Não, Memphis Depay não foi convocado por saudosismo ou por peso de currículo. A narrativa que circulou nas últimas semanas — a de um veterano segurando uma vaga por nome, não por forma — desmorona quando se olha para o calendário com atenção: o atacante do Corinthians voltou a jogar no último final de semana, encerrando dois meses de ausência por lesão na coxa, e Ronald Koeman esperou exatamente esse retorno para fechar a lista de 26 convocados da Holanda divulgada nesta quarta-feira, 27 de maio.

A lesão que quase virou despedida silenciosa

Havia um cenário real sobre a mesa: Memphis fora da Copa do Mundo por conta de um problema muscular na coxa que o tirou dos gramados por oito semanas. Dois meses de ausência, para um atleta de 30 anos que passou boa parte da última temporada alternando atuações de alto nível com intermitências físicas, poderiam ter sido o argumento definitivo para Koeman olhar para outras opções no ataque. O técnico holandês, porém, aguardou. E o atacante entregou o sinal mínimo exigido — minutos em campo no fim de semana — para que a convocação se tornasse inevitável.

A lógica de Koeman tem respaldo estatístico: Memphis é o maior artilheiro da história da seleção holandesa, número que carrega um peso simbólico e funcional que nenhum nome da lista atual sequer se aproxima de replicar a curto prazo. Ignorar esse dado seria uma escolha tão arriscada quanto mantê-lo sem condições físicas plenas.

"Quando você tem o maior artilheiro da história do seu país disponível, mesmo que 80%, você pensa duas vezes antes de deixá-lo em casa", disse um comentarista esportivo especializado em futebol europeu ao analisar a convocação.

O vazio deixado por Xavi Simons muda o peso de Memphis na lista

A ausência de Xavi Simons por lesão no joelho transforma a presença de Memphis de coadjuvante experiente em peça de encaixe central no esquema ofensivo holandês. O meia-atacante do Tottenham Hotspur vinha sendo uma das figuras mais dinâmicas da Oranje nos últimos ciclos, e sua ausência cria um vácuo criativo que nenhum dos convocados preenche com a mesma naturalidade. Koeman perdeu também Jeremie Frimpong, lateral do Liverpool, e Stefan de Vrij, zagueiro da Inter de Milão — desfalques que redesenham o perfil da equipe, mas é a ausência de Simons que mais altera o balanço entre criação e finalização.

Nesse contexto, Memphis deixa de ser o artilheiro veterano que entra nos últimos vinte minutos para se tornar o referencial de um ataque que conta com Cody Gakpo, do Liverpool, Donyell Malen, da Roma, e Brian Brobbey, do Sunderland, mas que carece de alguém capaz de decidir em situações de pressão máxima — exatamente o que o ex-Atlético de Madrid e Barcelona construiu ao longo de uma carreira que o levou, mais recentemente, ao Parque São Jorge.

O SportNavo acompanhou de perto os bastidores da convocação holandesa nas últimas semanas, e a percepção predominante entre os analistas consultados era de que Koeman só fecharia a lista após ver Memphis em campo — o que finalmente aconteceu no fim de semana anterior ao anúncio.

O Grupo F e a estreia contra o Japão em Dallas

A Holanda caiu no Grupo F da Copa do Mundo ao lado de Japão, Suécia e Tunísia. O primeiro adversário será os japoneses, no dia 14 de junho, no AT&T Stadium, em Dallas — um estádio com capacidade para mais de 100 mil pessoas e que já sediou grandes eventos da NFL. A estreia contra a seleção asiática, conhecida pela organização tática e pela intensidade defensiva, exige justamente o tipo de jogador capaz de criar algo do nada numa partida travada.

A lista completa tem três goleiros — Mark Flekken, do Bayer Leverkusen, Bart Verbruggen, do Brighton, e Robin Roefs, do Sunderland — e uma linha defensiva liderada por Virgil van Dijk, do Liverpool, e Jurriën Timber, do Arsenal. No meio, Frenkie de Jong, do Barcelona, e Ryan Gravenberch, também do Liverpool, são os nomes de maior peso. No ataque, além de Memphis, figuram Gakpo, Justin Kluivert, do Bournemouth, Noa Lang, do Galatasaray, Wout Weghorst, do Ajax, e Crysencio Summerville, do West Ham.

Resta à Holanda transformar oito semanas de reabilitação em noventa minutos de Copa. Memphis tem até 14 de junho para provar que Koeman acertou ao esperar. São 18 dias.