A luz da sala de reuniões do Parque São Jorge ficou acesa até tarde na semana passada. Memphis Depay, 30 anos, camisa 10 do Corinthians, topou receber menos. A pergunta que o torcedor alvinegro quer respondida agora não é sobre a vontade do jogador — é sobre quem vai colocar dinheiro na mesa para viabilizar a permanência antes de 20 de junho, data em que o contrato atual expira.

O que Marcelo Paz disse e o que ficou nas entrelinhas

O executivo de futebol Marcelo Paz foi ao programa Derby Todo Dia, apresentado pelos jornalistas Marília Ruiz e Fábio Piperno, e usou uma frase que resume o estado da negociação com precisão cirúrgica.

"Fica claro que ele entendeu claramente e aceitou que, para permanecer no clube, o contrato não vai ser repetido. Vai ter que ser uma condição menor, consideravelmente menor, diferente da atual. Ele já entendeu isso e já aceitou. E agora a gente está buscando viabilizar isso com parceiros", declarou Paz.

A palavra "consideravelmente" não foi acidental. O salário atual de Memphis está entre os mais altos já pagos na história do futebol brasileiro, fruto de um acordo firmado em setembro de 2024 que incluiu luvas, bônus de desempenho e direitos de imagem estruturados para atrair um atleta que havia rescindido com o Atlético de Madrid. O Corinthians, à época, precisava de um nome capaz de movimentar patrocinadores — e conseguiu. O problema é que a equação financeira nunca se sustentou exclusivamente com receitas do clube.

Decidiu. Memphis abriu mão da cifra original. Mas o Corinthians ainda não fechou os parceiros que cobrirão o novo salário, e é aí que a renovação trava.

A crise financeira do Corinthians como pano de fundo real da negociação

O Corinthians carrega uma dívida que supera R$ 2 bilhões, distribuída entre obrigações tributárias, passivos com fornecedores e parcelas de contratos de reforços anteriores. A gestão atual tem buscado reestruturar esse passivo, mas o espaço para assumir compromissos salariais de longo prazo sem contrapartida comercial é praticamente nulo. A renovação com Memphis até 2028, portanto, só se viabiliza se um ou mais parceiros toparem bancar parte relevante da folha — modelo que o próprio clube já usou para a contratação original do holandês.

Na avaliação do SportNavo, a lógica de buscar patrocinadores para custear salários de estrelas é legítima, mas expõe o clube a uma vulnerabilidade estrutural: se o parceiro sair, o contrato vira um problema imediato. Foi exatamente essa engrenagem que criou tensões em outros acordos milionários do futebol brasileiro nos últimos anos, e o Corinthians conhece esse risco melhor do que qualquer outro clube.

Os números de Memphis em 77 partidas com a camisa alvinegra — 20 gols e 15 assistências — justificam o interesse em mantê-lo. O gol do título da Copa do Brasil de 2025, por si só, já consolidou o holandês como protagonista de um momento histórico do clube. Mas futebol, como qualquer negócio, cobra mais do que memória afetiva.

O que ainda falta resolver antes de 20 de junho

Memphis está fora de campo há mais de um mês por causa de uma lesão na coxa direita, sofrida no empate contra o Flamengo. A previsão de retorno é para o jogo contra o Barra-SC, na próxima quinta-feira, dia 14 de maio — uma partida que também funciona como teste físico e, indiretamente, como vitrine para potenciais parceiros comerciais avaliarem a condição do atleta antes de assinar qualquer acordo.

O prazo é curto. Entre o retorno previsto de Memphis ao campo no dia 14 e o vencimento do contrato em 20 de junho, há pouco mais de cinco semanas. Nesse intervalo, o Corinthians precisa fechar ao menos um parceiro comercial disposto a assumir parte do salário, estruturar as cláusulas do novo contrato — incluindo eventuais metas de desempenho e direitos de imagem — e formalizar tudo dentro do compliance exigido pela CBF.

Contratos de jogadores estrangeiros no Brasil têm especificidades tributárias que encarecem o custo real em até 30% acima do salário bruto acordado, o que torna ainda mais delicada a negociação com parceiros que, em geral, enxergam apenas o valor de exposição de marca, não os encargos empregatícios.

Se a renovação sair, Memphis chega aos 31 anos em fevereiro de 2027 ainda com contrato vigente — o que significa que o Corinthians apostaria em um ciclo de pelo menos 18 meses com o holandês como referência ofensiva. Se não sair, o clube perde de graça o autor do gol mais importante da temporada passada, sem qualquer compensação financeira pela saída. O relógio marca 45 dias.