Subiu. Melk Costa não apenas aceitou a luta principal — ele chegou até ela com uma sequência que poucos atletas brasileiros construíram no peso pena com tanta consistência: seis vitórias seguidas no UFC, quatro delas só em 2025, e agora, no sábado (16), o nome dele encabeça o card pela primeira vez na carreira.
O paraense que construiu o caminho no silêncio do octógono
Melk Costa não chegou ao topo do card com um nocaute viral ou uma promoção de marketing. Chegou no volume. Em 2025, lutou quatro vezes no UFC e venceu todas — uma frequência que nem os próprios gestores da organização conseguem ignorar. No início de 2026, já somou mais uma: a vitória sobre Dan Ige, veterano com mais de 20 lutas no Ultimate. Agora, Allen é o próximo degrau.
"É tudo novo para mim, é incrível. Sempre acreditei que voaria alto um dia. Sabia que meu dia chegaria e a organização também", disse Melk ao MMAJunkie.
Essa frase resume bem a mentalidade que o colocou aqui. Enquanto outros atletas reclamam de matchmaking ou esperam o UFC ligar, o paraense foi construindo argumento dentro da jaula — round a round, decisão por decisão, finalização por finalização. O trabalho fala antes da entrevista.
Quando pressiona com volume de golpes, ele obriga o adversário a recuar e perde o fio do wrestling do oponente. Quando usa o clinch, transiciona para derrubadas com eficiência acima de 60% — dado que coloca seu takedown defense em perspectiva: ele ataca antes de precisar defender.
Arnold Allen não é um teste qualquer para Melk Costa
Quem não planta não colhe — e Allen plantou muito nessa divisão. O britânico tem 21 vitórias na carreira, com sequência de dez triunfos consecutivos encerrada apenas por uma derrota para Giga Chikadze em 2023. Voltou com vitória sobre Movsar Evloev em 2024, o mesmo Evloev que o campeão Alexander Volkanovski cogita como próxima defesa de cinturão. Ou seja, Allen não é um nome de transição — ele é um termômetro real do nível de Melk.
No aspecto técnico, o inglês tem reach de 185 cm, o que representa vantagem de alcance em relação ao brasileiro. Seu jab funciona como ferramenta de distância e ele usa bem o movimento lateral para resetar posição. A striking accuracy de Allen gira em torno de 48% de significant strikes conectados por tentativa — número sólido para a categoria.
O ponto crítico para Melk é o wrestling defense de Allen: o britânico neutraliza mais de 70% das tentativas de queda. Isso significa que o brasileiro não vai resolver essa luta só no chão. Vai precisar convencer no striking ou forçar o volume até desgastar o adversário nos rounds finais.
Quando Melk mantém pressão constante com jabs e low kicks nos dois primeiros rounds, ele condiciona o oponente a errar. Quando chega ao terceiro round com vantagem física, a porcentagem de finalização e TKO nos rounds finais da sua carreira sobe consideravelmente. Esse padrão é o maior ativo que ele carrega para o sábado.
O que uma vitória sobre Allen representa na mesa do UFC
O próprio Melk traçou o mapa com clareza. Seu objetivo declarado para 2026 é fazer três lutas e terminar o ano com um title shot garantido. Com a vitória sobre Ige já no bolso e Allen à frente, uma segunda vitória no ano colocaria o paraense em posição difícil de ignorar no ranking dos penas.
"É sobre ter objetivos em mente. No ano passado, eu queria lutar quatro vezes, e consegui. Neste ano, quero lutar três vezes e lutar pelo cinturão", explicou o brasileiro.
O cenário do cinturão, porém, tem variáveis fora do controle de Melk. Alexander Volkanovski, campeão dos penas, sinalizou interesse em enfrentar Evloev, e o próprio Melk admitiu que pode acabar disputando o título contra outro adversário que não o australiano.
"Nem sei se lutarei contra o Volkanovski. Acho que ele vai lutar contra o Evloev, e talvez eu o veja parando. Mas é um sonho pessoal meu lutar contra o Volk. Se ele quiser lutar comigo antes de se aposentar, será um prazer", afirmou Melk.
Essa transparência é estratégica. Melk não está apostando em um nome específico — está apostando no próprio desempenho como argumento irrefutável. Vencer Allen coloca o paraense entre os cinco melhores do mundo na categoria, independente de quem segure o cinturão. E com o UFC buscando narrativas de lutadores ativos e consistentes, um brasileiro que faz três lutas por ano com vitórias sobre nomes do top-15 tem apelo comercial e esportivo ao mesmo tempo.
A luta contra Arnold Allen acontece no sábado (16), com Melk Costa como headliner de um card do UFC pela primeira vez na carreira. Uma vitória e o Pará terá, pela primeira vez na história da organização, um legítimo candidato ao cinturão dos penas.








