Existe algum tenista capaz de parar Jannik Sinner no saibro esta temporada? A pergunta circula nos corredores do Foro Italico há semanas, mas ganhou uma resposta incomum nesta semana — não de um ex-campeão de Roland Garros, não de um especialista em terra batida, mas de Daniil Medvedev, o russo que historicamente prefere o concreto à argila e que, mesmo assim, levantou o troféu em Roma em 2023.
O número 1 do mundo chega ao Aberto da Itália carregando uma sequência de 31 vitórias consecutivas em torneios Masters 1000 — nível imediatamente abaixo dos Grand Slams. Sua última derrota nessa categoria remonta a Paris, em outubro de 2025. No circuito geral, a última vez que alguém o venceu foi em fevereiro deste ano, quando Jakub Mensik o eliminou no Aberto do Catar. Desde então, Sinner conquistou cinco Masters 1000 seguidos, feito inédito na história do tênis masculino, e chegou a Roma sem perder um único set.
O que Medvedev disse que os números sozinhos não explicam
Na coletiva de imprensa após sua vitória sobre Thiago Tirante por 6-3 e 6-2, que o colocou nas quartas de final em Roma, Medvedev foi direto ao ponto sobre a percepção de inevitabilidade em torno do italiano. Ele não negou a qualidade de Sinner — fez o oposto, na verdade.
"Existe sempre uma chance de vencer Sinner, mais ou menos. Mas ultimamente ele raramente tem um dia ruim. Carlos e Novak conseguem acompanhá-lo. Joguei contra ele em Indian Wells, mas nunca no saibro. Se Jannik perder, não fique surpreso — isso é esporte."
A declaração tem peso contextual. Medvedev enfrentou Sinner na final de Indian Wells, em março, depois de eliminar Carlos Alcaraz nas semifinais. Mesmo assim, não conseguiu impedir a vitória do italiano em sets diretos. Ou seja, o russo fala de dentro do problema, não de fora. Ao mesmo tempo, ele elogiou a estabilidade de Sinner em termos que poucas pessoas articularam com tanta precisão:
"Qualquer um pode ter um dia ruim. Pode ter tomado um café da manhã ruim, seu estômago dói, você não dormiu bem. Fica claro que isso não é o que causa a derrota, mas o nível pode cair um pouco. Para ele, não cai muito — e mesmo quando cai, é suficiente para vencer."
A trajetória irregular de Medvedev no saibro e o que ela revela
Para entender o valor do que Medvedev diz, é necessário entender o que ele atravessou nas últimas semanas. Em Monte Carlo, o russo sofreu uma derrota por 6-0 e 6-0 para Matteo Berrettini — uma das partidas mais desconcertantes da temporada europeia de saibro — e reagiu quebrando a raquete diversas vezes, o que lhe rendeu uma multa de 6.000 euros por conduta antidesportiva. Em Madri, se recuperou parcialmente, vencendo três partidas antes de ser eliminado por Flavio Cobolli.
Em Roma, o caminho foi mais controlado: walkover na abertura após a desistência de Tomas Machac por lesão, vitória sobre Pablo Llamas Ruiz de virada (3-6, 6-4, 6-2) e triunfo tranquilo sobre Tirante. O russo enfrenta Martin Landaluce nas quartas e, em caso de classificação, pode cruzar com Sinner ou Andrey Rublev na semifinal.
Esse percurso acidentado tem paralelos históricos no próprio Medvedev. Em 2023, o russo chegou a Roma após um início de temporada de saibro igualmente irregular e terminou campeão, eliminando Holger Rune na final sem ceder mais de um set em toda a competição. A capacidade de recalibrar dentro de uma mesma temporada é uma das marcas de gerações que produzem campeões de Grand Slam — e Medvedev tem um US Open no currículo para embasar essa leitura.
Sinner, Alcaraz e o vácuo de poder que define esta geração no saibro
Há um dado que contextualiza a dominância de Sinner de forma ainda mais brutal: com Carlos Alcaraz fora de Roma por lesão e Novak Djokovic sem vencer uma partida no circuito desde março deste ano, o italiano opera em um vácuo de oposição que raramente se viu no tênis masculino de alto nível. Para encontrar algo parecido, é preciso voltar a 2004, quando Roger Federer disputou 17 Grand Slams consecutivos sem que nenhum adversário conseguisse encadear uma série de vitórias contra ele — mas mesmo Federer naquele ciclo tinha na sombra um jovem Rafael Nadal prestes a estrear no Roland Garros.
A comparação estilística entre Medvedev e Sinner também é reveladora. O russo apoia seu jogo em saque, devolução e resistência física em superfícies rápidas. No saibro, precisa de mais tempo para ajustar o timing. Sinner, ao contrário, construiu uma base de jogo que transita entre superfícies com eficiência incomum — venceu o Australian Open duas vezes, o US Open e agora cinco Masters 1000 consecutivos em argila. Esse perfil polivalente é mais próximo de Djokovic do que de Federer ou Nadal, o que torna a comparação geracional ainda mais interessante.
Do ponto de vista do ranking FIVB — e aqui faço uma analogia com o vôlei, onde a Itália também domina ciclos com consistência estrutural — o que Sinner demonstra não é apenas talento individual, mas um sistema de rendimento que raramente colapsa sob pressão. A Itália do vôlei masculino, atual campeã olímpica, e Sinner compartilham essa característica: a vitória não depende de um dia de inspiração, mas de um padrão mínimo que já é suficiente para bater a maioria dos adversários.
A semifinal do Internazionali BNL d'Italia está prevista para o fim de semana de 17 e 18 de maio. Se Medvedev eliminar Landaluce e Sinner superar Rublev nas quartas — como o placar de 6-3, 6-4 desta quinta-feira (14 de maio) sugere que pode acontecer —, o duelo entre os dois será o primeiro encontro deles em saibro na história do circuito profissional. Vale gravar o sábado.










