistir em admitir publicamente, tendo dito à imprensa após a derrota: "I didn't do anything bad."

O paralelo com Andrey Rublev

Não é coincidência que o próprio Rublev, amigo de Medvedev no circuito e também conhecido por explosões emocionais, passou a viajar com um psicólogo esportivo dedicado. Naomi Osaka abriu precedente no tênis feminino ao se afastar dos torneios em 2021 para cuidar da saúde mental, retornando com resultados mais estáveis. O suporte emocional profissionalizado deixou de ser tabu no circuito — e passou a ser, progressivamente, uma vantagem competitiva mensurável.

O que Medvedev ainda pode fazer antes que o ranking feche a conta

Medvedev completou 29 anos em fevereiro de 2025. Tecnicamente, está na janela de maturidade de um tenista de alto rendimento — a mesma faixa etária em que Djokovic venceu o US Open de 2016 e Federer conquistou Wimbledon em 2012. O relógio biológico não é o problema. O problema é que, na hierarquia atual do tênis masculino, Jannik Sinner e Carlos Alcaraz ocupam os dois primeiros lugares do ranking ATP com uma solidez que não se improvisa: Sinner tem 23 anos, Alcaraz tem 22, e ambos combinam estabilidade emocional com nível técnico de elite.

  • 2021: Medvedev vence o US Open, atinge 16 semanas como número 1 em 2022.
  • 2023-2024: Semifinais e quartas em Slams, mas sem títulos de Grand Slam.
  • 2025: Uma vitória em quatro Grand Slams, duas derrotas para Bonzi em sequência, multa de US$ 42.500 no US Open.

O próximo Grand Slam é o Australian Open de janeiro de 2026 — torneio no qual Medvedev foi finalista três vezes, incluindo a derrota para Djokovic em 2022 após liderar por dois sets. Melbourne é, historicamente, a superfície e o contexto em que o russo apresenta seu melhor tênis. Mas chegar a janeiro de 2026 com a mesma estrutura mental que o levou à primeira rodada de Flushing Meadows seria repetir um experimento cujo resultado já é conhecido. A questão não é se ele tem talento para voltar — tem. A questão é se ele vai buscar o suporte que transforma talento em resultado quando a pressão é real.