Jogar menos e pontuar mais. O Cruzeiro fez exatamente isso na noite desta quarta-feira, 6 de maio, no Estádio San Carlos de Apoquindo, em Santiago: perdeu um jogador aos dois minutos do segundo tempo, abdicou do ataque, construiu uma trincheira azul na entrada da área e saiu com o empate em 0 a 0 contra a Universidad Católica pela 4ª rodada do Grupo D da Libertadores. O paradoxo é real — a Raposa jogou pior quando tinha onze e melhor quando ficou com dez. A explicação para isso está no lance que mudou tudo.
O número que define a noite no Chile
Dois minutos. Foi o tempo que o segundo tempo durou antes de Keny Arroyo ser expulso pelo árbitro colombiano Andrés Rojas. O equatoriano entrou por trás em Zuqui numa disputa de bola, o argentino valorizou o contato com um exagero teatral — nas palavras do próprio técnico Artur Jorge, a punição foi exagerada — e o cartão vermelho direto saiu sem hesitação. Arroyo suplicou para que o VAR revertesse a decisão. O VAR não chamou. Era a segunda expulsão consecutiva do atacante em jogos da competição, e o Cruzeiro precisaria aguentar mais de 48 minutos com dez homens sob frio de 12 graus e gramado escorregadio, com o estádio quase lotado em seus 20 mil lugares.
O dado que sintetiza a noite é sete: sete pontos conquistados pelo Cruzeiro em quatro rodadas, o mesmo número da Católica, que lidera o grupo pelo critério de confronto direto — os chilenos venceram no Mineirão por 2 a 1 no turno. Boca Juniors aparece logo atrás, com seis pontos, após perder para o Barcelona de Guayaquil por 1 a 0 na mesma rodada. O grupo está embolado, tenso e vai se decidir nos detalhes.
A falta que o Cruzeiro não levou cartão — e a que custou um jogador
O campo pesado e as muitas faltas — 15 no total, nove pelo lado chileno — travaram o primeiro tempo. A Católica apostou na marcação dura, especialmente sobre Gerson, que ditava o ritmo celeste um pouco mais recuado do que Matheus Pereira. O próprio Artur Jorge reclamou tanto que levou cartão amarelo na beira do campo. Aos 14 minutos, Matheus Pereira ficou com a sobra na área e finalizou bloqueado. Aos 18, Kaio Jorge recebeu passe magistral, driblou o goleiro, mas sem ângulo chutou para fora — a chance mais clara do jogo até então. O goleiro Otávio, por sua vez, salvou em defesa de muito reflexo quando Montes entrou livre na área chilena.
Quando a expulsão aconteceu, a contradição ficou explícita: no primeiro tempo, Gerson sofreu exatamente a mesma falta no pé — entrada por trás, mesma intensidade — e o chileno responsável não viu sequer o amarelo. Aos dois minutos do segundo tempo, Arroyo cometeu o mesmo tipo de lance e foi para o chuveiro. Artur Jorge não poupou a análise.
"Não discuto se foi falta, mas parece exagerado. Tiveram jogos com momentos mais agressivos e não acontece nada. Para nós, aconteceu. Em minha opinião, o cartão vermelho foi exagerado", disse o técnico português após a partida.
A muralha azul que frustrou Santiago e projetou La Bombonera
Quando Artur Jorge precisou reorganizar o time com dez, o plano ofensivo foi descartado em quatro minutos. O Cruzeiro recuou as linhas, Fabrício Bruno e Kaiki dominaram o jogo aéreo, e Otávio — o jovem goleiro que definitivamente tirou Matheus Nunes do banco — virou o protagonista da noite. Aos dez minutos do segundo tempo, ele se esticou para interceptar cruzamento rasteiro com Zampedri livre, de frente para o gol. Aos 41, defendeu chute rasteiro de Giani. A Católica cruzou dezenas de bolas na área, mas esbarrou na falta de criatividade e na solidez defensiva celeste.
Quando a Raposa tentou o contra-ataque nos minutos finais, ainda buscou o gol — Artur Jorge destacou que a equipe chegou ao ataque para tentar vencer, mesmo em desvantagem numérica. O comportamento tático no segundo tempo foi, ironicamente, mais disciplinado do que nos 45 minutos iniciais, quando o Cruzeiro tinha onze e desperdiçou as melhores oportunidades.
"Pelo que foi o contexto do jogo, quando não podemos ganhar temos que fazer tudo para não perder. A equipe teve esse princípio e se comportou no segundo tempo de forma excepcional para segurar o ponto", completou Artur Jorge.
O histórico de arbitragens polêmicas contra times brasileiros na Libertadores não é novidade — e a noite em Santiago acrescentou mais um capítulo. A assimetria entre a falta sofrida por Gerson, sem punição, e a falta cometida por Arroyo, com vermelho direto, no mesmo jogo, alimenta o debate sobre critérios da Conmebol. O árbitro Andrés Rojas não chamou o VAR para revisar a decisão, mesmo sob reclamação generalizada do banco celeste.
Com sete pontos, o Cruzeiro viaja para Buenos Aires no dia 19 de maio para enfrentar o Boca Juniors em La Bombonera — um duelo que pode definir quem avança na liderança do Grupo D. Antes disso, a Raposa enfrenta o Bahia no sábado, dia 9, às 21h (horário de Brasília), fora de casa pelo Brasileirão. A pergunta sobre o que teria acontecido se Arroyo tivesse ficado em campo ficará sem resposta — mas a de 19 de maio, em La Bombonera, será respondida com bola rolando.










