— Você acha que o Japão tem chance contra a Holanda?
— Eles bateram a Inglaterra. A Inglaterra.
— Então tá. Vai ser jogo.
A conversa imaginada entre dois torcedores num bar resume com precisão o que está em jogo neste domingo, dia 14 de junho, às 17h (horário de Brasília), no AT&T Stadium, em Dallas, Texas. Holanda e Japão abrem suas campanhas na Copa do Mundo de 2026 num confronto que vai muito além de três pontos: o vencedor assume o controle psicológico do Grupo F — que também reúne Suécia e Tunísia — e passa a ditar o ritmo das rodadas seguintes.
O peso de estrear no Grupo F sem margem para erro
Grupos com quatro seleções de níveis distintos costumam ser decididos logo na primeira rodada. O Grupo F não é exceção. Holanda e Japão são, ao menos no papel, os candidatos naturais às duas vagas nas oitavas de final, e uma derrota logo de saída obrigaria o perdedor a depender de resultados alheios nas rodadas seguintes. A Holanda chega ao torneio como vice-campeã mundial em três ocasiões — 1974, 1978 e 2010 — mas ainda busca o título que escapou em todas essas finais. O Japão, por sua vez, tem como melhor resultado histórico as oitavas de final de 2002, quando sediou o torneio ao lado da Coreia do Sul, e tenta agora superar essa marca.
O técnico holandês Ronald Koeman — ex-zagueiro campeão europeu em 1988 — montou um grupo com sólida base europeia: o zagueiro Virgil van Dijk lidera a defesa, Frenkie de Jong organiza o meio-campo e Cody Gakpo carrega responsabilidade ofensiva. Memphis Depay, atacante do Corinthians e principal nome carismático do elenco, não deve começar como titular, segundo informações da comissão técnica holandesa. Koeman prefere preservá-lo para entrar e desequilibrar no segundo tempo — uma aposta de alto risco numa estreia.
Japão aposta em Kubo e no 3-4-3 para surpreender
O técnico Hajime Moriyasu deve escalar o Japão com três zagueiros — entre eles Hiroki Ito, do Bayern de Munique — numa estrutura de 3-4-3 que favorece a saída rápida de bola e a transição ofensiva. A mente criativa do esquema é Takefusa Kubo, do Real Sociedad, meia-atacante de 23 anos que chegou a esta Copa como o jogador mais valorizado do elenco japonês.

A preparação japonesa para a Copa foi, no mínimo, impressionante. Nos dois últimos amistosos antes da estreia, a seleção de Moriyasu venceu a Inglaterra e a Escócia — resultados que não são apenas morais, mas táticos: mostraram que o Japão é capaz de pressionar alto, recuperar a bola no campo adversário e converter transições rápidas em gol. Segundo o treinador japonês, em entrevista coletiva antes do embarque para os EUA,
"Chegamos aqui com confiança, mas sabemos que cada jogo na Copa é diferente de qualquer amistoso. A Holanda tem qualidade individual que exige atenção máxima."
Desfalques que mudam o equilíbrio em campo
Dois cortes marcaram a preparação das seleções e pesam diretamente sobre o equilíbrio tático do confronto. Do lado holandês, o atacante Ekitiké — revelação do futebol europeu na temporada 2025/2026 — foi cortado por lesão, reduzindo as opções ofensivas de Koeman e aumentando a dependência de Gakpo e Brobbey como titulares. Do lado japonês, a ausência de Wataru Endo, volante do Liverpool e capitão da seleção, retira do time a principal referência de liderança e de marcação no meio-campo.
A perda de Endo — um dos melhores volantes defensivos da Premier League na temporada 2025/2026 — abre espaço para Daichi Kamada e Kaishu Sano assumirem a dupla pivô. Moriyasu aposta na intensidade coletiva para compensar a ausência individual. Já Koeman, sem Ekitiké, tem em Ryan Gravenberch e Tijjani Reijnders — ambos do Liverpool e do Milan, respectivamente — os responsáveis por dar volume ao meio-campo holandês antes de Memphis eventualmente entrar.
"Ekitiké faz muita falta, mas temos qualidade para suprir. O grupo está pronto", afirmou Van Dijk em entrevista ao site oficial da Fifa durante a semana de preparação em Dallas.
Prováveis escalações, arbitragem e onde assistir
A Holanda deve entrar em campo com Bart Verbruggen no gol; Denzel Dumfries, Van de Ven, Van Dijk e Nathan Aké na defesa; Ryan Gravenberch, Frenkie de Jong e Tijjani Reijnders no meio; e Donyell Malen, Cody Gakpo e Brian Brobbey no ataque. O Japão deve escalar Zion Suzuki; Hiroki Ito, Shogo Taniguchi e Tsuyoshi Watanabe na linha de três; Ritsu Doan, Daichi Kamada, Keito Nakamura e Kaishu Sano no meio; Ayase Ueda e Takefusa Kubo no setor ofensivo.
A arbitragem ficará sob responsabilidade do americano Ismail Elfath, auxiliado por Corey Parker e Kyle Atkins — trio dos EUA, o que elimina qualquer vantagem de adaptação climática. A partida terá transmissão ao vivo pela CazéTV, disponível no Disney+. O AT&T Stadium — arena com capacidade para mais de 80 mil torcedores, casa do Dallas Cowboys na NFL — promete um ambiente de alta pressão para ambas as seleções.
Holanda e Japão voltam a campo na segunda rodada do Grupo F — os holandeses em 18 de junho, diante da Suécia, e os japoneses em 19 de junho, contra a Tunísia. Mas o placar desta tarde em Dallas já carregará consequências: quem vencer chegará à segunda rodada com a classificação quase encaminhada; quem perder precisará vencer os dois jogos seguintes. Em 18 de junho saberemos se a aposta de Koeman em Memphis no banco foi genialidade tática ou erro de leitura do momento.








